“Sob a Pele”: alienígenas, mulheres e jogos de imitação

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No filme Sob a Pele (Grã Bretanha e EUA, 2013), dirigido por Jonathan Glazer e baseado em livro de Michel Faber, se falou obsessivamente sobre o corpo e o rosto da protagonista Scarlett Johansson,  contrapondo excesso de imagens e escassez de falas, principalmente levando em conta que os primeiros reais diálogos do longa só acontecem depois dos dez primeiros minutos de sua exibição.

Mas apesar dos cabelos exuberantes, do batom vermelho, das roupas provocantes e dos seios fartos evidenciados em algumas cenas, interpreta Scarlett uma mulher?

Em pouco tempo percebemos que a personagem principal é um/a ser alienígena que usa a pele da linda atriz para atrair machos que lhe servirão, literalmente, de alimento e combustível – pois a função da comida é produzir energia. Mas quem poderá afirmar que a criatura seria homem ou mulher? Afinal, teriam esses alienígenas pênis e vaginas? E se reproduziriam de forma sexuada? Carregariam outros de sua espécie dentro de seus próprios corpos?

E como pensam os alienígenas, como sentem? Quais os critérios que guiam suas escolhas? Se são tão diferentes do que somos, o que deveria nos fazer crer que são valores semelhantes aos nossos que os movem? E por que deveríamos supor que numa sociedade alienígena – espelhando a nossa própria sociedade, também haveria uma organização por gênero, por sexo, que determinaria as ações dos indivíduos de acordo com o tipo de órgão sexual que carrega entre as pernas?

É por conta de todos esses questionamentos que erramos ao tomar Scarlett, no filme de Glazer, por mulher. Não devemos perder de vista o fato de que provavelmente não exista em sua sociedade o que conhecemos por homem ou por mulher. À moda do jogo da imitação de Alan Turing, em que um software imitava um ser humano, desafiando um outro ser humano real a descobrir onde estava a máquina e onde estava o humano, Scarlett interpreta um ser que apenas imita uma mulher. Querer determinar a esse ser alienígena um identidade feminina ou masculina é querer forçar nossos binarismos sobre mundos cujas leis desconhecemos por completo.

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Antes, o que a atriz representa é um/a imigrante de uma civilização muito distinta da nossa, um/a usuárix de uma forma aleatória que lhe permitirá melhor executar as tarefas que lhe foram propostas (no livro de Faber, ele/ela é funcionário de uma fábrica interplanetária de alimentos, onde a carne humana é uma iguaria valiosa). Assim, a aparência de mulher sexualmente disponível e convidativa que utiliza, antes de revelar sua identidade de gênero, revela apenas que compreende algo de nossa sociedade e por isso a escolheu como instrumento necessário para fisgar corpos de homens ávidos por um sexo fácil e gostoso, mas que o invés disso terão… (deixemos para lá! Não vamos antecipar as surpresas do filme!).

Contudo, num filme tão aberto a interpretações (há quem diga que se trata de uma metáfora à imigração), podemos apostar que esse ser alienígena não fez a lição de casa como deveria: não estudou o suficiente para garantir um vocabulário mais rico, como denuncia a monotonia das falas de Scarlett, principalmente quando não está mais em sua caçada e pode abandonar a sua coleçãode  frases feitas. Também não estudou o suficiente para entender o conceito de beleza, como revelam elogios rasgados endereçados a um jovem cuja aparência em nada corresponde aos padrões de beleza vigentes, provocando risinhos zombeteiros em plateias politicamente incorretas. Mas o que é pior de tudo: não estudou o suficiente sobre a relação entre homens e mulheres para garantir a própria segurança física, como descobrimos no decorrer do filme.

E é aqui que o tiro sai pela culatra.

Sem querer apresentar mais um spoiler, entre o rol de coisas em relação às quais o/a alienígena cometeu falhas na assimilação, devemos incluir – com certeza, os riscos aos quais se expõe ao escolher para sua atividade predatória um disfarce feminino num planeta em que mulheres são vítimas preferenciais de vários tipos de violência. Se na primeira parte do filme é o alienígena que se impõe, objetificando os humanos machos recolhidos em estradas solitárias, na segunda parte da película assistimos uma reviravolta – e é o alienígena que é objetificado ao ser erroneamente tomado por mulher.

Erramos ainda, se supomos que a criatura só é violentada porque possui o rosto de boneca e o corpo tão voluptuoso quanto o de Scarlett Johansson. Esse ser é violentado porque seu aspecto externo imita a aparência em seus aspectos gerais de uma mulher, independente da categoria na qual possam ser classificados seus atributos estéticos. E esse ser descobre, da pior forma possível, o que é carregar, sobre a sua, essa outra pele.

Sem Medo de Se Mostrar

Imagem: Asaf Hanuka

Imagem: Asaf Hanuka

Entre os que falam mal da internet e das rede sociais, um dos lugares comuns é acusar nossos contemporâneos de se exporem sem nenhum pudor. Num mundo em que cada vez mais se produzem e se popularizam as selfies, Catálogo de Indisciplinas mostra que está é uma tendência antiga.

