No Cine-Clube

Cena de "Histórias Mínimas", do argentino Carlos Sorín.

Cena de “Histórias Mínimas”, do argentino Carlos Sorín.

Nos últimos tempos, tenho  participado de sessões de cine-clube seguidas de discussões.  Percebi que meu interesse era grande na mesma medida pelo filme e pela discussão. Depois, que o interesse maior era na discussão. E por uma questão mais de curiosidade, de antropologia mesmo.

Na verdade, me perguntava, no contexto de cineclube em que as pessoas assistem aos filmes descompromissadamente, o que se poderia efetivamente discutir em conjunto. A heterogeneidade do público impedia o foco e as pretensas discussões não passavam de achismos: “Gostei do filme/não gostei do filme; achei interessante a música/não achei interessante”. Sem que houvesse de fato uma postura crítica sobre a obra e sem que as pessoas conseguissem apontar de fato quais  fatores haviam determinado a apreciação ou a não apreciação da obra. Tratava-se de impressões gerais sem qualquer tipo de fundamentação ou respostas conscientes, o que inviabilizava a discussão e construía grandes silêncios. Grandes silêncios literais: o debatedor constrangido, isolado na mesa central, diante de uma platéia igualmente constrangida.

Quando não, a discussão enveredava por outras searas, como no caso de Histórias Mínimas, de Carlos Sorín, em que foi discutida a integração política da América Latina. Logo percebi que os grandes vazios que descrevi se construíam em razão da ausência de um conhecimento maior  de cinema. Não falo conhecer teorias, nem de freqüências a cursos de cinema, mas do ato puro e simples de assistir o cinema de uma forma mais ativa, o que inclui buscar coisas novas e não apenas se resumir ao cardápio oferecido pelas grandes salas de exibição, bem como ler sobre o tema.

Nesse contexto, ao lado das opiniões simples como “gostei” e “não gostei”, as pessoas  também revelavam surpresa pela existência de um modo diferente de fazer cinema, diferenciado das estruturas narrativas comuns nas grandes produções hollywoodianas.  Essa surpresa também se constituía, pelo menos para mim, um impedimento para uma discussão mais frutífera sobre o filme/obra.

Para que se possa discutir validamente sobre algo é necessário que os envolvidos já possuam algum repertório prévio sobre o tema, para que se parta de algum ponto e não do zero, para que propicie não só a troca de informações, mas também a realização das conexões necessárias para que se vislumbre  a identidade daquela obra, o funcionamento da técnica narrativa, as influências que atuaram sobre o autor/diretor e também o que surgiu influenciado por ele,  pontos de vista, objetivos, etc.

Eu desenho Vip cinema

Antes que alguém me acuse de ser contra os cine-clubes, quero dizer que essa mesma perplexidade que apontei na platéia ao descobrir a existência de “outros cinemas”  e a discussão sobre integração política na América Latina, são alguns dos fatores que justificam sua existência: formação de platéia, de pensamento crítico, espaço de circulação de idéias… O que o cine-clube cumpre muito bem.

O que se viu frustrada foi apenas minha expectativa em relação ao nível de discussão, que não podia ser muito elevado em razão das limitações que já apontei.  É que, como alguém já disse: “debater com conhecimento é muito melhor”.

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