O Que Estou Lendo: “O Homem Medíocre”

Lindevania Martins

Imagem: "Gula", de Bosch. "No verdadeiro homem medíocre, a cabeça é um simples adorno". (José Ingenieros).

“No verdadeiro homem medíocre, a cabeça é um simples adorno”. (José Ingenieros). Imagem: Hieronymus Bosch.

Descobri o livro “O Homem Medíocre”[1] no começo do ano, fuçando na internet, e ele logo ganhou um lugar  na minha “lista de objetos de consumo”. De férias em Florianópolis-SC, fuçando dessa vez em livrarias reais, “O Homem Medíocre” caiu nas minhas mãos.

Seu autor, o argentino José Ingenieros [2] (Palermo,1877 – Buenos Aires, 1925), possuía múltiplos talentos: foi médico, filósofo, criminologista, professor, sociólogo, etc.  É um dos maiores intelectuais da América Latina e da Argentina. Na área jurídica, é famoso pelos seus estudos em criminologia.

“O Homem Medíocre”  se  originou das lições ministradas por ele em 1911, quando professor da Faculdade de Filosofia e Letras, em Buenos Aires. Em Madrid, em 1913, ocorreu sua primeira impressão. Pretendia ser uma advertência aos jovens dos efeitos danosos de uma vida pequena e acomodade e, de fato, parece ter surtido efeito: sob sua  influência, aqueles jovens  protagonizaram a Reforma Universitária de 1918, na Argentina.

Numa escrita forte e sem meio termos,  o argentino demonstra todo seu desprezo pelo  que classifica de homem medíocre e afirma a necessidade de estudá-los: “Nenhum homem é excepcional em todas as suas atitudes. Mas não se poderia apenas definir como medíocres os que não sobressaem em nenhuma. Os medíocres desfilam diante de nós como exemplares de história natural, com o mesmo direito dos gênios. Já que existem, é preciso estudá-los”.

E isso o autor faz com mérito: estuda, desnuda, disseca. Mas, para começo de conversa, vamos  entender o que é o homem  medíocre para Ingenieros.

O homem medíocre é aquele cuja ausência de caracteres pessoais impede que se possa distinguir entre o mesmo e a sociedade, vivendo sem que se note sua existência individual, permitindo que a sociedade pense e deseje por ele. Vive uma vida sem biografia, com moralidade de catecismo e inteligência limitada, preguiçosa que é em suas concepções intelectuais. Projetados pela sociedade, são essencialmente imitadores, perfeitamente adaptados para a vida em rebanho, refletindo rotinas, preconceitos e dogmatismos úteis para a sociedade.


O homem medíocre é sinônimo de homem domesticado, se alinhando com exatidão às filas do convencionalismo social: faz como todos fazem. Sua principal característica é a deferência pela opinião dos outros, pelo que Ingenieros os chama de “escravos das sombras”: não vivem para si, mas para o fantasma que projetam na opinião de seus similares, para a aparência, preferindo o fantasma a si mesmos.

Porque pensam sempre com a cabeça social e não com a própria, são a escora mais firme de todos os preconceitos políticos, religiosos, morais e sociais.

Os medíocres  são obras dos outros e estão em toda parte: maneira de não ser ninguém  e não estar em nenhum lugar”. (José Ingenieros).

Ingenieros adverte dos perigos:

a)      Associações de medíocres – embora débeis individualmente, medíocres associam-se aos milhares para oprimir os que não comungam com a rotina;

b)     Educação oficial – tenta apagar toda originalidade inculcando os mesmos preconceitos em cérebros diferentes;

c)     Contágio mental  – um estúpido nunca se torna original por contato, mas é comum um homem de pensamento original ver-se apagado entre simplórios, pois é mais contagiosa a mediocridade que o talento;

d)     Velhice – após certa idade a inteligência entra em declínio e a velhice pode tornar medíocre o homem superior, e ao homem medíocre, decrépito.  Mas há homens que por exceção mantém  íntegras suas funções mentais e permanecem jovens, como há os que nunca foram jovens.

Todos os rotineiros são intolerantes;  sua escassa cultura os condena a ser assim”.  (José Ingenieros).

No entanto, Ingenieros, aponta um aspecto positivo sobre o homem medíocre: são eles que realizam os idéias dos grandes homens. Desprovidos de iniciativas pessoais, com encantadora ausência de idéias próprias, aguardam e realizam os impulsos e sugestões de homens melhores. O problema é que as rotinas defendidas hoje pelos homens  medíocres são simples imitações coletivas dos ideais concebidos pelos homens originais, pelo que aqueles estão sempre em descompasso com as novas ideias  e perseguindo os inovadores de seu tempo.

“O grosso do  rebanho social vai ocupando, a passo de tartaruga, as posições atrevidas conquistadas muito antes por seus sentinelas perdidos na distância; e estes já estão muito longe quando a massa acredita estar alcançando a retaguarda”.

Concebido no começo do século passado, já se vão quase cem anos que Ingenieros escreveu sobre homens e mulheres sem ideais, sem questionamentos, pragmáticos, perdidos numa rotina rasa e automática de repetição e aversão aos pensamentos divergentes. Impossível não perguntar: será que o texto ainda guarda alguma atualidade ?

Referências:


[1] INGENIEROS, José. O Homem Medíocre. Curitiba: Chain, s/data.

[2] TOMASINI,  Maristela Beggi. Vida e Pensamento. Disponível na internet: http://www.scribd.com/doc/8008935/Vida-e-Pensamento-de-Ingenieros Consultado aos 16.10.09.

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2 Respostas para “O Que Estou Lendo: “O Homem Medíocre”

  1. Simplesmente indisciplinado e justo ao filósofo (e porque não) homem superior José Ingenieros. Respondendo se o livro continua atual, na verdade continua a frente de seu tempo e de nosso tempo, universal como seu pensamento, atemporal como o pensamento e a visão dos homens superiores (ou seriam gẽnios?).

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