O desejo de exposição e a própria exposição não são coisas apenas dos nossos dias. O que faltava, contudo, aos mais antigos, era tanto meios eficientes e baratos de produção das imagens de si mesmos quanto meios eficazes para difundir tais imagens. Assim, os pobres mortais que não dispunham de dinheiro para pagar um pintor habilidoso para  retratá-los, nem dispunham de talento para retratarem a si mesmos, tinham que se contentar em exercer sua vaidade e narcisismo na privacidade de seus lares, sem plateia, sem likes elogios, sozinhos diante do espelho. Exposição da própria imagem? Só para os nobres e ricos.

Uma vez que atualmente qualquer um pode ousar se expor das formas mais íntimas possíveis, tendo certeza que terá uma certa audiência, logo se vê que o surgimento de tecnologias como a fotografia digital e a internet democratizaram os meios de produção e difusão de imagens.

Fora a ausência de pudor – ou absoluta falta de noção, uma outra acusação que aqueles que publicam suas fotos  todos os dias na internet,  aproveitando as benesses da tecnologia, vêem levantada contra si, é a de que são hipócritas que mentem sobre suas vidas e identidades, simulando propositalmente uma felicidade e uma beleza inexistente. É óbvio que os perfis no Facebook, por exemplo, são construídos e elaborados, cada vez escolhendo os ângulos que deseja apresentar. Mas quanto há de invenção na elaboração  de si mesmo?

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Quando nos mostramos, seja em selfies com um olho aberto e outro fechado, fazendo carão ou fingindo ser malvado/malvada, não mostramos somente aquilo que somos, mas também nossas projeções: aquilo que gostaríamos de ser ou como gostaríamos de ser percebidos pela larga audiência que imaginamos ter. E isso raramente corresponde à realidade imaginada por quem observa, gerando um certo descompasso entre as duas formas de percepção.  Além disso, todos temos várias facetas  e o modo como escolhemos para nos representar é apenas um ou alguns entre todos os possíveis.

O filósofo Roland Barthes  dizia que quando posava para fotos mudava: se preparava para a pose e fabricava assim um outro corpo. Invocando essa artificialidade registrada  pelo francês, lembramos de um post já publicado aqui em que se discutia se a fotografia poderia mentir.

Em maior ou menor grau, quase nunca os autorretratos são objetivos e correspondem à uma realidade que pode ser facilmente mensurada.  E vamos combinar: pode ser divertido brincar/manipular a própria imagem. Afinal, por acaso se trata daquelas insossas fotografias para documento? E qual o sentido de se agarrar uma realidade nua e crua, facilmente reproduzida pelos espelhos? Como diz Arthur Danto, “há coisas que podemos ver nos espelhos mas que não podemos ver sem ele, notadamente nós mesmos”. E se ao espelho muitas vezes já enxergamos nossa imagem idealizada, porque não transportar essa imagem idealizada para os selfies que serão postados na internet?

Muito antes de nós, vários artistas consagrados se dedicaram a manipular suas imagens. Não com a mesma intenção com a qual hoje fazemos essas coisas: não para provocar inveja no vizinho, simular felicidade, inflar nosso ego, etc. Os autorretratos eram exercícios de autoendimento, instrumentos de autoconhecimento, elaboração de identidades. Por isso, sem medo de se mostrar.

Vejamos como se saíram alguns artistas que, muito antes de nós, já estavam acostumados a posar para  selfies autorretratos.

– NA PINTURA

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Como não vemos a nós mesmos, é atribuído ao desenvolvimento da indústria do vidro em Veneza, que permitiu o refinamento das técnicas de fabricação de espelhos, o impulso para a fixação do gênero do autorretrato, ainda no śeculo XV. E aqui é interessante ver como a arte e a cultura se relacionam com o surgimento e a melhora dos objetos técnicos.
Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Este deve ser o recordista masculino. É dito do famoso Rembrandt (1601-1669) que o mesmo pintou mais de cem autorretratos, cobrindo um longo período, de sua juventude até á velhice. Devia matar de inveja os outros adeptos de “selfies” da sua época. Curioso que Rembrandt era baixinho, mas em seus autorretratos, de estilo realista, sempre se pintava como um homem mais alto. Contudo, são telas são um exercício de transformação: são imagens que se desgastam com o tempo, rumo ao declínio e envelhecimento.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

O holandês Vicent Van Gogh (1853-1890) foi outro que não economizou tintas para representar a si mesmo, registrando inclusive não apenas um, mas DOIS autorretratos com a orelha enfaixada, após um episódio não muito bem esclarecido: ou um surto de depressão  o levou a cortar fora um pedaço da dita cuja ou ela foi cortada por Gauguin, numa briga entre os dois amigos. Segundo a Wikipedia, Van Gogh pintou trinta e cinco autorretratos entre os anos de 1886 e 1889.

