Cinema: Bastardos Inglórios

Lindevania Martins

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Foto: Divulgação

Finalmente chegou ao Brasil o novo filme de Quentin Tarantino: Bastardos Inglórios.

O filme é um sucesso e em razão disso são inúmeras as resenhas que surgiram sobre o mesmo nas mídias tradicionais e na internet. Assim, não pretendia repetir aqui o que pudesse ser lido em outros lugares, mas chamar atenção para aspectos menos elaborados em outras resenhas sobre o filme. No entando,  algumas repetições se fazem necessárias.

O título em português, pomposo e culto, se opõe ao título original em inglês, “Inglourious Basterds”, que contém propositais e evidentes erros ortográficos, insinuando que  um sentido se perdeu ali naquela tradução que se pretendia literal.

Entre o corpo de atores, o nome de maior apelo popular é Brad Pitt, intérprete do tenente americano Aldo Raine, líder dos Bastardos. No entanto, é um ator austríaco ainda pouco conhecido por estas bandas, que interpreta o educado, cruel e violento coronel nazista Hanz Landa, que impõe sua presença com força e persistência: Christoph Waltz, vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes pela interpretação do personagem, além de ter recebido inúmeros convites para novas atuações.

Ao lado de personagens caricatos, Hanz Landa é ricamente construído, o que tornou muito difícil para a produção e o diretor encontrar o ator ideal para vivê-lo: culto, poliglota, perverso.

Nas mais de duas horas e meia de duração do filme – que não se fazem sentir, passeiam pela tela a exuberância visual, os diálogos longos, a violência estilizada, o  humor nada sutil e as histórias independentes que só se cruzam no final, típicos de Tarantino.

Todas as ações principais se passam na França invadida pelas tropas alemães durante a 2ª Guerra Mundial e várias línguas se sucedem na tela: francês, inglês, alemão e italiano.  Nem sempre as pessoas se entendem e essas diferenças lingüísticas denunciam identidades  e complôs.


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Quentin Tarantino em ação

Entre os protagonistas do filme, o próprio cinema: as ações decisivas do filme se desenrolam num cinema; dentro do filme de Tarantino, se assiste a um outro: “Orgulho da Nação”; se vêem os bastidores das salas se exibição; os efeitos do cinema e da imagem são tão importantes que Hitler em pessoa comparece a uma estréia para aproveitá-los, etc. Metalinguagem pura.

Mais uma vez, Tarantino leva às telas seu cinema autoral num filme sem compaixão: a crueldade se encontra em todos os lados e todos a utilizam da mesma forma, na proporção dos seus recursos, os fins justificando os meios, para o desespero dos politicamente corretos. Mas Tarantino nunca esteve preocupado em ser politicamente correto e já está acostumado às acusações de que  promove violência gratuita. Violência permeada de humor que faz rir com a morte e com  o horror, embora muitas vezes um riso culpado.

Se a filósofa Hannah Arendt[1], quando escreveu “Eichmann em Jerusalém”, afirmava que os judeus partiam para a morte como cordeiros para  o abate, sem resistência, Tarantino trilha o caminho inverso.  No universo por ele construído, em ações isoladas ou coletivas, os judeus agem, reagem. Destróem. Às vezes, com o mesmo deleite de Hanz Landa, pelo que foi chamado de “pornô de vingança judaica”, pelo jornal americano “Jewish Daily Forward”.

Decepcionando os defensores da exatidão histórica, Tarantino propõe um desfecho diferente para uma história muito conhecida por todos.  E assim, reinventando o passado, nos faz lembrar que a realidade que vivemos é apenas uma que vingou entre as inúmeras possíveis.

 

Referências:



[1] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Relato sobre a banalidade do  Mal (Trad. José Rubens Siqueira). São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

 

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