Nerds contra o Tio Sam

Lindevania Martins

A Wikileaks está na boca do mundo.

A Wikipédia informa que se trata de uma organização sem finalidades lucrativas, sediada na Suiça e dirigida pelo australiano Julian Assange, cujo objetivo é a divulgação na internet de materiais confidenciais vazados de governos ou empresas – materiais que estes preferiam esconder. O próprio Assange[1] a define de forma mais aberta, como um conceito que deveria ter papel global.

A Wikileaks denunciou abusos, corrupção, matanças e tortura. Adquiriu prestígio e reconhecimento internacional, ganhando vários prêmios.  Entre estes,  prêmios oriundos da revista The Economist e da Anistia Internacional, nos anos de 2008 e 2009.  Divulgou documentos sobre a política de extermínio no Quênia, um vídeo de 2007 que mostrava mortes de civis iranianos em ataques norte-americanos; mais de 70 mil documentos secretos norte-americanos sobre a Guerra no Afeganistão em julho deste ano; mais de 400 mil documentos secretos norte-americanos sobre a Guerra no Iraque em outubro deste ano;  e em novembro último, inúmeros telegramas – claro, também secretos, de embaixadas  e do governo… norte-americano.

Desta vez, não houve prêmios.

Mas houve retribuição por suas ações. Um conveniente mandado de prisão contra  Julian Assange por alegada violência sexual.  Expulsão da página do Wikileaks dos servidores da Amazon. Ataques maciços à página do grupo na internet.

Escrevendo sobre a Wikileaks, Manuel Castells[2] afirma que o ciberespaço, abastecido por fontes autônomas de informação,  é uma ameaça decisiva à capacidade de silenciar em que sempre se fundou a dominação, apontando que os Estados Unidos condenam a divulgação dos seus documentos, sem comentar as práticas de tortura  e as mortes de civis que esses mesmos documentos revelam.  Sobre as tentativas de desqualificar os materiais divulgados, Castells afirma que esta é uma velha tática midiática: atacar o mensageiro para se esqueça a mensagem.

Lembra-se alguns dos princípios da ética hacker definidos por Steven Levy[3]: o acesso a computadores  deve ser ilimitado e total; toda a informação deve ser livre; a autoridade deve ser desacreditada e deve ser promovida a descentralização. Lembra-se também  que, em 1996, Jonh Perry Barlow[4] escreveu na Declaração de Independência do Ciberespaço, se referindo aos governos, por ele chamados de tediosos gigantes de carne e aço: “Eu declaro o espaço social global, aquele que estamos construindo,  naturalmente independente das tiranias que vocês tentam nos impor”.

Com seu diretor procurado pela Interpol e com sua página sofrendo ataques em massa com a intenção de tirá-la do ar, a Wikileaks mandou um pedido de socorro aos internautas. Keep us strong. Ora, se a Wikileaks estiver duplicada em centenas, milhares de sites, será mais difícil tirá-la do ar. A idéia é que cada internet interessado em ajudar a  Wikileaks use seu I.P. para produzir uma espécie de espelho da mesma. Em pouco mais de quatro horas, o número de espelhos aumentou de 288 para 355: http://wikileaks.ch/mirrors.html.

Nessa guerra de nerds  contra o Tio Sam, em jogo, a  liberdade de expressão na internet e  a capacidade das grandes potências lhe fazerem frente.


[1] ASSANGE, Julian. Entrevista ao The Economist. Disponível na internet em:  http://www.politicaexterna.com/16216/traduo-da-entrevista-online-de-julian-assange-para-os-leitores-do-the-guardian-em-reviso. Acessado em 05.12.10.

[2] CASTELLS, Manuel. ?Quiem teme a Wikileaks?. Disponível na internet em: http://sociologiac.net/2010/12/04/%C2%BFquien-teme-a-wikileaks-por-manuel-castells/. Acessado em 05.12.10.

[3] LEVY, Steven. Hackers: heroes of the computer revolution. New York: Penguin, 2001.

[4] BARLOW, John Perry. Declaration of the Independence of Cyberspace. Disponível na internet em: https://projects.eff.org/~barlow/Declaration-Final.html. Acessado em: Acessado em 05.12.10.

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