O Egito, Os Protestos e A Técnica

Lindevania Martins

Mubarak finalmente caiu.

Após muito resistir às pressões, deixou que seu vice anunciasse sua retirada do palco: ” Este dia  ninguém vai esquecer” – entusiasmado, escreveu  o jornalista egípcio Abdel Kaddous no site da Democracy Now!.

Comentando o desfecho vitorioso do levante popular no Egito, bem como os vários artigos que dão às redes sociais uma posição de protagonismo, Devin Coldewey publicou artigo com o seguinte título: “Pessoas, não coisas, são as ferramentas da revolução”. Argumenta que embora as redes sociais tenham feito parte do protesto, sua importância têm sido superestimada e corre-se o risco de supor que elas foram essenciais.

“As pessoas que são as ferramentas da revolução”, diz ele, “ seja sua discordância espalhada por sussurros,  cartas, Facebook ou outros meios que ainda nem imaginamos. Do que nós, e os egípcios, devemos estar orgulhosos, não são das qualidades que separam a revolução no Egito daquelas dos últimos cem anos, mas das qualidades que são fundamentais para todas elas”. Por fim, afirma que a internet não é necessária nem suficiente para uma revolução, indignação e união da população,  sim.

Do Egito, a jornalista Mona Eltahawy chamou os milhares de jovens que se aglomeraram na Praça Tahrir pedindo a renúncia de Mubarak de “Geração Facebook”. E ela explica que as redes sociais conectaram ativistas com pessoas comuns, preencheram as lacunas deixadas pela mídia tradicional que silenciou sobre a insatisfação política e foram usadas para convocar e divulgar locais e horários dos protestos. E conclui afirmando que blogs e redes socais não inventaram a coragem, mas amplificaram as vozes dos egípcios que já vinham protestando contra Mubarak há anos.

Mona Eltahawy, ao louvar o uso das redes sociais, e Devin Coldewey, ao criticá-las, partem de um ponto comum: o uso das redes como forma de comunicação. Devin Coldeway chega a dizer que não é de admirar que os protestos tenham sido organizados a partir das redes sociais, pois esta é a forma usual como as pessoas se comunicam hoje.

 

As técnicas de comunicação de que atualmente dispomos são de alto impacto e eficiência. No entanto, não deveria saltar aos olhos que as redes têm possibilitado bem mais que simples comunicação? Como  uma mudança de paradigmas, através da  organização de uma revolução sem líderes?

Ao longo do século XX,  se firmou a concepção de que as revoluções tinham como origem partidos de vanguarda, líderes carismáticos, setores mais avançados da sociedade ou da intelectualidade. Não foi o que pareceu ter ocorrido na Tunísia e no Egito.  As redes sociais  e novas técnicas de comunicação parecem ter permitido a auto-organização, de forma rápida e barata, das pessoas comuns, numa luta coletiva, sem estrelas individuais, apesar da tentativa da imprensa ocidental, inclusive a brasileira, de atribuir à Irmandade Islâmica uma posição chave que ela não ocupou.

“Se não há polarizações em pessoas específicas, a quem prender para quebrar o movimento?”, deviam se perguntar os ditadores. A ausência de líderes desestimulou a competição,  deixando espaço para a colaboração, o que pode ser facilmente percebido na forma como as pessoas presentes no local contaram sobre as necessidades básicas do dia a dia: partilha e recebimento de comida,  cobertores, apoio. Essa forma de organização assusta não apenas governos ditatoriais, mas a mídia tradicional, afinal, pudemos acompanhar o desenrolar dos eventos no Egito através de twitters, blogs, imagens de celulares e outras formas de comunicação usadas por incontáveis pessoas.

E como pretender isolar de um lado técnicas, como internet, redes sociais e blogs, e de outro, pessoas, como faz Coldeway? A técnica pode existir sem sua dimensão humana? Não são as técnicas extensões do homem?


Para saber mais, clique nas frases e palavras em laranja:

La Libertad y Los Árabes, de Mario Vargas Llosa

They Did It, de Thomas L Friedman

 

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