jan
20

O Megaupload é um maiores sites de compartilhamento de arquivos do mundo. Ou era. Foi fechado nesta semana, após investigação e ação repressiva do FBI, que declarou que o Megaupload fazia parte de uma organização criminosa  mundial de pirataria na internet.

A ação do FBI contra o Megaupload e outros sites  ocorre justamente após a onda  de protestos mundiais contra projetos de lei antipirataria, que restringem a liberdade na internet: os famigerados SOPA e PIPA. Os protestos fizeram com quem vários políticos retirassem o apoio ao Projeto e até mesmo Obama se pronunciasse contra as leis.  A ação do FBI parece afirmar que a repressão não se tornará menor na ausência dessas leis: terão muito mais trabalho, no entanto, continuarão a perseguir os que estão ligados ao compartilhamento.

O caso, porém, também rendeu dor de cabeça para os ianques, que não se limitou às alegações frequentemente inócuas de que tais ações seriam um abuso contra os direitos democráticos na internet.  Anonymous, mais uma vez, entrou em cena. E assim,  como represália ao fechamento do Megaupload, se iniciou um dos maiores ataques do grupo, com mais de vinte e cinco mil computadores atuando através de DDoS, cujos primeiros alvos foram o Departamento de Justiça norte-americano e entidades representativas das indústrias de música e cinema.

DDoS é a sigla para Distribuited Denial of Service. Consiste em bloquear ou sobrecarregar um site através de um grande número de acessos simultâneos que irão gerar um fluxo de  informações igualmente grande ao servidor que, não podendo responder a todos os pedidos, é totalmente bloqueado. Imaginem o site da Receita Federal no último dia da entrega da declaração: todo mundo acessando e por causa dessa grande demanda  o sistema fica lento, quase parando. O DDoS é bem pior, o site fica tão sobrecarregado que pára e sai do ar. É um protesto – semelhante ao que ocorre quando as pessoas vão para a rua com cartazes e impedem a circulação normal de pessoas e veículos. A diferença é que com o DDoS os manifestantes não se expõem ao gás lacrimogênio e aos cassetetes da polícia. Não se rouba nada, não se perde nada. Quando o protesto acaba, o site volta a sua normalidade.

Em artigo publicado nesta semana, na revista Triplecanopy, antropóloga Gabriela Coleman diz que o Anonymous é  por natureza e intenção difícil de definir, pois é um nome utilizado por vários grupos de hackers, ativistas, defensores de direitos humanos, geeks,  etc.; um conjunto de idéias e ideais adotados por estas pessoas e centrados no anonimato;  uma bandeira para ações coletivas on line e no mundo real que vão desde práticas ousadas, mas triviais, ao apoio tecnológico oferecido ao revolucionários árabes, em práticas ora pacíficas e legais,  às vezes ilícitas,  mas frequentemente numa grande área cinza no que tange à moralidade e legalidade.

A antropóloga começou a estudar Anonymous em 2008, quando o mesmo lançou um ataque contra a Igreja da Cientologia. Afirma que o grupo não possui uma filosofia consistente ou um programa político, apesar do compromisso com o anonimato e o livre fluxo de informação, sendo marcado ainda por um coletivo que possui o LOL, a brincadeira, a travessura em diversos níveis,  tímida ou macabra, tanto como um ethos quanto como um objetivo.  As ações do Anonymous, designadas  por ela de irreverentes, frequentemente destrutivas e ocasionalmente vingativas, ofereceria uma lição do que Ernst Bloch chamou de “princípio da esperança” ao trabalhar concomitante como filósofo e arqueólogo, trazendo à tona mensagens esquecidas em canções, poemas e rituais, demonstrando que o desejo de um mundo melhor, independente da época, sempre esteve em nosso meio.

Fazendo um paralelo entre as regras de redes sociais como Facebook,  que exigem que lá se esteja com o perfil verdadeiro, em nome de um alegada transparência, e o anonimato característico do Anonymous, Coleman afirma: “Para os que usam a máscara de Guy Fawks, já associada com o Anonymous, é esta – e não a comercial transparência do Facebook,  a promessa da internet, que implica negociações entre o indivíduo e o coletivo”.