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Provável campeã entre as mulheres, Frida Kahlo (1907-1954), nossa musa contemporânea,  pintou várias imagens de si mesma, nas quais destacava sua história e seu contexto emocional, especialmente as relações dolorosas com seu próprio corpo após um acidente de trânsito e as relações tumultuosas com o companheiro Diego Rivera. As pinturas também revelam inquietações quanto à sua origem mestiça: pai alemão e mãe mexicana, nas quais Kahlo com frequência reforçava seu sentimento de pertencimento ao México. Seriam cerca de 55 os autorretratos pintados, correspondendo a cerca de um terço de sua obra.

As duas Fridas (1939)

As duas Fridas (1939)

E encontramos Frida de cabelos longos, de cabelos curtos, soltos, presos, com roupa, sem roupa, sem mãos, sem coração, como feto, como filha, como esposa, vestida à moda européia, vestida com roupas folclóricas, envolta em lágrimas e sem lágrimas, duplicada. Em seu diário, Frida escreveu: ”Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”

  – NA FOTOGRAFIA

A difusão da fotografia tornou bem mais fácil e barata a execução de um autorretrato quanto comparada com a técnica da pintura. Afinal, não havia mais necessidade de se preocupar com tela, tinta, pigmento, perspectiva, proporção, etc. Mas  o interessado ainda tinha que se haver com as técnicas fotográficas, se preocupar com luz, foto, diafragma, entre outros, bem como com a a revelação do filme e o dinheiro para pagá-la.

Warhol: autorretratao vestido de mulher

Warhol: autorretratao vestido de mulher, no começo dos anos 80.

Célebre por haver vaticinado que no futuro todos seriam famosos por quinze minutos, além da pop arte, Andy Warhol  (1928-1987) também era um narcisista famoso. Entre suas obras, se destacam muitos autorretratos: em forma de pintura, fotografia ou serigrafia. Alguns demonstram certa ambiguidade sexual. Em meados de 2014, um dos seus autorretratos foi arrematado num leilão na Suíça por 105 milhões de dólares, na Art Basel, uma das feiras mais importantes de arte contemporânea.

Autorretrato: Cindy Sherman

Autorretrato: Cindy Sherman

No trabalho da fotógrafa americana Cindy Sherman (1954-), seu próprio corpo é o elemento essencial sobre o qual cria suas imagens. Contudo, afirma que as imagens de si que produz não são autorretratos, mas mera encenação, pois “Não somos aquilo que pensamos ser”. Negando qualquer possibilidade de uma identidade estável, Sherman sai de cena para deixar aflorar personagens através dos quais pretende discutir o modo de representação das mulheres: os estereótipos sobre o feminino.

Mas não nos iludamos.

Embora algumas vezes possa parecer, esses autorretratos não se assemelham aos nossos, repetitivos, monotonamente felizes e domésticos. E é por isso mesmo que os nossos não são considerados obras de arte. Contudo, na próxima vez que alguém nos elogiar por sermos fotogênicos (elogio mesmo ou ofensa? fotogênico é feio que fica engraçadinho em fotos)  e perguntar porque postamos tantos selfies,  principalmente aqueles diante do espelho fazendo aquelas bocas tortas, podemos dizer que estamos nos espelhando em Van Gogh, Frida Kahlo, Warhol, Sherman e Rembrandt, entre outros poderosos do mesmo naipe.

Se eles gastaram horas e dinheiro para construir retratos algumas vezes ousados de si mesmos, porque nós, que de graça, vamos gastar apenas um mísero segundo do nosso precioso  tempo apertando a câmara do nosso celular, não faríamos o mesmo?

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Até a próxima, pessoal. Bons selfies.

De Volta à Vida: dos antigos aos modernos ressuscitadores de mortos

Philliphe Aries conta, em sua História Social da Criança e da Família, que se tornou comum em certo período da Idade Média, algo que nos causa assombro: a reanimação dos mortos. Segundo o historiador, era lugar comum a reanimação momentânea de crianças mortas apenas para que pudesse ser prestadas a elas homenagens fúnebres. Após a rápida encomenda de suas almas, a morte retomava seu curso normal.  Como obtinham esse efeito, ninguém jamais soube dizer.

Imagem: Rowlandson, em "The English Dance of Death".

Imagem: Rowlandson, em “The English Dance of Death”.

O que nos atrai, nesse episódio, é uma ideia antiga. Sempre fomos seduzidos pela ideia de escapar ao sono eterno – a morte. E a humanidade sempre expressou seu desejo de viver um pouco mais, seja através das religiões, dos mitos, das artes, da medicina, etc. Vampiros e zumbis, na ficção, são os casos mais comuns de criaturas que conseguiram realizar tal proeza. Embora de uma forma não muito satisfatória: tornando-se monstros.

Em “O Sétimo Selo”, filme de Ingman Bergman que se passa na Idade Média, a morte senta e joga xadrez com um homem, que tenciona, através do jogo, apenas adiar cada vez mais o momento angustiante do fim. Mas enquanto rolam os dados, quer dizer, enquanto movem as peças, o homem tem a chance de refletir sobre sua própria finitude.

De ficção científica e história de horror, o retorno dos mortos à vida retoma, em nossa época, outros contornos, mais palpáveis.

