A Mentira

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Naquele dia, para meu azar, quase se abriu um buraco na minha fronte, e, para minha sorte, não passou do quase. Voltando da caminhada naquela manhã fria, pés cansados loucos para se livrarem de tênis apertados, preguiçosamente me estiquei ao lado da estante para descalçar um pé com o outro. Para que me abaixar e desamarrar cadarços? Enquanto descalçava o primeiro tênis, ao tentar me apoiar na parede móvel e instável dos livros, minha mão apenas os empurrou, incerta, sem encontrar o apoio esperado. Tentando evitar minha própria queda, tateando sem rumo, sem pensar, sem tempo, mudei a mão de lugar, desfazendo o equilíbrio da estante ao me apoiar na madeira, que, tremendo, reclamou da minha falta de jeito, atirando livros sobre mim como pedras: dois Kants, um Schopenhauer.

Kant e Schopenhauer nunca foram fáceis. Mas nunca pensei que poderiam me alivrejar. Quer dizer, me apedrejar. Dois livros foram ao chão fechados, e eu, em meu pulo assustado e cego, pisei com o pé ainda calçado sobre aquele que, me acertando a fronte, caíra aberto. Ele me machucara sem querer e sem querer eu acertava as contas. Refeita do susto, ao tentar ordernar a desordem, colhi do chão o livro esmagado, a capa carimbada com a sola suja do meu tênis, meus olhos de quem havia cometido uma falta terrível pregados nas páginas abertas, as folhas amassadas, os dois lados que nunca mais se encontrariam perfeitamente. No canto superior da página direita, meio rasgada, li: Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade. Kant.

Direito de mentir. O que significaria aquilo? Uma dica do filósofo para mim? Seu espírito rondaria por ali? Sozinha na casa do meu namorado, olhei desconfiada de um lado para o outro, desenterrando meu antigo medo de fantasmas. Mas nada havia de suspeito. O que eu diria quando meu namorado, tão apaixonado por livros, chegasse? Será que eu deveria lhe ocultar o fato de quase ter destruído sua estante e seus livros com minha imprudência? Ou devolver o livro amassado ao seu lugar e fingir que nada sabia quando ele o descobrisse?

No dizer de Santo Agostinho, um grande pensador da mentira, mentir é querer enganar o outro, coisa que também pode ser obtida com a verdade. Eu não queria enganar meu namorado. Pelo menos, não queria muito. Embora, para ser sincera, também não possa dizer que quisesse pouco. Mas que verdade contar a ele para atenuar minha falta? Desde criancinha, aprendera com os adultos que a mentira era uma coisa feia, degradante mesmo. Porém, antes dos meus sete anos, tive que enfrentar uma verdade brutal.

Papai Noel não existia! Foi a primeira vez que me dei conta de que os adultos mentiam descaradamente e que não eram tão perfeitos quanto queriam fazer crer. Me dei conta de que inúteis haviam sido todas as horas perdidas  escrevendo ao velho barbudo pedindo presentes que nunca ganharia: ou porque não existiam ou porque eram caros demais para meus pais comprá-los. Por isso que nas cartas que Papai Noel me mandava de volta, se desculpando por não ter mandado o presente desejado, descobri com raiva, me perguntando porque não desconfiara antes, sua letra era sempre tão parecida com a da minha mãe.

Comecei a ler aquela página amassada que se oferecia para mim. Kant defendia uma obediência incondicional à verdade. Para ele, um individuo jamais deveria mentir, do contrário, estaria induzindo o outro a praticar uma ação em desacordo com sua própria vontade, mas em acordo somente com a vontade do mentiroso. Era exatamente o que meus pais fizeram comigo. Mentido, fizeram com que eu pensasse que era Papai Noel que me pedia para tirar boas notas na escola, ser obediente com eles e tomar banho no final de cada tarde, lavando bem atrás das orelhas e dentro do umbigo. E por essa mentira, eu perdera  meus programas favoritos de fim de tarde, como o Sitio do Pica-pau Amarelo e Jornada nas Estrelas, só para agradar Papai Noel, que nunca me visitava e, portanto, nunca me cheirava ou inspecionava orelhas e umbigos.

Já sentada no chão, continuei a ler. Em 1797, Benjamin Constant  escrevera um artigo criticando Kant: embora fosse um dever dizer a verdade, o conceito de dever era inseparável do conceito  de direito, só existindo, portando, dever de verdade, quando existisse, em contrapartida, um sujeito que tivesse direito à verdade, nenhum homem possuindo direito à uma verdade que prejudicasse os demais. Assim, se um assassino perseguisse o amigo de um homem a fim de matá-lo, e se o amigo se encontrasse escondido na casa do homem, este deveria mentir ou falar a verdade?

 

Nunca vivi situação tão perigosa. Mas na véspera do domingo das mães uma situação extrema quase me desmascarou. Eu tinha 11 anos e disse a minha mãe que ia brincar com minha melhor amiga. Peguei minha mochila, a economia de meses e fui para uma loja escolher um presente surpresa. Sem contar outras surpresas, além do meu próprio presente, a surpreendida fui eu: naquele exato momento, Suelí estivera na minha casa perguntando por mim. Kant diz que o mentiroso tem a obrigação de arcar com as conseqüências de sua mentira. E eu arquei. Mentindo uma segunda vez.

Respondendo à critica de Constant, Kant afirmou, li na pagina seguinte, que a expressão direito à verdade carecia de sentido. A verdade seria algo lógico e objetivo e não psicológico e subjetivo, para pertencer a alguém.  Utilizando o mesmo exemplo do assassino, Kant dividiu a questão em duas: 1) se, no caso, o amigo teria a faculdade de mentir;  2) se, no caso, o amigo teria a obrigação de mentir para evitar um assassinato.

