Ciclistas atropelados em manifestação

No texto intitulado “A Ideologia Social do Automóvel”, o filósofo frances André Gorz conta como, num contexto em que todas as charretes desenvolviam a mesma velocidade, na virada do século XIX para o XX, a velocidade se tornou símbolo de status social: “… até a virada do século, a elite não viajava a uma velocidade diferente do povo. O automóvel irá mudar tudo isso: pela primeira vez, as diferenças de classe serão estendidas à velocidade e aos meios de transporte” (GORZ, 2005, p.75)

O autor afirma que, inacessível às massas, o automóvel surgiu como um objeto de luxo que tinha como fim proporcionar às elites um privilégio nunca antes visto: circular muito mais rapidamente que todos os demais. Com um mecanismo de funcionamento desconhecido e tão complexo que necessitava de especialistas, o automóvel parecia conferir uma independência ilimitada a seus proprietários, que poderiam se deslocar quando e aonde quisessem com uma velocidade semelhante a do trem. No entanto, essa aparente independência escondia uma dependência radical: obriga o proprietário a consumir e usar uma gama de serviços que só podem ser fornecidas por terceiros – calibração, combustível, troca de peças, lubrificação, revisão, etc.

De olho nesse filão, se desenvolveu toma uma indústria para a qual era urgente pôr o automóvel ao alcance do maior número de pessoas.  Surge a produção em série e a linha de montagem. Quanto mais motoristas e carros, mais lucros. E os trabalhadores se sentiriam finalmente compartilhando com a elite privilégio da velocidade.

A massificação dos carros fez com que deixassem de ser um objeto de luxo, embora o mito ainda permaneça. Gerou congestionamentos, fumaça, fedor, barulho, poluição. Matou a cidade.  É assim que Gorz diz: “.. uma vez que os carros assassinaram a cidade, necessitamos de carros mais rápidos para fugir em auto-estradas para zonas cada vez mais distantes”.


Acreditando que se faz necessário revitalizar as cidades, surgiram pelo mundo inteiro vários movimento que pregam a necessidade de se repensar a opção pelo carro, um veículo poluidor e que destrói o espaço urbano. Ë proposta a eleição de novas formas preponderantes de mobilidade, como a bicicleta e o transporte coletivo, o que requer investimento público e adaptação das cidades para tanto.

A bicicleta, para curtas distâncias, possui inúmeras vantagens sobre outros meios, pois não agride o meio-ambiente e exercita o corpo do ciclista, contribuindo destas duas formas para um estilo de vida mais saudável.  Como vantagem adicional, tem um baixo custo financeiro. Passeios noturnos de ciclistas,  dia mundial sem carros,  ciclistas pelados,  massas críticas, são todos movimentos que tentam chamar atenção sobre as vantagens deste meio de transporte.

Massa Crítica, também chamada de “Bicicletada”, segundo a Wikipédia portuguesa, é um passeio auto-organizado e independente. Se iniciou em 1998, nos Estados Unidos. Suas intenções são pacíficas e nunca houve relatos de confrontos entre ciclistas e motoristas. Até este fim de semana, no Brasil.

Na última sexta-feira, um movimento de ciclistas em Porto Alegre, uma Massa Crítica, chegou ao fim após o ataque de um motorista que teve como saldo pessoas feridas e bicicletas despedaçadas. O homem, já identificado pela polícia como Ricardo José Neif, de 47 anos, jogou o próprio carro contra os ciclistas e se encontra foragido.

Site da Massa Crítica de Porto Alegre:

https://massacriticapoa.wordpress.com/

Referência bibliográfica:

GORZ, André. A Ideologia Social do Automóvel. In: LUDD, Ned (org). Apocalipse motorizado: a tirania do automóvel em um planeta poluído. São Paulo: Conrad, 2005.

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