Morrer e acordar no futuro, revivendo novamente após um longo período no qual se esteve morto,  é aspiração de vários.  São os adeptos da criogenia, técnica usada desde os anos 60, que consiste na preservação de cadáveres congelados em nitrogênio líquido: o sangue é retirado do corpo e substituído por líquidos conservantes e anti-congelantes. Depois, o cadáver é mergulhado de cabeça para baixo num tanque com 200 litros de nitrogênio e mantido na temperatura de 196 graus celsius negativos. Os adeptos nutrem a esperança de que no futuro, quando descoberto um modo seguro de descongelamento, seus corpos possam ser reanimados e suas doenças curadas. Muitas empresas oferecem o serviço, havendo quem conserve o corpo inteiro e quem conserve apenas a cabeça, por ser mais barato.

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Mas há uma nova técnica, recentemente divulgada, que também causa assombro. Os professores Peter Rhee, da Universidade do Arizona, e Samuel Tisherman, da Universidade de Maryland, praticam o que vem sendo chamado de “suspensão da morte”.  Como na criogenia, a técnica utilizada pelos mesmos se ampara nas baixas temperaturas corporais. Há a retirada de sangue e sua substituição por uma solução salina, que ajuda a manter a temperatura do corpo entre 10 e 15 graus celsius. O paciente ganha uma ou duas horas de esperança, nas quais o médicos tentarão reverter o quadro que causou sua morte ou que está prestes a causá-la. Com o problema resolvido, o sangue volta a ser bombeado, e quando o corpo atingir a temperatura de 30 graus, o coração volta a bater. Por meio da técnica, os professores já ressuscitaram animais, como porcos. No final do ano de 2014, ganharam autorização para o maior desafio: fazer o mesmo com humanos.

As técnicas para adiar a morte, ou que tem como objetivo trazer um morto de volta à vida, uma vez que a morte parece estar inscrita naturalmente em nossa DNA, têm de combater uma ideia ainda cara a alguns: a ideia de que tudo que é  natural é bom. Contudo, abrem janelas para vários outros questionamentos, importantíssimos:

O que acontece ao mundo e ao meio ambiente se não morrermos nunca?  E se no futuro, a morte for facultativa? Seria problema ou solução? Será que alguns indivíduos teriam o privilégio de viver muitas vidas, por riqueza, por poder, por necessidade social,  enquanto outros indivíduos teriam vidas descartáveis? A morte, então, deixaria de ser impessoal, tomando democraticamente a qualquer um?

No ano de  2005, José Saramago publicou As Intermitências da Morte, onde explorou as dificuldades sociais de se viver para sempre num mundo ficcional em que a ausência de morte física não significava ausência de doenças e das mazelas que a antecediam. Contudo, a supressão do fim criou uma superpopulação e pôs em cheque a existência de instituições e negócios: a igreja, o estado, as empresas de seguro, companhias fúnebres, lares para idosos, etc. .

Quanto aos efeitos decorrentes da nossa própria relação com a morte, num mundo que poderá contê-la indefinidamente, só o futuro dirá. Quando esse momento chegar.

A Outra Babel: línguas ficcionais

Imagem: Tomek Sętowski

Imagem: Tomek Sętowski

Todas as línguas e idiomas utilizados pelos homens foram criados. Difícil precisar todos os detalhes: Onde exatamente? Como? E por quem? Se as respostas são difíceis nos idiomas correntes, porque não foram criados por uma pessoa específica em um momento específico, em alguns casos se pode apontar facilmente o criador. E é isso que o Catálogo de Indisciplinas fará, mexendo na Torre de Babel erguida pela ficção.

Não falaremos do Dothraki, criado por J. R.R. Martin em “Game of Thrones”. Nem do Klingon, que é uma língua alienígena desenvolvida na série Jornada das Estrelas. Ou do Na’Vi, do filme “Avatar”, de James Cameron. O Sindarin, que pertence a “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, e é o mais falado de vários idiomas do reino dos elfos, ficará talvez, para outro post.

Catálogo de Indisciplinas quer tratar mesmo é das línguas fictícias que se amparam nas teorias que postulam a existência de uma relação de dependência entre linguagem e pensamento: as palavras moldariam o nosso pensamento, construindo nossas categorias mentais e determinando uma maneira específica de ver o mundo. A partir disto, nossa breve lista:

1. Novilíngua, de George Orwell (1903-1950)

Cena do filme de mesmos nome.

Cena do filme de mesmo nome, dirigido por Michael Radford e lançado também no ano de 1984.

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Publicado em 1949, “1984” é uma história de ficção científica que se desenrola dentro de um estado totalitário – Oceânia, simbolizado pelo Big Brother, que a tudo e a todos observa.

Com o fim de instrumentalizar os objetivos do estado, se desenvolveu a Novilíngua, que não é um idioma ou uma língua nova, mas a língua antiga encolhida, cada vez mais reduzida a seus elementos essenciais, manipulada para extrair dela todas as possibilidades de resistência, tudo que possa ser semente de um pensamento questionador, de expansão do pensamento e de expressão individual.

