Cinema para Ler

Lindevania Martins

Jornal do Brasil, 1o. de maio. Na lista dos livros de ficção mais vendidos,  o  primeiro lugar é de um livro publicado na Europa em 1865. O sétimo lugar também.  Espanto?

Explica-se: estão nas livrarias várias edições diferentes de Alice no País das Maravilhas, do inglês Lewis Carroll. Destas,  a mais vendida é a edição da Jorge Zahar. O  sétimo lugar pertence à  edição da  Cosac e Naify. As outras edições, embora não constem da lista, não devem estar mal.

Registre-se que tal livro, provavelmente, nunca apareceu no Brasil em listas de mais vendidos. O que justifica o interesse repentino por ele?

O cinema!

Filmes vendem livros e livros vendem filmes. Até aqui nenhuma novidade, afinal, Crepúsculo, Harry Poter e O ladrão de Raios estão aí para servir de exemplo. O longa “Xico Xavier” atraiu multidões ao cinema e, na mesma lista do Jornal do Brasil,  o livro  As Vidas de Xico Xavier aparece em primeiro lugar na lista de livros de não-ficção mais vendidos.  Amparado no seu  fenômeno de vendas, O Doce Veneno do Escorpião de Bruna Surfistinha parece que vai virar filme, e se for um sucesso no cinema, fará com que  se venda  mais do mesmo.

Por ocasião do lançamento do filme de Vater Sales chamado Ensaio Sobre a Cegueira, o livro de José Saramago, também figurou nos  primeiros lugares. O mesmo com O Amor  em Tempos de Cólera.

O cinema é, por excelência, o grande meio de comunicação de massa. Leia-se: o cinema americano.  Se a televisão é local, o cinema americano é global. E não importa que não se fale inglês em  qualquer lugar do mundo. É para isso que existem legenda e dublagem.

Lewis Carroll em seu universo

O cinema tem conseguido a proeza de transformar clássicos em best-sellers do séc. XXI.  Transforma espectadores em leitores, ainda que direcionados para obras previamente escolhidas por ele. Transforma leitores em novos leitores  das mesmas obras e em espectadores vorazes quando filma best-sellers.  Parece um círculo vicioso?

Antes mesmo do  filme de Tim Burton ser lançado no Brasil, começou o que  vem sendo chamado de Alicemania.  Nos tristes trópicos, foram lançados sapatos, camisetas, baralho. Livros. Todos entre os mis vendidos. Alguns esgotados.  Foram feitos ensaios de moda, lançadas propagandas, festas, baseadas em Alice.

O filme Alice não é uma adaptação da obra de Carroll. O cineasta americano coloca em cena uma Alice já adulta, portanto, bem diferente da história original. Registre-se que o livro de Carroll não é considerado uma narrativa trivial, embora obras não-trivias possam ser lidas dessa maneira. De fato, é considerado uma leitura difícil, que permite múltiplos enfoques.

Verificada a corrida às livarias que certos fimes provocam, os que propagam o fim da cultura letrada e os que colocam os meios de comunicaçao  de massa sob suspeita, teriam que capitular e aceitar que o demônio não é tão feio quanto pintam? Teriam algo a comemorar?

Tim Burton em seu universo

Editores e livreiros têm.

Tim Burton também.

Após o curta Frankenweenie (1984) – sobre um menino que vê seu cão Spankie ser atropelado na rua e o traz de volta à vida, à moda Frankestein, Tim Burton foi demitido dos estúdios Disney.  A justificativa era de que o mesmo realizava filmes muito assustadores para a família, portanto, sem chance de retorno dos  investimentos financeiros do estúdio.

De volta à Disney,  após sucessos como Peixe GrandeA Fantástica Fábrica de chocolate, A Noiva Cadáver e Sweenie Todd, Tim Burton  se tornou mais pop do que nunca! E mais cult também. Entre novembro de 2009 e abril de 2010, foi realizada uma retrospectiva sobre a obra do cineasta no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque, com ilustraçoes, pinturas, esculturas, textos, etc. sobre Tim Burton ou do próprio cineasta.

Mas… nada se compara a Alice!

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