Ciência, ao invés de sexo…

Barry Stevens: "Não houve ato sexual na minha concepção, exceto masturbação" .

No livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, ninguém mais conta a história da cegonha para ensinar às crianças como os bebês surgem. A cegonha, que sempre teve como função esconder o ato sexual, está aposentada. Afinal, para que ela serviria num mundo em que o sexo deixou de estar na origem de cada nascimento? Mais fácil contar a verdade. Na obra de Huxley, as crianças vêem ao mundo de forma limpa e asséptica: são fabricadas sem intercurso sexual, em frascos de vidro, e  cultivadas/criadas em centros de reprodução. É  um mundo onde também não existem mais “mães” ou “pais”.

A obra ficcional de Huxley foi escrita no ano de 1931. Setenta depois, em  2001, Barry Stevens, cineasta radicado em Toronto, lançou o documentário de cunho autobiográfico chamado Offspring (“Descendência”, em português). Gerado através de inseminação artificial, o documentário mostra a procura de Stevens pelo doador anônimo de sêmen que lhe originou: seu pai biológico. Nessa busca, não encontrou o doador, mas descobriu que possuía uma família espantosamente gigantesca: entre 500 a 1000 irmãos!

As tecnologias reprodutivas possuem grandes opositores. A Igreja Católica, o que não surpreende, está entre os maiores. Além do argumento clássico de que o homem estaria interferindo  na obra de deus ou na natureza, um dos principais motivos é que a obtenção de sêmen se dá através da masturbação, o que seria pecado. Outro argumento, entre tantos, é de que a técnica induz a percepção de procriação e ato sexual como coisas separadas, o que enfraqueceria as relações maritais. Afinal, se os indíviduos ficam desobrigados até mesmo de sexo para se reproduzirem, imagina do casamento…

Os avanços biotecnológicos no tocante à reprodução, incluindo a pílula contraceptiva, pílula do dia seguinte, fertilização in vitro e outros, produziram grandes mudanças nas vidas das mulheres.  Ficamos aliviadas do peso de uma concepção que finalmente pôde ser adiada, eliminada, ou produzida num determinado período. Uma maior assimetria entre homens e mulheres tambŕm foi permitida. Não só no tocante a sexualidade, mas também às relações econômicas e trabalhistas: a mulher poderia optar por se dedicar primeiro ao trabalho e se estabilizar financeiramente, podendo deixar a maternidade para depois.  No entanto, há aspectos que merecem ser observados mais de perto.

Uma das críticas feitas a tais tecnologias é que em decorrência delas não haveria investimento para a pesquisa e o tratamento da causa da infertilidade. Assim, se por um lado se elimina o status de “sem filhos” de um casal, de um homem ou mulher, por ouro lado não se age para superar aquilo que lhe deu causa. Tais tecnologias medicalizariam de forma excessiva o corpo da mulher, submetido muitas vezes a tratamento sem maiores considerações quanto aos riscos à sua saúde. E ainda existiriam as questões culturais que nunca são discutidas: a decisão de ser mãe, nunca é tomada em completa liberdade, pois a maternidade é identificada culturalmente como uma marca de  feminilidade.

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