Para saber mais:

COLEMAN, Gabriela. “Our Weirdness Is Free”.  Disponível em: http://canopycanopycanopy.com/15/our_weirdness_is_free. Acessado em: 19.01.12.

E quem quiser contactar o Anonymous no Twitter:

twitter/com/anonymousIRC

jan
14

Diz Spinoza que um corpo é feito de relações com outros corpos e que, dependendo dessas relações, um  sujeito poderia ser fraco ou forte, triste ou alegre. E o que pode um corpo? Dependeria de sua reação ao ser afetado por outros corpos e do quanto seria afetado. E Spinoza completa: ainda não se sabe o que pode um corpo.

Catálogo de Indisciplinas inicia este post com Spinoza para anunciar que aqui falará sobre o corpo. Esse mesmo que tem sido subestimado pelas religiões ao escolherem dividir um sujeito em corpo e alma e afirmar a supremacia desta sobre aquele.

Catálogo de Indisciplinas também não sabe o que pode um corpo, mas se espanta e observa o seguinte:

1. Raimund Hoghe

É um aclamado dançarino e coreógrafo de dança contemporânea alemão. Baixinho e corcunda, seu corpo está na contramão do que é esperado de um bailarino.

“Pier Paolo Pasolini falou sobre jogar o corpo na luta. Estas palavras me inspiraram a subir no palco. Outras inspirações são a realidade que me cerca, o tempo presente, as minhas memórias da história, pessoas, imagens, sentimentos e o poder e a beleza da música e do confronto com o próprio corpo que, no meu caso, não corresponde aos ideais convencionais de beleza. Ver corpos no palco que fogem aos padrões é importante – não só pela história, mas também pelo atual desenvolvimento, que está levando os seres humanos a se tornarem objetos de design. Sobre a questão do sucesso: é importante ser capaz de trabalhar e seguir seu próprio caminho – com ou sem sucesso. Eu simplesmente faço o que devo fazer”. (Raimund Hoghe)

2. Amy Palmiero-Winters


É uma atleta norte-americana que vem batendo sucessivos recordes. Perdeu uma perna num acidente de carra e  hoje corre utilizando uma prótese mecânica que se adaptou perfeitamente a seu corpo.  Amy  compete no mesmo nível de pessoas sem deficiência. Em 2010, foi a única amputada a correr uma prova de 24 horas, percorrendo mais de 200 km ininterruptos. Causou espanto. Após isso,  ingressou no time americano de corrida de rua, composto por atletas sem deficiência. Envolveu-se em uma polêmica por superar, com a prótese,  a melhor marca que obtivera quando ainda corria com sua perna natural. A acusação era de que a perna mecânica a favorecia, permitindo que corresse mais rápido que atletas que não dispunham do artefato. No entanto, testes mostraram que  Amy teria um desempenho três vezes melhor se tivesse uma perna de carne e osso.

3. Evgen Bavcar

É um fotógrafo esloveno que se tornou cego de forma acidental aos  12 anos de idade, quando  perdeu o olho esquerdo ao ser perfurado por um galho de árvore e, algum tempo depois, o segundo o olho em um acidente com um detonador de minas.  Doutor em história, estética e filosofia pela Universidade de Sobornne, Bavcar prova que a fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar, pois todos constroem imagens interiores.  No documentário brasileiro “Janelas da Alma”, que tinha como tema a visão,  o fotógrafo declarou: “Mas vocês não são videntes cIássicos, vocês são cegos porque, atuaImente, vivemos em um mundo que perdeu a visão. A teIevisão nos propõe imagens prontas e não sabemos mais vê-Ias, não vemos mais nada porque perdemos o oIhar interior, perdemos o distanciamento. Em outras paIavras, vivemos em uma espécie de cegueira generaIizada”.

4. Fauja Singh

Com cem anos de idade, é o maratonista mais velho do mundo. Nascido na índia, suaa vida de atleta começou aos 89 anos de idade, quando estrou na Maratona de Londres, em 2000.  Harmander Singh, seu treinador, falando sobre seu estado físico, afirma que um exame de densidade óssea de 2010 revelou que sua perna direita era similar a de um homem de 25 anos e a esquerda a de um homem de 35 anos. Ao ter tomado conhecimento disso, Fauja teria comentado: “Eu sabia que minha perna esquerda era fraca!”.