Kant responde suas proposições afirmando que a verdade é inevitável, um dever formal de cada homem com outro, e que, se assim não fosse, se estaria cometendo uma injustiça primeiro com o interlocutor, e depois, com a humanidade inteira, visto que então, a palavra de um homem nada valeria, bem como suas promessas. Ao dever de verdade não corresponderia qualquer direito. O dever de verdade seria incondicionado.

Constant, por sua vez, acusa Kant de superficialidade e afirma que tomar o dever de falar a verdade como incondicional implicaria em tornar insustentável a vida em sociedade.

Puxando pelo fio de minhas memórias, mais uma cena me vem à cabeça. Eu tinha oito anos e era uma ardorosa colecionadora de gibis.  Não só  tinha prazer em colecioná-los, como em   exibi-los. Mas exibir meus gibis não passava de isca: queria mesmo era a possibilidade da troca. Na minha turma, uma garota magrela  e sardenta, possuía quase tantos gibis quanto eu. Emprestávamos uma à outra e aquele negócio continuaria indefinidamente não fosse por um pequeno detalhe: sou eu devolvia os gibis emprestados. Farta da situação e das vezes em que apenas perdera tempo ao lhe cobrar devolução, resolvi dar um basta. Informei a Silvia que dali por diante não lhe emprestaria mais nada. Nem que me implorasse de joelhos.  Não satisfeita e ainda cheia de ira, após uma outra coleguinha ter me pedido gibis emprestados e eu ter respondido que não emprestaria, dela ter me perguntado o porquê daquilo e eu ter lhe fornecido a mais pura verdade, na solidão do meu quarto, com a minha letra ainda insegura de criança, escrevi nas folhas dos meus mais cobiçados gibis o que ainda não ousara lhe dizer: “Trate como seu, mas lembre que é meu. Não faça como a ordinária da Sílvia Roxane que me pediu mais de dez gibis emprestados e não me devolveu nenhum”.

Na manhã seguinte, levei alguns desses gibis para aula, permitindo que todos os meus colegas de turma os folheasse. Quando Silvia os viu, seus olhos cresceram de desejo. Esquecida da conversa que tiverámos, ou porque me julgasse tola, voltou a me pedir um gibi emprestado. E eu, com  inocência fingida, excitada com a situação, o entreguei. Naquele mesmo dia ganhei uma inimiga para o resto da vida e descobri que a verdade pode destruir a sociedade. Mas, como consolo, também naquele mesmo dia, além de ter me vingado, experimentei a alegria que julgava impossível de ter todos os meus gibis devolvidos.

Deixo Kant de lado, o livro por cuja ferida me sinto responsável, e tento descobrir o que Arthur Schopenhauer diz sobre o caso. Não procuro muito. Ele defende que há situações em que se pode usar a mentira sem injustiça. No caso de uma agressão da qual não podemos nos defender pela força, senão pela astúcia, por exemplo. No caso do assassino, não seria injusto mentir sobre o paradeiro do amigo, pois o dono da casa estaria sendo coagido pelo assassino e aquele que promete algo sob coação não pode ser obrigado a cumprir suas promessas.

Ainda estávamos no jardim de infância quando Ritinha me bateu. Apesar de termos os mesmos seis anos de idade, eu era mais alta e forte, parecendo mais velha. Em sua pequenez, Ritinha era mais valente e não pensava duas vezes. O que ela queria, ao me bater, era que eu brincasse com ela no escorregador.  Implorei que parasse e dei a minha palavra de que faria sua vontade se ela me deixasse em paz, jurando, por dentro, que nem morta cumpriria a promessa. Tão logo ela soltou meus cabelos, dei um beliscão doído em seu braço e corri feito bicho para minha casa. Ela não sabia que não se pode verdadeiramente conseguir adesão pela força.

Schopenhauer afirma que não só temos o direito de mentir quando ameaçados pela violência, mas também para preservar a intimidade contra a curiosidade alheia. Nos meus 13 anos, entre cinco meninas atentas com os rostos voltados para mim, inventei uma mentira que exigiu muito da minha criatividade para esconder a vergonha de nunca ter sido beijada. Mas que outra saída eu teria para escapar da insidiosa pergunta de Alzimeire, que apesar de ser a melhor atleta, se enciumava por eu ter as melhores notas, e cujo objetivo, desconfio, teria sido aquele mesmo de me expor a ridículo, senão inventar um primeiro beijo muito melhor que o inventado por todas?

Schopenhauer só admitia a mentira em causas nobres e em auto-defesa. Como meu pais, ao inventar Papai Noel. Como eu, na véspera do Dia das Mães. Ainda me dedicava às essas memórias antigas quando a porta rangeu e uma corrente de ar frio tomou meu corpo, que se arrepiou.  Num movimento involuntário, me encolhi toda e fechei os olhos, sentindo que lentamente algo se aproximava de mim, esperando, aflita, sem saída, que a aproximação se consumasse. Sentia as leves vibrações no assoalho de madeira, um indefinido que me espreitava. Até que ouvi a voz, riscando o infinito silêncio:

– Meu amor, o que você faz encolhida no chão, com um pé calçado e outro não?

__________________

Para saber mais:

KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos. Trad.Leopoldo Holzbach. São Paulo: Martin-Claret, 2008.

SCHOPENHAUER, Arthur. Sobre o Fundamento da Moral. Trad. Maria L. Cacciola. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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