Apoiando a opressão política e acarretando o fechamento do pensamento, o significado das palavras é alterado de acordo com as necessidades do estado, vindo até mesmo a significar o oposto dos sentidos originais. É assim que o slogan do partido que comanda Oceânia declara: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Bem assim, ao inverso.

Amparada na ideia de que aquilo que não pode ser verbalizado não pode ser pensado ou comunicado, a língua opera seu próprio empobrecimento: suprime termos; suprime a sinonímia; promove confusão de significados entre antônimos a fim de banir os sentidos indesejados.

A principal função da novilíngua não é comunicar. Ela existe para garantir um pensamento igualitário, sem dissensos, impedindo não só a comunicação de ideias contrárias à ordem política estabelecida, mas até mesmo que tais ideias sejam geradas.

2. Pravic – Ursula K. Le Guin (1929-)

Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin

Em “Os Despojados: uma utopia ambígua” (1974), a ação se passa num tempo e num lugar muito distante do nosso, em que as mudanças mais profundas não se encontram nas incríveis máquinas tecnológicas do futuro, mas nos valores de uma sociedade que, ao mesmo tempo, se reflete e é refletida na língua.

Se em “1984” encontramos um estado extremamente forte, “Os Despojados” apresenta uma sociedade sem estado. Após uma revolta contra o sistema político do planeta Urras, na qual foram derrotados, em lugar de ser presos, aos revoltosos foi dada a opção de se instalar e colonizar um planeta árido e hostil: Anarres.

Quando os revolucionários se instalaram no novo planeta, com a intenção de iniciar uma nova civilização, elaboram uma nova língua. Como os primeiros habitantes dos planeta Anarres vieram de Urras, era aquele seu sistema linguístico de referência. Então, a nova língua se construiu por oposição ao Ioti, idioma de Urras. Chamada Pravic, a nova língua incorporava os valores da nova sociedade que quiseram ver instalados em Urras: uma sociedade anarquista, descentralizada, sem hierarquias, privilégios de classe e gênero, sem propriedade privada.

Um verbo central em Anarres é “compartilhar”, enquanto em Urras era “ter”. O Pravic é construído para desconstruir as estruturas tradicionais de poder. Não há palavras que expressem concepções de classe ou status, nem títulos de nobreza. Os nomes próprios não fornecem indicação quanto ao sexo das pessoas e os substantivos e adjetivos são neutros quanto ao gênero. E porque não há propriedade individual, a língua exclui os pronomes possessivos.

Palavras e concepções como prisão, escravos, casamento e moralidade, entre outros, são estranhos em Anarres. Um grande insulto em Pravic é chamar alguém de “profiter”, algo como “ganancioso interessado apenas no lucro”, significando que o mesmo não pensa no bem da comunidade. Para eles, a língua deveria reforçar o sentido de comunidade e solidariedade no mundo. Nesse espírito, um dos personagens declara: “Falar é compartilhar – a língua é uma arte colaborativa”.

3. Nadsat, Anthony Burguess ( 1917-1993)

Cena do filme de mesmo nome.

Cena do filme de mesmo nome, anglo-estadunidense, dirigido por Stanley Kubrik e lançado em 1971.

Inseridas em obras profundamente políticas, tanto a Novilíngua quanto o Pravic apostam que existe uma forte relação entre linguagem e desenvolvimento do pensamento.

Como as anteriores, a ficção de Burguess, “Laranja Mecânica” (1962 ), também possui conteúdo político: questiona se a negação ao indivíduo da sua liberdade de escolha não pode ser um mal maior que o próprio mal que o mesmo possa vir a cometer. Mas dá um tratamento diferente ao modo de falar que apresenta.

Na obra do britãnico, o Nadsat, que não é um idioma ou uma língua independente, mas uma espécie de gíria que mistura palavras em inglês, russo e o cokcney – modo de falar dos operários ingleses, é usado como forma de distinção pelo protagonista Alex, um delinquente juvenil, e seus amigos. Seu modo característico de fala marca a identidade do grupo, funcionando como barreira entre o mesmo e os outros.

Inseridos dentro de um sistema linguístico de referência, o Nadsat permite aos jovens escapar do poder regulador das palavras comuns, mantendo os mesmos à parte da cultura que os cerca: os adolescentes não partilham dos valores dos mais velhos, nem admite associações com os mesmos.

Nessa comunidade formada por Alex e seus companheiros, os drugues, onde os valores compartilhados, ligados à violência, são reforçados e celebrados, um dos efeitos do Nadsat é amenizar simbolicamente os atos de violência, que nunca são descritos na língua corrente, mas no dialeto usado pelo adolescentes.

O uso do Nadsat causa também um estranhamento no leitor, pois as gírias são usadas não apenas entre as conversas entre personagens, mas também na narração de grande parte história, que é realizada por Alex, passando ao leitor o encargo de ter que de lidar com o possível significado de cada verbete.

4. Codex Seraphinianus

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Imagem: Uma das páginas do Codex Seraphinianus.

Em 1981, o italiano Luigi Serafini (1949-) publicou um enigmático livro. Trata-se de uma enciclopédia ilustrada de um mundo imaginário, escrita numa língua estranha, usando um alfabeto igualmente estranho.