Tomar posse do seu próprio corpo e descobrir sua potência… um plano para 2012?

jan
06

O cordelista baiano Antônio Barreto publicou o cordel “Big Brother Brasil: um programa imbecil”, no qual critica o citado programa, a Rede Globo  e Pedro Bial, conforme se lê a seguir:

“Curtir o Pedro Bial

E sentir tanta alegria

É sinal de que você

O mau gosto aprecia

Dá valor ao que é banal

É preguiçoso mental

E adora baixaria.

(…)

Cuidado, Pedro Bial,

Chega de Esculhambação

Respeite o trabalhador

Dessa sofrida nação

Deixa de chamar de heróis

Essas girls e esses boys

Que tem cara de bundão.

(…)

Um país como o Brasil

Carente de educação

Precisa de gente grande

Para dar boa lição

Mas você na Rede Globo

Faz esse papel de bobo

Enganando a nação.

(…)

E saiba, caro leitor

Que nós somos os culpados

Porque sai do nosso bolso

Esses milhões desejados

Que são ligações diárias

Bastante desnecessárias

Pra esses desocupados”.

Cartunista: Duke

jan
03

Algumas das imagens mais impressionantes de 2011, segundo a Agência Reuters:

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Manifestantes rezam na Praça Tahrir durante protesto no Egito.

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Prostituras comemoram o Dia dos Mortos na Cidade do México.

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Cicilista holandês Johnny Hoogerland, após cair sobre arame farpado durante corrida.

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Freiras durante visita do Papa a Madrid.

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Imagem do vulcão Puyehue-Cordon, no Chile.

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Cena de zoológico na Tailândia.

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Manifestante durante o Occupy Amsterdã.

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Carros submersos na Tailândia.

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Comemoração do Ano do Coelho em Hong Kong.

FONTE:

http://static.publico.pt/docs/media/fotos2011mundo/

nov
25

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Frank Miller

O quadrinhista, roteirista e diretor Frank Miller, famoso por Batman, O Cavaleiro das Trevas, 300, Sin City, entre outros, veio a público recentemente condenar os movimentos Occupy.

Artigo publicado nesta quinta na The Guardian, de autoria de Rick Moody, registra que o choque dos fãs, surpresos com a fúria demonstrada pelo quadrinhista, não tem razão de ser: Miller estaria apenas verbalizando os inconfessáveis valores hollywoodianos.

O artigo sustenta que entretenimentos populares oriundos de Hollywood são, em maior ou menor extensão, propaganda. No filme “A Força em Alerta”, com Steven Seagal, por exemplo, um inimigo implacável seria posto em seu lugar, com a  reimposição  da ordem social norte-americana, através da violência e forte individualismo.

Os tipos de homens que historicamente têm protagonizado os filmes de ação, percebe Moody, são geralmente homens brancos  politicamente conservadores, como Sylvester Stallone, Schwarzenegger, Bruce Willis, Mel Gibson, Chuck Norris e até mesmo Clint Eastwood, “todos orgulhosos defensores de uma agenda conservadora e/ou do vigilantismo”. A moral e idéias políticas nesses tipos de filmes seriam facilmente detectáveis.

Os filmes de grande orçamento que vieram depois, calcados no imaginário e muitos saídos das histórias em quadrinhos, como Batman, Homem Aranha, Homem de Ferro, Demolidor, entre outros, embora com um tom açucarado e por vezes desviando  a atenção da marca ideológica, possuiriam uma estrutura moral tão simplista como os filmes de ação – se não, mais, apresentando um triunfo da ordem social tão violento e implacável quanto aqueles. As mensagem ali contidas poderiam ser assim traduzidas: “A economia global será restaurada”; “A América é excepcional”; “As pessoas simples merecem privação de seus direitos políticos”…

out
28


Quando se pensa em 1929, nunca se pensa em tecnologia.

