Produção em Cadeia

Lindevania Martins

“ Produção em Cadeia”,  documentário realizado em 2010 por João Mello, Victor Sousa e Maurício Kenji, como TCC para o curso de Jornalismo da PUC-São Paulo, trata do universo musical: compartilhamento de musica na rede, indústria fonográfica, espaço para novos artistas, acusações de pirataria, direitos autorais, etc.

Quando perguntados por que motivo escolheram o tema para o documentário, Victor Marinho vai direto ao ponto, em Altnewspaper: “ Acho que o motivo principal para escolher esse tema é o fato de fazer parte dessa geração que desde cedo viveu a internet. Eu sempre baixei música, desde a época do Napster e do Áudio Galaxy, e com certeza isso moldou minha formação cultural” .

Maurício Kenji continua, afirmando que esse é um assunto que envolve diretamente o ambiente cultural, uma vez que  valores e  princípios construídos pela industria fonográfica, ao invés de promover a cultura, a limitam, não dando margem àqueles que não se submetem ao sistema construído para alcançar o sucesso, fazendo com que a mercantilização da música esconda o fato de que esta também é cultura.

João Mello diz que baixar músicas sempre foi uma coisa natural: “…as pessoas sempre se esforçaram pra mostrar uma música legal pra um amigo, essa troca sempre rolou. O que a internet fez foi facilitar e potencializar essa troca, criando um acervo musical infinito e livre para todos. A idéia do filme foi reunir depoimentos de pessoas que viveram tanto a fase analógica quanto as que vivem a fase digital do acesso à música”.

Aliás, o vídeo mostra como o uso de fitas cassetes para compartilhar música parecia algo perfeitamente natural, sem que ninguém acusasse seus usuários de criminosos ou imorais prontos para serem lançados nas grades da prisão ou no fogo do inferno. O sociólogo Sérgio Amadeu nota isso no documentário: “E sempre as pessoas compartilharam fitas cassetes. Sempre gravaram discos, fizeram suas próprias trilhas, escolhiam uma música de um, duas músicas de outro, montavam, compartilhavam e tal.  Só que isso não era relevante, não era entendido como um grande problema” .

No vídeo, entre outros, aparecem entrevistas com donos de lojas de discos, cientistas sociais, artistas mais antigos e das novas gerações. Entre estes, a cantora e compositora Lulina, recifense radicada em são Paulo, que declara que sem a internet não teria nem mesmo lançado um disco. Ouça as músicas de Lulina aqui.

Paulo Marcondes, do blog Hominis Canidae ( para acessá-lo, clique aqui), que oferece músicas para download, afirma que há dias em que realiza o upload de vinte CDs e passa o dia inteiro fazendo isso. Diz que faz isso porque acredita que qualquer tipo de cultura deve ser compartilhada, pelo que não se sente nenhum pouco criminoso por compartilhar links em seu blog. Sérgio Amadeu concorda: “O que o digital fez foi devolver essa criação para o universo comum da cultura. E aí por isso que quando você separa a música do vinil, a imagem da película, o texto do papel, você põe tudo no digital, você consegue fazer nitidamente o que a cultura promove, que é a fusão de tudo. A cultura sempre foi recombinante. É um conjunto de práticas recombinantes”.

Quando Márcia Tosta Dias, autora do livro “Os Donos da Voz: indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura”,  aparece no documentário apontando que desde o ano de 2002 houve uma queda abrupta das vendas da indústria fonográfica, Sérgio Amadeu responde que tal queda é  gerada pela diversidade, pela quantidade de opções disponíveis para os apreciadores de música.

O cantor e compositor Valdir Fonseca lembra que os direitos autorais no mundo inteiro estão relacionados ao sucesso. De fato, o documentário mostra propagandas de entidades de classe, apresentadas por Ivan Lins, Alcione, Zezé Mota, Sergio Reis e Dudu Nobre defendendo o direito autoral. Este último pede que o consumidor pague o direito autoral por suas músicas porque seria esta a herança que deixaria para seus filhos. Falando em seguida, o rapper G.O.G declara que sua pretensão é não deixar esse tipo de herança para seus filhos, mas o ensinamento do certo, do respeito as pessoas e a diversidade, afirmando que dá  um cunho de domínio publico ao seu trabalho: “ Ao meu entender, o meu processo de criação começa na observação.  E quando eu observo, eu busco algo que não é meu para a letra. Então, na realidade, eu já estou usurpando, entre aspas, de alguém, alguma coisa que de repente é dela. E eu não conto” . E termina brilhantemente: “Temos que alimentar a cadeia produtiva. E não colocar a produção na cadeia”.

Por fim, encerramos o post com uma das falas do Sergio Amadeu no documentário, tratando do direito autoral: “É uma maquina arrecadadora do mundo analógico. E no mundo analógico ela já era ruim. Porque era ruim? Porque  ela trabalha com critérios que não são objetivos nem claros. E aí é óbvio, você pega alguns grandes artistas que se beneficiam com o ECAD e eles vão defender. Mas será que a musica e a cultura brasileira se resumem a esses artistas?”

A propósito, o documentário foi liberado pelos autores para download: megaupload.com/​?d=12NP1UWA

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