A Fábrica

Lindevania Martins

"Tempos Modernos". Crítica ao modo de produção de linha de montagem.

Em 1936,  chegava aos cinemas “Tempos Modernos”. Um sátira ao mundo autômato do trabalho. Charles Chaplin eternizava a figura do operário que, na linha de montagem de uma fábrica, apertando parafusos, se distanciava do sentido maior do trabalho e se alienava.

Fabricar designa o ato  de apoderar-se de algo dado na natureza, transformá-lo em algo manufaturado, dar-lhe uma aplicabilidade e utilizá-lo.

Em “O Mundo Codificado”, o filósofo Vilém Flusser diz que a história da humanidade pode ser considerada como uma história da fabricação, desenvolvida em torno dos seguintes períodos sucessivos: o período das mãos;  das ferramentas; das máquinas; dos aparelho eletrônicos.

A fabricação é realizada primeiramente pelas mãos, através da apreensão de objetos na natureza, sem qualquer outra mediação.  Como nada mais  necessita que seu próprio corpo e dadas as limitaçoes impostas por este, não há necessidade de delimitar espaços para a produçao. Esta pode ocorrer em qualquer lugar.

Com o avanço do conhecimento do homem, tem-se o que Flusser chama de Primeira Revolução Industrial: a substituição das mãos pelas ferramentas.  Ferramentas são imitaçoes das mãos, como próteses que prologam o alcance e eficiência dessas mãos. Com o uso de machados, facas, pontas de flechas, inicia-se uma nova fase da existência humana. As novas ferramentas exigem a delimitação de espaços específicos para a fabricação, no centro dos quais se encontrará o homem, em seu torno as ferramentas,  que por sua vez estarão rodeadas pela natureza.

Com a invenção das máquinas,  que são ferramentas projetadas por teorias científicas, por isso mais eficientes, caras e rápidas que as anteriores, inicia-se a Segunda Revolução Industrial. Tais máquinas  determinam grande mudança na arquitetura da fábrica. No centro não estará mais o homem, porém, algo que lhe ultrapassa em duração e preço: a máquina. Ela é a constante e o homem , que estará no entorno, a variável.  Se o homem envelhece ou morre, basta substituí-lo por outro.

Imagem: Lewis Hine. "A fábrica é uma criação comum e característica da espécie humana, aquilo a que já se chamou de dignidade. Podem se reconhecer os homens por suas fábricas". (Vilém Flusser).

Por fim,  chegamos a era que vivenciamos, a da Terceira Revoluçao Industrial, na qual as máquinas são substituídas pelos aparelhos eletrônicos. Enquanto as ferramentas imitam  a mão e o corpo empiricamente; as máquinas o fazem mecanicamente; e os aparelhos eletrônicos neurologicamente. Ao contrário das máquinas, os aparelhos são cada vez menores, mais baratos e adaptáveis ao uso humano. O homem se encontra em função do aparelho, mas o aparelho também se encontra em função do homem. O aparelho só faz aquilo que o homem quiser, mas o homem só pode querer aquilo de que o aparelho é capaz.

Isto determina um novo modo de relacionamento com o espaço da fabricação.  O homem equipado  com um aparelho pequeno, minúsculo ou até mesmo invisível, parece estar sempre pronto a fabricar algo em qualquer momento e lugar.  Isto lembra o homem primitivo cujo único equipamento de transformação era unicamente as mãos. No entanto, para este bastavam informações simples.  Mas o aparelho é uma ferramenta complexa, com funções abstratas, exigindo um outro nível de competência do homem.  Como esta revoluçaõ ainda está em curso,  diz Flusser, ainda não  é possível saber que contornos finais terá esta fábrica.


Referências:

FLUSSER, Vilém. O mundo codificado.  Trad. Raquel Abi-Sâmara. São Paulo: Cosac Naify,2007.

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