Fale com El…iza

Lindevania Martins

Lydia e Alice em Fale com Ela (2002)

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No filme Fale com Ela, do espanhol Pedro Almodovar, são os homens que falam.

As cenas se passam em ” El Bosque”, uma clínica particular onde Benigno, apaixonado por Alicia, trabalha como enfermeiro. É ali também que conhece Marco, cuja namorada, Lydia, acaba de ser internada. Marco e Benigno falam sem receios e em liberdade porque as mulheres a quem se dirigem não podem lhes responder: Lydia e Alicia estão em coma.  A primeira por conta de um acidente de trânsito. A segunda por conta de uma tourada em que era ela quem jogava com o touro.

As tentativas de diálogos só podem se dar através de monólogos.  E é Benigno que sugere a Marco conversar com Lydia: “Fale com ela”.  Ele acredita que é dessa forma, demonstrando atenção à mulher que amam, que podem cuidar delas. Marco ainda argumenta que o cérebro de Lydia está morto e que, portanto, não faz sentido falar com ela.  Mas Benigno afirma que o cérebro de uma mulher é um mistério mesmo, que o coma só torna tudo ainda mais misterioso.

Se a possibilidade desta comunicação vir a ajudar às mulheres em coma é questionável, opera uma óbvia mudança em Marco, revelando a quem de fato ela ajuda: é para aqueles que falam que tal comunicação possui utilidade.

Audrey Hepburn como Eliza Dootlittle (1964)

Em My Fair Lady, filme da década de 60,  Audrey Hepburn interpreta Eliza Doolittle, uma jovem pobre que se expressa de forma grosseira. De vendedora de flores nas ruas de Londres, se  vê transformada em moça fina e elegante da alta roda londrina no breve espaço de seis meses,  graças a uma aposta entre homens: o professor de fonética Higgins e Colonel Pickering.

O primeiro dará aulas à Eliza que mudarão por completo sua aparência e modo de falar. Embora Eliza também queira se livrar do sotaque suburbano, tem um outro desejo: que Higgins a veja como uma pessoa, não como apenas um experimento.  Previsivelmente, ele vai se apaixonar por ela.

O  filme é inspirado em uma peça que adaptou Pigmalion: A Romance in Five Acts, livro de George Bernard Shaw,  para o teatro. Por sua vez, o escritor irlandês se inspirou no mito de Pigmalião: o escultor que, ao esculpir a imagem da mulher ideal,  se apaixona por ela. Apiedada, a deusa Afrodite a transforma em uma mulher de verdade. Como a história se passa na Grécia, ela não vai se chamar Amélia, mas Galatéia.

Carl Rogers (1902-1987)

Carl Rogers (1902-1987) foi um psicólogo norte-americano, criador do método terapêutico conhecido como “abordagem centrada na pessoa”. Parte do princípio de que o paciente não deve ser subestimado, pois possui em si meios para a autocompreensão, para a mudança do conceito de si mesmo, atitudes e comportamento autodirigido. O papel do terapeuta seria ativar um novo conjunto de atitudes  ao propiciar um ambiente favorável para que o próprio indivíduo pudesse explorar essas potencialidades.

O método de Rogers se baseia na livre expressão do paciente e em sua autonomia: é ele que sabe o que machuca, o que é importante, que direção tomar. Por isso, o terapeuta não deve dirigir a sessão. Essencial na psicoterapia não seria a aplicação de métodos e teorias, mas a qualidade do relacionamento entre os sujeitos: paciente e terapeuta numa relação de aceitação, empatia e genuinidade.

As intervenções do terapeuta na fala do paciente, em decorrência do princípio da não-diretividade e da confiança de que o mesmo possa resolver seus problemas de modo autônomo,  serão reflexos dos sentimentos expostos pelo paciente ou reformulações das próprias falas do mesmo.

Mas o que Fale com Ela, My Fair Lady e Carls Rogers têm em comum?

Joseph Weizenbaum (1923-2008), “pai” de Eliza

Eliza.

Ocorre que o alemão Joseph Weizenbaum, em 1966, criou um programa de computador cuja missão era simular um terapeuta, com base nos métodos de Carl Rogers, uma vez que o programa interage com a pessoa através de perguntas retóricas ou incentivos para que continue a falar… Ops! Escrever. O programa foi batizado de Eliza, em homenagem à Eliza Doolittle. Como em Fale com Ela, o cliente pode falar livremente com Eliza.  Sem efetuar  juízos de valores, suas respostas são automáticas, de acordo com sua base de dados.

 A forma como Eliza funciona foi explicada por Weizenbaum no livro Computer Power and Human Reason: From Judgment to Calculation (1976). O programa atua se utilizando das declarações dos usuários para construir perguntas que refletem o conteúdo dessas declarações. Assim, os usuários que determinam o rumo da terapia. Claro, as respostas de Eliza não serão coerentes, caso as declarações dos usuários fujam ao esperado. Contudo, o programa obteve grande sucesso ao simular uma interação entre humanos.

Na história de Shaw, filmada em My Fair Lady, Eliza é ensinada a falar com um sotaque elegante e, assim, dissimulando sua origem humilde, é tomada por dama da alta sociedade. O programa Eliza também é ensinado a falar. Como ocorre ao  personagem de Hepuburn, muitos usuários confundiram Eliza com um terapeuta de carne e osso.

Professor de ciências no prestigioso Instituo de Tecnologia de Massachusetts – MIT, Joseph Weizenbaum descreveu Eliza como uma paródia do método terapêutico de Carl Rogers. Explicou que a terapia é uma das poucas interações humanas em que uma das partes pode responder à outra através de perguntas que demonstram pouco conhecimento sobre a questão em si.

Se você ficou curioso, quer falar com Eliza  e seu inglês não é muito ruinzinho, clique aqui.


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