O autor declarou que não havia nenhum significado oculto na língua inventada por ele, que mais se assemelhava a uma escrita automática. Dizendo que sua escrita era artística e não linguística, Serafini declarou querer produzir no leitor a mesma sensação que teria uma criança não alfabetizada ao contemplar os símbolos linguísticos que não compreende.

Por fim, Catálogo de Indisciplinas lembra que existem muitas outras experiências de criação de língua fora do reino da ficção. John Wilkings sonhou em construir uma língua que pudesse corrigir o pensamento humano. Umberto Eco imaginou uma “Linguagem Perfeita”, racional e lógica, que eliminaria todos os mal entendidos. Criou-se o Esperanto, o Volapuk, etc. E há linguagem de computador, linguagem matemática e tantas outras coisas.

Sorte no Jogo

Cena de "A Vida de Outra Mulher"

Cena de “A Vida de Outra Mulher”

“E se depois de 15 anos você tivesse a chance de recomeçar?” . É essa a chamada para o filme francês “A Vida de Outra Mulher” (2012), da diretora Sylvie Testud, cujo elenco é capitaneado por Juliette Binoche. A mesma chamada poderia ser igualmente usada para o longa americano “De Repente 30” (2004), dirigido por Gary Winick e estrelado por Jennifer Garner. Afinal, entre as películas, sobram mais semelhanças que diferenças.

Jenna (Jennifer Garner) e Marie (Juliette Binoche) são duas mulheres que perderam parcelas importantes de suas vidas. Precisamente, as memórias de mais de 15 anos. Ao acordar aos 30 anos, em sua última lembrança, Jenna acabou de fazer 13. Escondida dentro de um armário, aguarda o beijo adolescente de seu príncipe. Ao acordar aos 41, em sua última lembrança, Marie acabou de fazer 25. Em conformidade com a idade, nada de armários e beijos, mas cama e um sexo gostosinho com o outro príncipe.

Distintas são as explicações para os lapsos de memória das duas mulheres. No filme “ A Vida de Outra Mulher”, Marie foi acometida de uma providencial amnésia, ainda sem explicação médica. Em “De Repente 30”, a responsabilidade pela viagem no tempo de Jenna – tão ao gosto hollywoodyano, foi meramente um passe de mágica. Abracadabra!

As duas mulheres protagonizam filmes cujos locais de produção sempre estiveram ligados à expectativas contrárias. Dos Estados Unidos, filmes com apelo comercial, visando satisfazer uma massa de espectadores sem grande refinamento estético. Da França, filmes alternativos, cujos destinatários seria uma elite mais intelectualizada.

“A Vida de Outra Mulher” anula qualquer diferença. Tem-se a impressão que o filme francês é um filme americano cuja equipe de realizadores falhou gravemente. É certo que no quesito comédia, “De repente 30” tem muito: mas é muito de um humor banal, repetitivo e apelativo. Já o humor na comédia “A Vida de Outra Mulher” é de uma sutileza tão grande que faz pensar mais em inabilidade de produzir um humor bem resolvido do que em elegância.

As duas películas se esforçam para mostrar duas garotas que, de tímidas, inseguras e sem fortuna, se transformam em mulheres fortes, bem sucedidas e com belas contas bancárias. Adultas, suas vidas giram em torno de um trabalho que exercem com mão de ferro, sem espaços para sentimentalismo.

Ambas as comédias românicas tratam de resgatar a inocência perdida e acertar o foco no que realmente importa. Pois bem situadas no mundo corporativo e em posição de comando, Jenna e Marie esqueceram que “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” A via eleita para realizar tal façanha, nos dois casos, é reconquistar os príncipes do começo de tudo. Assim, a redenção, embora tenha como termo inicial o apagamento da memória, irá se operar, como sempre, através do amor romântico, sendo essa a recompensa de toda a mudança empreendida.

Cena de "De Repente 30".

Cena de “De Repente 30”.

Curiosamente, ambos os longas mostram uma inversão nos papéis tradicionalmente reservados a homens e mulheres, no que se refere ao poder e afeto. As duas mulheres, antes do apagamento, ocupam posições de liderança, sendo chefes irascíveis nos respectivos escritórios. Já os homens que pretendem reconquistar fazem o tipo sensível, possuindo profissões mais artísticas: um desenhista de histórias em quadrinhos e um fotógrafo independente. Curioso, ainda, que os dois homens são honestos e fiéis, enquanto Jenna e Marie, possuem matriz e filial: uma relação estável, e paralelamente, amantes no trabalho.

Como nas históricas românticas banais, Jenna tem final feliz ao se casar com o amigo de adolescência e Marie ao retornar com o marido. No fim, fica-se pensando, é nisso que se resume a vida de uma mulher, arrumar um homem? Como se desde o começo fosse apenas isso, no fundo, que importasse: Ah, mulheres, infinitamente carentes e dependentes!

