Desesperados: Horace McCoy e o Big Brother

Lindevania Martins

Em 1935, o escritor americano Horace McCoy publicou o livro “They Shoot Horses, Don’t They?”. baseado em suas próprias experiências durante a Grande Depressão.  Em 1969,  mantendo o mesmo nome, Sydney Pollack levou a história às telas de cinema através de um longa rebatizado no Brasil de “A Noite dos Desesperados”. Quanto ao livro, ora foi traduzido  com o nome do filme, ora com referência ao nome original: “Mas Não Se Matam Cavalos?”.

Na ediçao publicada pela L&PM, em 2007, lê-se na contracapa: “Em “Mas não se matam cavalos?” (1935), Horace McCoy (1897-1955) apresenta Robert Syverten e Gloria Beatty, duas pessoas sem perspectiva alguma, que decidem participar de uma maratona de dança achando que, assim, granjearão alguma oportunidade de trabalho em Hollywood”.

Quando Kléber de Paula, o Bam Bam, venceu o Big Brother Brasil 1, a revista Época publicou: “Filho de classe média empobrecida, sem rumo na vida, Kléber de Paula vive de pequenos serviços pelo país afora, à espécie da sorte grande…” (Época, 8/04/2002).

Qualquer semelhança com fatos ou acontecimentos reais é mera semelhança. Ou não?

Cena do Big Brother 11

Big Brother e “They Shoot Horses, Don’t They?” guardam muitas semelhanças. Tanto a maratona de dança quanto o Big Brother são espetáculos cuja  maior atração é a exploração de limites de seres humanos que se dispuseram voluntarimaente a isso, ante a possibilidade de obter dinheiro, fama e emprego na televisão, no caso do Big Brother. E emprego no cinema, na história de McCoy.

Quando os protagonistas de McCoy se conhecem, Robert e Gloria, travam o seguinte diálogo:

“Uma amiga minha está tentando me convencer a entrar numa maratona de dança lá na praia – ela disse. – Comida grátis, cama grátis enquanto a gente agüenta, e mil dólares se a gente ganhar.

– A parte da comida grátis parece boa – eu disse.

– Não é o mais legal – ela disse. – Vários produtores e diretores vão a essas maratonas de dança. Há sempre a chance de ele escolherem a gente e darem um papel num filme… O que você acha?

– Eu? Ah, não sei dançar direito…

– Não precisa. Só precisa ficar se mexendo”.  (p. 17-18).

Participantes da maratona de McCoy e do Big Brother devem manter  a encenação: encenar a dança, encenar a vida real.

Cena do Big Brother 11

A maratona de dança só termina quando apenas um último casal continuar de pé, a lembrar as provas do BBB, após ininterruptas de  duas horas de “dança” e  dez minutos de descanso. Decididos a participar do programa, Robert e Gloria aprendem  como devem se comportar:

” Uns veteranos nos deram dicas, a Gloria e a mim, que o melhor jeito de ganhar uma maratona de dança era aperfeiçoando um esquema para aqueles dez minutos de descanso: aprender a comer um sanduiche enquanto se fazia a barba, aprender a comer enquanto se ia ao banheiro, enquanto se cuidava dos pés, aprender a ler o jornal enquanto a gente danç ava,  aprender a dormir no ombro do parceiro enquanto a gente danç ava;(…)”.

Na história do autor americano, em certo momento, Socks, um dos organizadores, propõe ao casal de protagonistas uma outra simulação:

“- Que tal vocês ganharem cem dólares? – Rocky perguntou.

– Para fazer o quê? – Glória perguntou.

– Bem, moçada – disse Socks Donald-, tive uma idéia bacana e preciso de ajuda…

-É! – disse Socks. – Eu queria que  vocês se cassassem aqui. Um casamento público.

– Casar? – eu disse.

– Espera aí – disse Socks. Não é tão ruim assim. Dou cinqüenta dólares para cada um e depois que a maratona acabar vocês podem se divorciar, se quiserem. Não tem que ser para valer. É só pelo espetáculo. O que acham?”

(…)

-É isso aí – Socks disse. –  Claro que a cerimônia será de verdade… Temos de fazer isso para atrair o público.

(…)

Cena do filme "They Don't Shoot Horses, Don't They??"

-Você quer trabalhar no cinema e esta é sua  chance – Socks disse – Já arrumei lojas para dar o vestido de noiva  e os sapatos, e um salão de beleza para arrumar você… vai ter um monte de diretores e supervisores  e eles vão olhar só para você. É sua grande chance.  O que você acha, garotão?  – perguntou para mim”.

Livres da vigilância constante a que submetem participantes do Big Brother, câmeras e microfones, os diálogos dos maratonistas de McCoy sao impiedosos. Quanto aos seus congêneres modernos, parecem jamais reclamar da produção, da falta de comida decente, lembrando a fala de Washington Araújo, no blog Ética na TV, que assim se expressou sobre os BBBs:

“Como miquinhos amestrados, os participantes estarão ali para serem desrespeitados, não poucas vezes humilhados e muitas vezes objeto de escárnio e lições filosóficas extraídas de diferentes placas de caminhões e compartilhadas quase diariamente pelo jornalista Pedro Bial, ao que parece, senhor absoluto do reality . Não faltarão “provas” grotescas, como colocar uma participante para botar ovo a cada trinta minutos; outra para latir ou miar a cada hora cheia; algum outro para passar 24 horas de sua vida fantasiado de bailarina ou para pular e coaxar como sapo sempre que for ativado determinado sinal acústico”.

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2 Respostas para “Desesperados: Horace McCoy e o Big Brother

  1. Oi Linda, Obrigado pela visita e como já havia dito o seu blog está na minha lista de favoritos.

    Sugestão: Gostaria que você postasse artigo com sugestões de autores de livros interessantes, e aqueles que você mais gosta bjs.

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