Machismo Pós-Apocalíptico

Shane e Rick, os homens fortes da série.

Produzida nos Estados Unidos  e adaptada da HQ de mesmo nome, a série de tv The Walking Dead retrata as mulheres como retardadas.

Enquanto os homens saem para procurar alimentos ou para matar algumas feras, as mulheres passam o tempo lavando, limpando e cozinhando. Estaria tudo bem, se a série se passasse na pré-história. Ou na Idade Média. Mas acontece que as feras se tratam de zumbis e aqueles homens e mulheres são sobreviventes num mundo pós-apocalíptico que simula o nosso. Ou deveria. Pois inimaginável pensar, assistindo a série, que as mulheres pudessem deixar o trabalho doméstico e  se tornarem presidentes da república, chefes de família, líderes, policiais, etc.

Os zumbis – walkers, destroem toda a ordem social: não há  mais polícia, advogados, políticos de carreira, professores, escolas, hospitais, etc. Apesar da série se passar nesse mundo de total destruição, especialmente na segunda temporada, as mulheres são mostradas chorando, calmamente se ocupando da comida ou da roupa ou em comportamentos claramente alienados, sem qualquer  instinto básico de sobrevivência.

A única exceção poderia ser Andréa (Laurie Holden). Afinal, entre as mulheres, é a única que aprendeu a atirar e não se separa mais de sua arma. No entanto, como  mulheres não podem ser hábeis atiradoras, no quinto episódio da segunda temporada, Andréa, crente que estava abafando ao matar um zumbi, acerta  mesmo é o companheiro de grupo Daryl (Norman Reedus), este sim, um guerreiro que havia acabado de esfolar dois zumbis e feito um colar com as orelhas dos mesmos, orgulhosamente exibido como troféu de guerra em seu pescoço.

Maggie (Lauren Cohan) até que parecia forte, mas na primeira vez em que é atacada por um zumbi, embora aparentasse ser uma fazendeira  durona e  uma exímia amazona, não hesita em gritar pelo seu príncipe: “Me salva, Glenn!”.

 Lori (Sarah Wayne Callies), na primeira vez em que tenta dar uma de forte, pega uma arma e entra num carro para tentar salvar o marido, se envolve um acidente estúpido. Como que para provar que mulher não nasceu mesmo para essas coisas, o carro  capota após bater num zumbi e Lori, ao invés de salvar, acaba sendo resgatada pelo outro homem forte da série, Shane (Jon Benrthal).

Fraca e carente, Carol (Melissa McBride) até agora se limitou a chorar ou a ficar em um canto encolhida. Fraca e carente – sim, mais uma -, Beth (Emily Kinney) não suporta a dor de não poder ter a vidinha despreocupada que levava antes e quer se matar. Mas como mulheres são sempre ineptas, ela até que tenta, mas nem nisso é bem sucedida: corta os pulsos, que acabam sendo costurados pelo paizinho. Sim, Carol e Beth são muito carentes. De autonomia.

No episódio, “18 Miles Out”, Lori (Sarah Wayne Callies) e Andréa (Laurie Holden) tẽm uma acalorada discussão na cozinha. Lori acusa Andréa de não ajudar nos serviços domésticos. A outra diz que também faz sua parte, pois está na equipe responsável pela segurança do grupo. Lori afirma que esse trabalho deve ser deixado para os homens,  que podem tomar conta de todas elas, enumerando as tarefas que Andréa tem deixado de fazer por se meter onde não deve.  Após lhe dizer poucas e  boas, Andréa afirma que a outra se comporta como uma dona de casa dos anos 50.

Talvez a cena descrita indique uma mudança no roteiro da serie, mas até agora as  mulheres são todas apresentadas como vítimas sofridas, ineptas para cuidarem de si mesmas sem ajuda de um homem. Se as questões de gênero não se aplicam quanto aos zumbis – os mortos andantes estão em posição de igualdade entre si, sejam homens ou mulheres, o mundo pós-apocalíptico onde os vivos circulam apresentado pelos executores de Walking Dead, mais do que nunca, é um mundo cujo comando pertence aos  homens, estando as mulheres numa posição clara de inferioridade: a elas resta apenas seguir ordens, pois é o que fazem melhor. Quando tomam alguma iniciativa, entram numa fria.

Michonne

Nas historias em quadrinhos, existe um importante personagem, ativo e hábil com armas que,  por incrível que pareça, não possui um pênis. Trata-se de Michonne, ex-advogada praticante de esgrima. Para afastar os walkers, Michonne usa como método caminhar sempre com alguns deles muito próximos de si. A intenção é que, através do cheiro daqueles walkers, seja também tomada como morta-viva e espante a ameaça dos zumbis.

Talvez Michonne jamais apareça na série, afinal, ela não lava cuecas. A intenção de The Walking Dead não é mostrar  zumbis, mas como as pessoas reagem e tentam manter seus valores quando o  mundo está ruindo a seus pés.  E é aí que se revela conservadora.

Os valores que o grupo de sobreviventes tenta manter, liderados por Rick Grimmes (Andrew Lincoln), estão claramente apoiados nos tripé família, tradição e propriedade. È assim que  Hershel (Scott Wilson) reafirma incessantemente que aquela é a “sua” fazenda: “My farm, my say”, sem  que qualquer personagem lhe ofereça oposição, lembrando que naquele mundo em ruínas em que tantos nada possuem, não há nada mais que garanta uma idéia de propriedade privada.  É com a mesma ênfase que Rick o tempo todo também  afirma que Lori é “sua”, sua mulher. Com um óbvio endosso dos estereótipos tradicionais de gênero, são negados todos os avanços dos anos de lutas das mulheres – ou teriam os roteiristas perdido os último cem anos de história?

Atualizações:

1) Michonne será vivida na série pela atriz Danai Gurira:

2) A Playboy americana irá publicar a origem da personagem na sua edição de abril:

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2 Respostas para “Machismo Pós-Apocalíptico

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