O Hacking como Protesto Político

Tradução de entrevista da Gabriella Coleman, antropóloga, professora assistente na New York University – Steinhardt,  por Lindevania Martins.


O que é um hacker? Um hacker têm código de ética?

Quando pensamos no termo hacker, imaginamos moradores de porão digitando furiosamente em  seus teclados com o objetivo de transformar a internet num inferno. Como antropóloga, cujo foco em estudo etnográfico são os hackers e geeks, é importante começar abordando os estereótipos que tanto dominam a percepção pública. De modo mais geral, “hacker”é um técnico que  ama computadores e “hack” é uma inteligente solução técnica que  é obtida  de forma não-óbvia. E não implica em comprometer o Petágono, mudar suas notas, ou derrubar o sistema financeiro global. Embora isso possa acontecer, é num sentido estrito relacionado ao termo. Hackers tendem a valorizar um conjunto de princípios liberais:  liberdade, privacidade e acesso. Tendem a adorar computadores. Alguns obtém acesso não autorizado a tecnologias, embora o grau de ilegalidade varie muito ( e mais, a grande maioria da atividade hacker, sob a definição que eu dei, é realmente legal).  Mas uma vez que se confronte o hackear na prática, algumas semelhanças se diluem num mar de diferenças. Algumas dessas distinções são superficiais, enquanto outras são profundas o suficiente para nos fazer pensar  sobre o hackear em termos de gênero ou genealogias de “hacking” – e meu trabalho  e prática pedagógica  compara e  contrasta várias dessas genealogias, tais como o hacker do software livre e aberto e o hacker underground, que é mais agressivo em seus propósitos.

A atividade hacker é um exercício de liberdade de expressão?

Assim como há níveis de profundidade e variabilidade na atividade hacker, há ricas e distintas conexões entre liberdade de expressão e o hackear. Por exemplo, desenvolvedores de software livre e aberto (que criam softwares tais como o navegador Firefox) estão comprometidos  em  fazer com que as orientações implícitas ao software – código fonte – permaneçam acessíveis para visualização, distribuição e modificação. Eles fazem isso apoiados em novas formas de licença, como o copyleft, cuja lógica tem um contraste bem marcado com o copyright.  Muitos desenvolvedores de software livre também concebem o código fonte como uma forma de liberdade de expressão e desafiam formas de regulação que limitem sua habilidade para escrever e fazer circular o código fonte.

Fale sobre como o hacking tem sido usado como protesto político.

Recentemente a questão do “hacktivismo” tem sido abordada nas manchetes, seguindo a onda de ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS) contra Mastercard e Paypal , coordenado por ativistas usando o nome de Anonymous em apoio ao WikiLeaks. Esses eventos deflagraram um acalorado debate sobre  se podiam ser considerados como “hacking” e se esta tática digital poderia ser usada para legitimar dissenso político ou se ela simplesmente serviria para silenciar a livre expressão.

Muitos disseram que o DDoS não é tecnicamente sofisticado o suficiente para ser considerado uma forma de  “hacking”.  No entanto, mesmo que os ataques DDoS não sejam um tipo de “hacking”, uma importante questão  permanece, se  esta tática digital pode ser usada como uma forma legítima de protesto. Os ataques DDoS têm sido relacionados a barricadas, ação direta e desobediência civil digital e, sob um ponto de vista mais crítico, com intimidação virtual, vandalismo e perseguição capaz de impedir que pessoas, grupos, organizações e companhias “falem” na internet. Estes ataques correm o risco de se tornar caóticos, especialmente porque qualquer um pode chamar a si mesmo de Anonymous.

Como antropóloga de política hacker e geek ( e não uma advogada ou jurista), não posso dar uma resposta legal definitiva sobre se as suas  ações constituem formas de liberdade de expressão.  O que é claro, contudo, é que os hackers e geeks tendem a adotar políticas de liberdade de informação de variados modos e criaram fascinantes técnicas legais, políticas e digitais, as quais transmitem e afirmam seus compromissos com a liberdade de informação. Uma vez que a internet é o espaço de inúmeros campos da realização humana, é claro que também será o lugar para atividades de protesto.

Texto original:

Gabriella Coleman on Hacking as Political Protest

Para saber mais sobre o tema:

Anúncios

Uma resposta para “O Hacking como Protesto Político

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s