O ano de 1929 é sempre lembrado pela Grande Depressão: a economia americana, falida, causou estragos no mundo inteiro esse filme é velho). Mas aquele  também foi o ano do lançamento da primeira tira de ficção científica:  Buck Rogers 2429 AD.

O ano em que Erik Rotheim  patenteou o aerossol.  Em que o astronômo Edwin Hubble lançou os fundamentos para Teoria do Big Bang, com seus estudos sobre as galáxias. Foi o ano em que o francês Louis de Broglie recebeu o Prêmio Nobel pela descoberta da natureza ondulatória dos elétrons. No qual ocorreu a primeira cerimônia de entrega do Oscar, cujo vencedor na categoria melhor filme foi o único filme mudo a conquistar a premiação máxima, Wings. É também o ano em que Salvador Dali lança “O Cão Andaluz” e em que no Brasil chega aos cinema o primeiro filme nacional totalmente sonorizado: “Acabaram-se Os Otários”, de Luís de Barros .


Charles Buddy Rogers, Clara Bow e Richard Arlen, em "Wings"


Naquele mesmo ano, Sigmund Freud escreveu o livro “Civilização e Seus Descontentes”, com o objetivo de analisar as tensões entre o indivíduo e a civilização.  Donna Haraway não havia nascido, nem se falava tanto em ciborgues, quando o mesmo escreveu o que soa absolutamente século XXI :


“Através de cada instrumento, o homem  está aperfeiçoando seu organismo, seja a parte motora ou sensora, ou está removendo os limites para sua funcionalidade. A potência dos motores põe à sua disposição gigantescas forças que, como músculos, ele pode empregar em qualquer direção; graças à navios e aeronaves, nem a água nem o ar podem impedir seus movimentos; através de óculos, corrige defeitos nas lentes dos próprios olhos; através de telescópios vê à longa distãncia; e através do miscroscópio supera os limites de visibilidade colocados pela estrutura de sua própria retina. Na câmera fotográfica criou um instrumento que retém impressões visuais fugidias, asim como o gramofone retém impressões auditivas igualmente transitórias; ambos são materializações fundamentais do poder que ele possui de recordar, sua memória. Com a ajuda do telefone pode ouvir à distãncias que seriam tidas como impossíveis mesmo num conto de fadas. A escrita era em sua origem a voz de uma pessoa ausente; e uma casa de moradia um substituto para o ventre da mãe…”


Se já existissem celulares, notebooks, tablets, internet, etc, poderia-se pensar na seguinte continuação para o texto:

“Com o cartão de crédito, o homem cria um instrumento que supera os limites de sua capacidade de endividamento; com a internet, amplia suas possibilidades de gozo sexual com o uso das mãos; com o photoshop atinge uma perfeição ( ou imperfeição física) inimaginável até nos sonhos das maiores dondocas“…

out
15

1. Da  ensaísta argentina Beatriz Sarlo, sobre  o filme italiano A Vida É Bela, no livro Tiempo Presente (2001):

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“A Vida É Bela ordena a seu público como deve se emocionar. Sobretudo, encarrega-se de mantê-lo emocionado do começo ao fim, para que nunca surja a possibilidade de pensar que coisa (verdadeiramente monstruosa) estamos vendo. Película de entretenimento em seu sentido mais forte, porque se distrai daquilo que diz contar, o campo de concentração, para contar a história de uma mitomania privada.”

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2. Da  brasileira Márcia Tiburi, sobre  Alien, em artigo na Revista Cult:


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“Em momento algum os opositores de Alien, todos carentes de interioridade, de angústia e de conflito, e mergulhados tão somente no medo e em seus próprios interesses, conseguem ser mais interessantes do que o monstro em torno do qual gira todo o enredo”.

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3. Do filósofo esloveno Slavoj  Zizek sobre Matrix, no artigo “Matrix: ou, os Dois Lados da Perversão”:

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“Essa série remonta à  República, de Platão. Por acaso, Matrix  não repete exatamente o artifício  da caverna de Platão  (seres humanos  comuns, prisioneiros, firmemente amarrados  aos seus assentos e forçados a observar os movimentos imprecisos de algo que eles (erroneamente) consideraram  realidade)? A diferença importante, claro, é que quando alguns fogem da caverna e chegam à  superfície da Terra o que encontram lá não é mais um plano brilhante e iluminado pelos raios do sol, o Bem supremo, mas o desolador  “deserto do real”.