Ambos os filmes incorporam as mudanças culturais no que se refere às mulheres, mas com ranços de retrocesso. No fim, o que parecem querer sugerir é isso: que as mulheres, ao se afastarem de seus papeis tradicionais, jamais conseguirão satisfação. São os homens que se realizam pela profissão, querida! As mulheres só se realizam pelo amor.

E o que fazer com a experiência? Os desejos não mudam dos 13 aos 30, dos 25 aos 41? O tempo nada deveria lhes acrescentar? Pois o mesmo parece lhes ter conferido apenas infelicidade. Só por isso é preciso retornar à si mesmas, bem mais jovens, sem as marcas da experiência, em uma tempo no qual não eram senhoras de si mesmas, para reaprender a viver. Paradoxal.

O que seremos no futuro será, de diversas maneiras, fundamentalmente distinto do que fomos no passado. Aprendemos, mudamos. Contudo, “A Vida de Outra Mulher” destrói a ideia de que se possa aprender com a experiência. A nova Marie, a desmemoriada Marie, é leve justamente porque jogou fora o peso de mais de quinze anos de memórias acumuladas. Privada dos contextos que determinaram suas mudanças, a protagonista não entende como se transformou em outra mulher. O espectador também não.

Nesse vácuo, o que parece sobrar, é aquela velha pergunta, jamais feita aos homens, formulada há mais de 100 anos pelo pai da psicanálise: “Afinal, o que querem as mulheres?”

Destilando Veneno

Catálogo de Indisciplinas traz para seus leitores pérolas dos nossos queridos malditos – diretamente ou falando através de personagens, destilando veneno contra mestres do pensamento ocidental e outros escritores de grande prestígio. Vaidades, ciúmes? Não é incomum termos opiniões desfavoráveis sobre nossos semelhantes, mas nós, pobres mortais, raramente conseguimos esboçá-las com tanta destreza. Considerando que todos os envolvidos já estão mortos e enterrados – e que as opiniões insultuosas foram amplamente divulgadas, ninguém vai nos mandar pro inferno sob a acusação de  estarmos querendo jogar mais lenha na fogueira.

1) Charles Bukowski (1920-1994)  sobre William Shakespeare (1564-1616):

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Charles-Bukowski

 “É ilegível e valorizado mais do que deveria. Mas as pessoas não querem ouvir isso. Ninguém pode atacar templos. Shakespeare foi fixado à mente das pessoas ao longo dos séculos. Você pode dizer: Fulano de Tal é um péssimo ator”, mas não pode dizer que Shakespeare é uma m… Quando alguma coisa dura muito tempo, os esnobes começam a se agarrar a ela como pás de um ventilador. Quando os esnobes sentem que algo é seguro, se apegam. E se você lhes disser a verdade, eles viram bichos. Não suportam a negação. É como atacar o seu próprio processo de pensamento. Esses caras me enchem o saco.” (BUKOWSKI, Charles. Tough Guys Write Poetry.  Entrevista a Sean Penn. Interview Magazine, 1987).

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2) Thomas Bernhard (1931-1989) sobre Heidegger (1889-1976):

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“Não consigo imaginar Heidegger senão sentado num banco do lado de fora da sua casa na Black Forest, junto com a esposa que toda a vida o dominou e que confeccionou todas as suas meias e chapéus, assou seu pão,  teceu sua roupa de cama e até mesmo as sandálias usadas por ele. Hedeigger era brega… um pensador fraco dos montanhas alpinas, que, acredito, muito se adequa à salada filosófica alemã. Por décadas, compulsivamente consumiram esse homem,  mais que a qualquer outro, e preencheram seus estômagos com as coisas oriundas dele. Heidegger tinha um rosto comum, nada espiritual, disse Reger, ele era um homem sem espírito, desprovido de fantasia, desprovido de sensibilidade, um genuíno ruminante da filosofia alemã, sempre uma vaca com ar sério que pastava na filosofia alemã e por décadas pousou suas espertas patinhas de vaca sobre ela”. (BERNHARD, Thomas. Old Masters. Comedy.  Chicago: University of Chicago Press, 1992).

 

5) Hilda Hilst (1930-2004) sobre João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

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“Ele deslizava a lâmina da faca na água da bacia. Lembrou-se de um poeta que adora facas. Que cara chato, pô. Inventaram o cara. Nada de emoções, ele vive repetindo, sou um intelectual, só rigor, ele vive repetindo. Deve esporrar dentro de uma tábua de logaritmo. Ou dentro de um dodecaedro. Ou no quadrado da hipotenusa. Na elipse. Na tangente. Deve dormir num colchão de facas. Deve ter o pau quadrado. Êta cabra-macho rigoroso! Chato chato”. (HILST, Hilda. Contos d’Escárnio: textos grotescos. São Paulo: Globo, 2002).

Amarelo é a cor mais quente

No cinema, técnicas especiais relativas às cores são usadas para criar clima, delimitar passagens de tempo, expressar as emoções dos personagens, conduzir o olhar do espectador ou mesmo para produzir uma identidade visual.

