Yves Klein – Além do Azul

Lindevania Martins

“Para mim, as cores são seres vivos, indivíduos extremamente evoluídos que se assemelham a nós e a todo o resto”.  (Yves Klein)

A arte contemporânea  necessita de explicitação.  Pensa Tom Wolfe e o diz ironicamente,  afirmando que “a arte  moderna  se tornou inteiramente literária: as pinturas e outras obras só existem para ilustrar o texto”,  não se tratando de “ver é crer”, mas “crer é ver” (WOLFE: 2009). Para Henry Flynt, que teria sido o primeiro a utilizar o termo “arte conceitual”,  em 1961, os conceitos são a própria matéria da arte, visto que ela está vinculada à linguagem, pelo que interessa mais a idéia que a sua execução.

Poucos levaram os conceitos de arte tão  longe quanto Yves Klein. Nascido  na França em 1928,  Klein era um provocador. Três anos mais velho que Tom Wolfe, enquanto este renovava o jornalismo nos Estados Unidos e andava por Nova Iorque fazendo  crítica de arte, o artista plástico, literalmente, incendiava ou esvaziava seu trabalho na Europa.

Como Flynt, Klein acreditava que o conceito que originava a obra de arte era mais importante que ela mesma: executada e observável.  Wolfe diria: “Francamente, nos dias que correm,  sem uma teoria para endossá-la, é impossível ver uma pintura”  (WOLFE:  2009).

A experiência artística em Klein é radical, sustentada por suas idéias inusitadas e arrebatadoras, compartilhadas com o público em toda sua vitalidade e, por vezes, efemeridade. O artista queria  se afastar do “velho academicismo do pincel, da cor”, do “complexo de cavalete”.  Buscava um elemento pictórico puro que sensibilizasse quem o contemplasse, tendo  chegado, após vários experimentos, ao International Klein Blue, patenteado em 1960.  Afastando-se dos pincéis convencionais, quis apresentar o pincel vivo, numa atitude ofensiva às mulheres, que se viram tratadas como objetos. Literalmente: o pincel vivo eram modelos nuas molhadas em  tinta. Pulemos essa parte.

Em abril de 1958, uma exposição de Klein virou lenda. O público de mais mil de pessoas que se dirigiu a Galeria Iris Clert, em Paris, ficou espantado com o que viu. E com o que não viu. Tendo despojado a galeria de todos os seus móveis, Klein a  pintou inteiramente de branco utilizando a mesma técnica empregada em seus monocromos. O evento ficou conhecido como “O Vazio”. Albert Camus, um dos presentes na exposição, teria escrito no livro de honra da mesma: “Com o vazio, plenos poderes”.  No coquetel, uma bebida fez os presentes sentirem na carne- ou melhor, nos seus fluidos corporais, as idéias do francês louco: mais tarde, urinaram em azul (WEITEMEIER: 2005).


Entre 1947 e 1961, Yves Klein apresentou repetidas vezes o trabalho “Sinfonia Monotônica” ou “Sinfonia Monôtona”, na Galeria Internacional de Arte Contemporânea, em Paris. Tratava-se de uma peça musical composta por ele, de apenas uma nota, repetida durante vinte minutos. No texto “The Chelsea Hotel Manifesto”, Yves se refere à mesma afirmando que propôs ali uma nova concepção de música.

Em março de 1960,  uma nova exibição da sinfonia, agora fechada ao público, incluía uma novidade. Paralelamente, no mesmo salão ocupado por 20 músicos clássicos, apareciam três modelos nuas, com baldes de tinta azul.  Na parede oposta àquela onde se encontravam os músicos, gigantes tiras de papel dispostas na parede. Envolvendo seus corpos em tinta azul, as modelos tinham os movimentos dirigidos por Klein, impregnando as tiras de papel com suas impressões corporais.

Enfim, Klein pintou  e bordou. Ou quase. Não pintou apenas com seu pigmento novo, mas também com fogo e água. Saltou no vazio: “Um homem no espaço”. Criou a “Zona de Sensibilidade Pictórica Imaterial”.

Para Joseph Nechvatal, Klein é o mais importante artista fracês depois de Henri Matisse. Para ele, o trabalho de Klein, ao focar no imaterial, no vazio, no efêmero, é de grande relevância para nossa era digital.

Como Piero Manzoni,  morreu cedo. Antes dos 40 anos de idade, de ataque cardíaco e no auge da fama. Antes, porém, fez uma piada com  Malevitch e seu “Quadrado Negro Sobre Fundo Branco”:  “Malevitch pintou uma natureza morta a partir de uma de minhas pinturas monocromáticas” (GOODING: 2004 ).

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Referências:

GOODING,  Mel. A arte abstrada. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

NECHVATAL, Joseph. Yves Klein: corps, coleur, immatériel. Disponível na internet  em http://www.eyewithwings.net/nechvatal/Klein/Klein.htm. Consultado em 12.12.09.

KLEIN, Yves. The hotel Chelsea Manifesto. Disponível na internet  em http://www.yvesklein.de/manifesto.html. Consultado em 12.12.09.

WEITEMEIR, Hannah. Yves klein.  Singapura: Taschen, 2005.

WOLFE, Tom. A palavra pintada. 9 ed. Rocco: São Paulo: 2009.

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