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4.

set
18

Lingodroids: um par de robôs móveis que desenvolve sua própria linguagem.

A literatura e o cinema de ficção científica são povoados por robôs e máquinas pensantes. E estas criaturas um dia se revoltam contra seus criadores e decidem submeter os humanos ao seu controle.

Em “O Exterminador do Futuro”,  a ameaça é um sistema computadorizado chamado Skynet, que envia robôs ao passado para arrancar o mal pela raiz: eliminar a possibilidade de existência daqueles que lhe farão oposição no futuro.  Em “Matrix”, as máquinas organizam um exército para destruir a cidade dos humanos, Zion.

No início do século XXI, os atuais experimentos com inteligência artificial não estão tão avançados a ponto de permitir ou fazer supor que possa haver um confronto entre homem e máquina para dominar o mundo. Na verdade, a possibilidade de hibridização é que parece a grande aposta: um futuro povoado por seres metade máquinas, metade humanos.

Enquanto isso, a humanidade engatinha cada vez mais rápido. 

O foco, na Universidade de Queensland, na Austrália, é a capacidade de comunicação. Os dois robôs  acima,  ali desenvolvidos,  foram programados para desenvolver um tipo próprio de comunicação, com uma linguagem totalmente nova. A intenção é que os robôs conversem entre si e aprendam um com o outro, a partir da exploração do espaço no qual se encontram. Os pesquisadores australianos tentam agora ensiná-los a expressar idéias mais complexas.


Minha mãe, que não é boba, mas nunca foi muito fã de ficção científica, sonhava mesmo era com outro tipo de robô:

Rosie, a empregada robô dos Jetsons.

Um robô que cozinhasse, lavasse e passasse, sem férias, sem folga ou pausa para domir, como a empregada dos Jetsons.

Robin Willians, em "O Homem Bicentenário".

Um robô que cuidasse das crianças e tivesse fôlego para correr atrás delas e carregar suas tralhas, como Andrew, em “O Homem Bicentenário”.

Bjork é um robô em "All Is Full of Love".

Ou, saindo da esfera doméstica, um robô que cantasse e fosse boa de mídia, se tornando uma estrela internacional e trazendo um dinheirinho pra casa, como a Bjork-Robô!

ago
17

abr
21

Lindevania Martins

Lydia e Alice em Fale com Ela (2002)

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No filme Fale com Ela, do espanhol Pedro Almodovar, são os homens que falam. 

As cenas se passam em ” El Bosque”, uma clínica particular onde Benigno, apaixonado por Alicia, trabalha como enfermeiro. É ali também que conhece Marco, cuja namorada, Lydia, acaba de ser internada. Marco e Benigno falam sem receios e em liberdade porque as mulheres a quem se dirigem não podem lhes responder: Lydia e Alicia estão em coma.  A primeira por conta de um acidente de trânsito. A segunda por conta de uma tourada em que era ela quem jogava com o touro.

As tentativas de diálogos só podem se dar através de monólogos.  E é Benigno que sugere a Marco conversar com Lydia: “Fale com ela”.  Ele acredita que é dessa forma, demonstrando atenção à mulher que amam, que podem cuidar delas. Marco ainda argumenta que o cérebro de Lydia está morto e que, portanto, não faz sentido falar com ela.  Mas Benigno afirma que o cérebro de uma mulher é um mistério mesmo, que o coma só torna tudo ainda mais misterioso.

Se a possibilidade desta comunicação vir a ajudar às mulheres em coma é questionável, opera uma óbvia mudança em Marco, revelando a quem de fato ela ajuda: é para aqueles que falam que tal comunicação possui utilidade.


Audrey Hepburn como Eliza Dootlittle (1964)


Em My Fair Lady, filme da década de 60,  Audrey Hepburn interpreta Eliza Doolittle, uma jovem pobre que se expressa de forma grosseira. De vendedora de flores nas ruas de Londres, se  vê transformada em moça fina e elegante da alta roda londrina no breve espaço de seis meses,  graças a uma aposta entre homens: o professor de fonética Higgins e Colonel Pickering.

