A palavra como imortalidade

Lindevania Martins

No filme “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman, um homem desafia a Morte a jogar xadrez.

As coisas que conhecemos são de dois tipos: aquelas cuja duração nos ultrapassa; e as que terminam antes de nós. Ambas pontuando nossa incapacidade de escapar ao fim.

Não fomos feitos para permanecer, mas Deus e o diabo sempre nos seduziram com a promessa de vida eterna. A ciência, se ainda não promete o mesmo, faz acreditar que um dia chegaremos lá.  A literatura e o  cinema  nos envolveram em fantasias através de tipos diversificados: imortais como deuses e vampiros; criaturas meio vivas, meio mortas, como zumbis; frágeis ou ambiciosos  humanos tentando ludibriar a morte.

Incapazes de vencê-la com nosso próprio corpo,  ainda podemos fazê-lo com os corpos de outros: nosso material genético sobrevivendo nos nossos filhos, nos filhos de nossos filhos.

No entanto,  ainda podemos fazê-lo de um modo ainda mais ardiloso.

Em “Fedro”, ao atacar a invenção da escrita, Platão afirma que ela conduzirá ao esquecimento: quando tudo está escrito e pode ser lido,  não há porque o homem cultivar a memória, que se torna dispensável. Em  “O Dicionário Kazar”,  Milorad Pávitch pôs em cena uma princesa que inscrevia nas pálpebras, para afugentar os inimigos enquanto dormia, as letras de um alfabeto proibido cuja leitura conduzia a morte. Contudo, ante a dissipação da palavra falada,  a invenção da escrita foi uma técnica para fazer durar a linguagem, aumentar a memória, fazendo viver.

Se a possibilidade da imortalidade física vem acompanhada de inúmeros problemas, como o espaço no nosso cérebro para o armazenamento de memórias de uma vida infinita, o espaço geográfico apto a abrigar tanta gente, moradia e trabalho, a morte do nosso Sol e o fim do universo, etc., esta outra imortalidade tem apenas implicações positivas, significando que foi realizado um acréscimo no nosso repertório cultural.

Como acontece com os genes, ainda se vence a morte através do outro:  da ponte que a palavra fixada estabelece  entre quem a forja e quem a recebe.

Esta semana morreu José Saramago.

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