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Em “Kill Bill” (2003),  fora o vermelho do sangue que está sempre jorrando, a fotografia dá uma tenção toda especial à uma cor bem específica. No famoso filme de Quentin Tarantino, no qual Uma Thurman enfrenta sozinha dezenas de mafiosos, o amarelo possui primazia entre todas as cores.

Muito já foi dito que as obras cinematográficas de Tarantino são cheias de referências às outras obras do universo pop: mangás, westerns italianos, filmes de kung fu, etc.. O figurino fashion de Beatrix Kiddo (Uma Thurman) é inspirado num macacão também amarelo usado por Bruce Lee no filme O Jogo da Morte (1978), assim como a roupa amarela usada por um monge em Kill Bill é inspirada na roupa amarela do personagem de quadrinhos Charlie Brown.

Representando entre os japoneses traição e poder, o  amarelo é a cor escolhida para que Beatrix Kiddo realize sua vingança: vestindo uma roupa amarela, roubando uma caminhonete amarela, pilotando uma moto amarela.

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Contrariando a frieza que a cor sugere, nos últimos tempos, nos vemos cercados de textos alegando que o azul é a cor mais quente. Todos inspirados no polêmico filme do diretor Abdellatif Kechiche, “Azul é a Cor Mais Quente” (2013), no qual uma adolescente se apaixona por uma garota de cabelos azuis.

Se o amarelo em Kill Bill é quente porque remete à uma vingança que se realiza em meio a extrema violência, o calor que o azul sugere no filme de Kechiche se origina em uma paixão erótica juvenil cuja tradução do título original, em francês, é simplesmente “A Vida de Adele”.

A história foi contada originalmente nos quadrinhos, no ano de 2010, na forma de diário, com um título mais próximo ao que a película ganhou no Brasil: “Le Bleu est une Couleur Chaude”. A Autora, Julie Maroh, optou por desenhar sua obra em preto e branco, mas sempre adicionando a cor azul em momentos ou elementos específicos: nos cabelos da personagem Emma, para demonstrar a excitação sexual, para representar a diferença. Aliás, Julie Maroh tem um blog, que você pode acessar clicando aqui.

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Mas um filme que realmente usa e abusa de uma gama cores em sua estrutura narrativa é “Herói” (2002), do diretor asiático Yimou Zhang. Como no filme Rashmon (1950), de Akira Kurosawa, o longa conta três diferentes versões da mesma história – que se passa na China antiga, num período pré-imperadores,  das quais apenas uma é verdadeira.

Tanto no tom da fotografia, quanto no figurino, as cores saltam aos olhos e ajudam na compreensão da história, sendo usadas na narração do protagonista “Sem Nome” como veículos de sua expressão, marcando épocas, fatos e sentimentos. A cada nova versão, muda a cor predominante na tela: iluminação, as cores das roupas dos personagens, os cenários.

Flashbacks aparecem em verde. Nas imagens do presente predomina o preto.  O azul é usado para contar a  versão mais melancólica. Na versão real, é o branco que predomina. Mas na primeira versão, a mais quente de todas, pondo em foco a história de amor entre dois assassinos, é contada sob a tradicional cor da paixão: vermelho.

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Mas não é só cinema que faz um uso todo especial das cores. Sua prima, a televisão, também o faz. Cheia de referências: cinematográficas, literárias e filosóficas, a série de tv True Detective (2014) se tornou uma verdadeira febre, com a exibição de sua primeira temporada com oito episódios. Como outras séries do gênero, mostra dois detetives durões ás voltas com casos violentos e bizarros. Woody Harrelson,  que já esteve em “Zombieland” (2009) e “Jogos Vorazes” (2012 e 2013), entre outros, é Martin Hart, um policial conservador, machista e beberrão, do tipo comumente apresentado em obras de detetives/policiais.

Enquanto isso, Matthew McConaughey interpreta o policial Rust Cole. Que não é nada comum. Com uma inteligência sofisticada, misantropo, antisocial, niilista e cheio de princípios, Rust é o ponto alto da série. O personagem está nos diálogos memoráveis e frases de efeito de Rust Cole que poderiam ter saído da boca de Emil Cioran, Nietzsche.

Mas o que True Detective tem a ver com um post sobre cores? E que, ainda por cima, diz que amarelo é a cor mais quente? É que os crimes bizarros e violentos investigados pela dupla de policiais estão relacionados a um certo Rei de Amarelo, personagem de outra obra, em outra linguagem.

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True Detective, com seus inúmeros fãs, acendeu um novo interesse pela obra “O Rei de Amarelo”, coleção de contos assinada por Robert W. Chambers e originalmente publicada em 1895,  nos quais um livro, com o mesmo título, exerce uma influência maldita sobre seus  leitores, levando-os à loucura.

Note-se que quando o livro foi  publicado, entre o final do século dezenove até o começo do século vinte, amarelo era cor  “da besta” entre a galera underground da época. É isso que o revisor Carlos Orsi conta na introdução à edição brasileira de O Rei de Amarelo, publicada pela editora Intrínseca: o amarelo “era o matiz do pecado, da podridão, da decadência, da loucura”; “não por acaso que o pecado, a doença e a arte moderna tinham a mesma cor”. Amarelo.