O primeiro dará aulas à Eliza que mudarão por completo sua aparência e modo de falar. Embora Eliza também queira se livrar do sotaque suburbano, tem um outro desejo: que Higgins a veja como uma pessoa, não como apenas um experimento.  Previsivelmente, ele vai se apaixonar por ela.

O  filme é inspirado em uma peça que adaptou Pigmalion: A Romance in Five Acts, livro de George Bernard Shaw,  para o teatro. Por sua vez, o escritor irlandês se inspirou no mito de Pigmalião: o escultor que, ao esculpir a imagem da mulher ideal,  se apaixona por ela. Apiedada, a deusa Afrodite a transforma em uma mulher de verdade. Como a história se passa na Grécia, ela não vai se chamar Amélia, mas Galatéia.


Carl Rogers (1902-1987)



Carl Rogers (1902-1987) foi um psicólogo norte-americano, criador do método terapêutico conhecido como “abordagem centrada na pessoa”. Parte do princípio de que o paciente não deve ser subestimado, pois possui em si meios para a autocompreensão, para a mudança do conceito de si mesmo, atitudes e comportamento autodirigido. O papel do terapeuta seria ativar um novo conjunto de atitudes  ao propiciar um ambiente favorável para que o próprio indivíduo pudesse explorar essas potencialidades.

O método de Rogers se baseia na livre expressão do paciente e em sua autonomia: é ele que sabe o que machuca, o que é importante, que direção tomar. Por isso, o terapeuta não deve dirigir a sessão. Essencial na psicoterapia não seria a aplicação de métodos e teorias, mas a qualidade do relacionamento entre os sujeitos: paciente e terapeuta numa relação de aceitação, empatia e genuinidade.

As intervenções do terapeuta na fala do paciente, em decorrência do princípio da não-diretividade e da confiança de que o mesmo possa resolver seus problemas de modo autônomo,  serão reflexos dos sentimentos expostos pelo paciente ou reformulações das próprias falas do mesmo.

Mas o que Fale com Ela, My Fair Lady e Carls Rogers têm em comum?


Joseph Weizenbaum (1923-2008), "pai" de Eliza

Eliza.

Ocorre que o alemão Joseph Weizenbaum, em 1966, criou um programa de computador cuja missão era simular um terapeuta, com base nos métodos de Carl Rogers, uma vez que o programa interage com a pessoa através de perguntas retóricas ou incentivos para que continue a falar… Ops! Escrever. O programa foi batizado de Eliza, em homenagem à Eliza Doolittle. Como em Fale com Ela, o cliente pode falar livremente com Eliza.  Sem efetuar  juízos de valores, suas respostas são automáticas, de acordo com sua base de dados.

 A forma como Eliza funciona foi explicada por Weizenbaum no livro Computer Power and Human Reason: From Judgment to Calculation (1976). O programa atua se utilizando das declarações dos usuários para construir perguntas que refletem o conteúdo dessas declarações. Assim, os usuários que determinam o rumo da terapia. Claro, as respostas de Eliza não serão coerentes, caso as declarações dos usuários fujam ao esperado. Contudo, o programa obteve grande sucesso ao simular uma interação entre humanos.

Na história de Shaw, filmada em My Fair Lady, Eliza é ensinada a falar com um sotaque elegante e, assim, dissimulando sua origem humilde, é tomada por dama da alta sociedade. O programa Eliza também é ensinado a falar. Como ocorre ao  personagem de Hepuburn, muitos usuários confundiram Eliza com um terapeuta de carne e osso.

Professor de ciências no prestigioso Instituo de Tecnologia de Massachusetts – MIT, Joseph Weizenbaum descreveu Eliza como uma paródia do método terapêutico de Carl Rogers. Explicou que a terapia é uma das poucas interações humanas em que uma das partes pode responder à outra através de perguntas que demonstram pouco conhecimento sobre a questão em si. 

Se você ficou curioso, quer falar com Eliza  e seu inglês não é muito ruinzinho, clique aqui.



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