O Caso UNIBAN

Por Lindevania Martins

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Imagem: Guernica, de Pablo Picasso.

Sempre se imaginou que as universidades fossem ocupadas por  uma  elite intelectual. Um fato ocorrido na UNIBAN de São Bernardo dos Campos-SP, no último dia 22, pôs tal afirmação  em cheque.

Desde a semana passada, circulam no YouTube vídeos em que uma moça de  20 anos, estudante de Turismo naquela instituição, foi agredida  e ameaçada de estupro por conta de um vestido curto. A jovem[1] foi obrigada a se trancar numa sala de aula  e só pôde sair da universidade com proteção policial, sob os gritos de “puta” e “vagabunda” de uma multidão de  alunas e alunos imersos igualmente em fúria e contentamento.

Em cena: conservadorismo, hipocrisia e escassa cultura.

Demonstra-se profunda indignação perante uma peça de vestuário. Mas nenhum frente aos graves problemas coletivos do nosso tempo. Esses mesmos jovens que reagem de forma tão violenta a um vestido curto são indiferentes à política, às questões ambientais, à ética. Indiferentes, portanto, ao próprio futuro, pois de respostas adequadas a tais questões depende a sobrevivência digna do gênero humano.

Há poucos dias, foi postado neste blog um texto[2] sobre “O Homem Medíocre”, de Ingenieros.  Retratos do que vemos todos os dias por aí. E por aqui. Homens e mulheres sem qualquer inclinação questionadora, condenados a morrer na ignorância de que sua principal miséria advém da falta de cultura. Intolerantes porque a preguiça intelectual os obriga a ser assim. Se sozinhos não se sentem autorizados a cometer declaradas vilezas, em rebanho, protegidos pelo anonimato do grupo, o fazem numa proporção gigantesca. O que se observou na UNIBAN foi uma histeria coletiva que resultou num linchamento moral: reações de massa sem qualquer abertura ao pensamento crítico, expondo o lado mais sombrio e perigoso da mente conservadora[3]. Pergunta-se o que mais teria acontecido sem a intervenção da polícia.

Em 1881, Gustave Flaubert publicou “Dicionário das Idéias Feitas”[4], ficção combatendo o preconceito e o pensamento imóvel, cuja atualidade e necessidade se confirma mais de um século depois: o que se viu no último dia 22 deriva de concepções preconceituosas, machistas   e medíocres que desqualificam mulheres e as tornam vítimas preferenciais de abusos sexuais; que desqualificam homossexuais e os tornam vítimas de assassinatos; que desqualificam  negros; ateus.

Enquanto o filósofo francês Gilles Lipovestki[5] identifica nosso tempo com tolerância, aceitação da diversidade e redução da violência, os alunos da UNIBAN mostram que ficaram presos em algum lugar do passado.  Talvez na Idade Média, onde mulheres eram acusadas de bruxaria por serem mulheres. Talvez na primeira metade do século passado, onde judeus eram executados por serem judeus.

Referências:


[1] Disponível na internet: http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/news/2009/10/29/226703-aluna-da-uniban-garante-vou-voltar-nem-que-seja-com-escolta. Acessado aos 30.11.09.

[2] Disponível neste blog: https://catalogodeindisciplinas.wordpress.com/2009/10/17/o-que-estou-lendo-%E2%80%9Co-homem-mediocre%E2%80%9D/ .

[3] MARTINS, José de Souza. Linchamento: o lado sombrio da mente conservadora. Disponível na internet: http://www.fflch.usp.br/sociologia/temposocial/pdf/vol08n2/linchamento.pdf. Acessado aos 30.11.09.

[4] FLAUBERT, Gustave. Dicionário das idéias feitas. São Paulo: Nova Alexandria, 2008.

[5] LIPOVETSKI, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo.  São Paulo: Manole, 2005.

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4 Respostas para “O Caso UNIBAN

  1. UNIBAN – UMA PUTA (NA) UNIVERSIDADE

    Joga pedra na Genny!… Joga bosta na Genny!…
    Aqui procês estudantes da UNIBAN…
    Atitude nazista a boiada em ação ofendendo uma estudante que trajava roupas “indecorosas”.
    Será que os lideres que ameaçaram a “Genny da UNIBAN” em São Bernardo do Campo estavam embriagados, vindos dos milhares de bares que rodeiam as faculdades e ficam apinhados de estudantes “gazeteiros” ou apenas descontavam seu ódio ou da moça ter reagido a alguma cantada deles.
    O resto da boiada são Hooligans inúteis…
    Talvez “filhinhos de papai” oriundos das melhores escolas privadas?
    E se a Genny for uma puta mesmo?
    Qual o problema?
    Se as roupas feriam alguma norma ética moral da Universidade caberia alguma atitude da direção da escola.
    Aí, quem sabe apareceriam os mesmos estudantes se rebelando contra o autoritarismo da direção da escola.
    Pobres idiotas.
    Lembro-me de Caetano quando, ao ser vaiado pela música “È proibido proibir” disse: “É essa a juventude que pretende tomar contra do país?
    Vergonhosa e irreparável situação.
    À Genny aconselhamos processar a Universidade pelos danos morais causados e sair desse curral…

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  2. Não sei se chega a ser de se esperar, uma ‘histeria coletiva’ dessa forma. Não dá para ter muita fé no bom senso das massas. É, sem dúvida, um dos maiores absurdos que eu já ouvi. Ainda mais nos tempos em que vivemos… alguém lembra da Tiazinha ter sido apedrejada ou xingada?
    Sabe, me apoio em Elias para julgar que, certa mesmo, estava minha amiga Carla. Acaso a necessidade de extravazar a violência é tão grande e inegável, podia ser feita de uma forma diferenciada, moldando este fluido emocional – assim dizia Elias. Ou, em outras palavras, esse povo tava precisando é trepar – assim diria Carla.
    O que mais me incomoda é que, como a autora mesmo comentou, locais que deveriam ser destinados a “elite pensante” (e por isso não entendo pessoas melhores ou mais capazes, mas sim pessoas mais interessadas em pensar e refletir) pode vir a virar um espaço de preconceito e falta de senso crítico.
    Fico a pensar, aqui, não somente no episódio em si… mas também nas consequências emocionais e sociais disso para a guria. Como pode existir tanta idiotice no mundo? Tudo bem que o Brasil não está lá muito bem no quesito “trabalhar a violência”, se olharmos pelo foco do Processo Civilizador, até porque ainda pensamos que o Estado tem o direito exclusivo “à violência”, ao invés de “ao controle da violência”, mas ainda assim… nessas horas dá realmente uma grande vergonha de ser brasileiro.
    Vou me esconder aqui no meu sotaque britânico e fingir que não é comigo…

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  3. Acho que a estupidez histérica de tantos alunos da Uniban
    não é própria dos brasileiros, nem mesmo dos de São Paulo, onde ocorreu o fenômeno.
    Que eu saiba. nunca aconteceu algo tão cretino por aqui.
    Deve haver alguma coisa difícil de explicar naquele lugar.
    Não culpem o Brasil pela boçalidade de uns e outros!
    Sérgio

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