Um Jogo Desigual

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Publicada pela primeira vez em 1996 e transformada em série televisiva em 2011, os livros do americano George R. R. Martin se ambientam numa Idade Média fictícia marcada pela tradição, pois seu autor, embora escrevendo uma fantasia,  se submete aos padrões da cultura que ele quis retratar: uma sexista sociedade de classes.

O principal conflito ao qual o Jogo dos Tronos se refere pode se resumido à uma pergunta: Quem deve governar os setes reinos de Westeros? Os sete reinos são disputados por homens e mulheres, mas estas, além dos obstáculos de sempre, característicos da guerra, devem lutar, ainda, contra o fato de serem mulheres num mundo dominado por homens.

Game of Thrones é um jogo no qual dominam os privilégios de nascimento, pois o poder se transmite pela hereditariedade. Os de nascimento nobre se sobrepõem aos de nascimento comum. Os filhos legítimos se sobrepõem aos filhos bastardos.  Os primogênitos aos irmãos que os sucedem.  Os homens às mulheres.

Cersei Lannister, Arya Stark, Catelyn Stark, Daenarys Targaryen, Asha Greyjoy e Brienne deTarth,  embora todas de famílias nobres, são pessoas de segunda categoria. Nascidas mulheres, se destinam ao casamento, à família, ao exercício da cortesia. Seja como moedas de troca em casamentos arranjados ou como troféus de guerra, em tal sociedade, ser mulher é estar submetida à autoridade de outro: pelo amor ou pela violência. As competências  que não se inscrevem são negadas, as potencialidades sufocadas.

Em certo momento, um personagem masculino diz, reprovando a conduta de uma mulher: “A luta do homem ocorre no campo de batalha. A da mulher, na cama, parindo seus filhos”.

Como ser forte e como lutar num universo cujas regras se opõem a essas possibilidades?

Game of Thrones é um jogo por poder no qual as mulheres, antes de tudo, lutam contra as condições que lhe impedem, por seu sexo, o acesso ao próprio jogo.

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1. Cersei Lannister

A ficção de Martin é construída em torno de personagens complexos. Bela, temida e poderosa, Cersei  se submete ao pai, se submete ao marido. É a poderosa rainha de Westeros, mas também uma mãe amorosa e insegura. Irmã gêmea de Jaime Lannister, há muito este é seu amante, mas também grande rival: a Jaime, pelo fato de ser homem, sempre foi dado tudo que lhe foi negado, pelo simples fato de ser mulher. Não cansa de lembrar que é a primogênita dos Lannister, pois embora gêmeos, seu nascimento antecedeu ao seu irmão, portanto, deveria ter direitos decorrentes dessa primogenitude.

Vilã demasiado humana, Cersei tem consciência de que um dos grandes empecilhos para concretizar sua grande ambição, governar Westeros, é seu sexo.  Dada em casamento a Robert Baratheon pelo seu pai, “como um animal” – ela nota, a fim de selar uma aliança entre os ricos Lannister e o novo rei de Westeros, ser mulher é uma limitação que não cansa de lhe atordoar. Nascida numa família poderosa, sempre lhe foi apontada a falta de um pênis que lhe permitisse exercer o poder.  E sendo o poder sua grande obsessã,o sua única chance de exercê-lo é através dos filhos, nunca em nome próprio.

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2. Arya Stark

Desde cedo, Arya se identifica com o universo masculino, rejeitando a educação que, como menina, sua família tenta lhe impor. Quer fazer tudo que um menino possa querer. Nada de bordados ou tortas. Nada de agulhas, só espadas. Em certo momento, seu pai lhe diz: “- Damas não devem brincar com espadas”. Ao que Arya rebate: “-Não estou brincando. E não quero ser uma dama!”.

É uma moral complexa a que George R. R. Martin nos apresenta. Arya é mais mortal nos livros que na série de televisão. Seu comportamento não apenas subverte o mundo feminino,  mas também o mundo infantil. Afinal, é esperada doçura e não agressividade,  tanto de mulhres quanto de crianças.

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3. Catelyn Stark

Catelyn Stark não teve dificuldades para se adaptar ao mundo das mulheres descrito na Idade Média de George R. R. Martin. Filha ideal, tornou-se noiva do homem que seu pai escolheu, a fim de fortalecer sua família de origem. Quando este morreu, seguindo as tradições, não teve qualquer problema em casar-se com seu irmão, Eddard Stark. Nenhum problema em parir os filhos que continuariam seus legados e histórias.

Catelyn tem muito em comum com Cersei. Ambas dadas em casamento como moeda de troca, seus papéis de mãe e esposa escondem outra natureza, incompatível com  a doçura frequentemente associada às mulheres.  Catelyn Stark se revelou uma hábil estrategista, forte e determinada, que não hesita em matar para tentar preservar sua prole.

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4. Daenarys Targaryen

Filha de Aerys Targaryen, antigo rei de Westeros assassinado na guerra que levou Robert Baratheon ao poder, Daenarys é uma nobre sem riqueza e uma exilada que nunca conheceu seu lugar de origem.

Danny é, provavelmente, o personagem que mais se transforma durante a história. De garota tímida e insegura, entregue em casamento pelo irmão abusivo ao poderoso Khal Drogo em troca da promessa de um exército, se torna dona de seu próprio corpo e destino.

Se seu irmão se considerava o legítimo herdeiro de Westeros, pois o único filho vivo do sexo masculino, tendo conquistado várias cidades, mas principalmente sua autonomia, Danny quer ser a rainha de Westeros, exercer o poder em nome próprio como herdeira da casa Targaryen.

A figura materna tem grande destaque em Game of Thrones.  É assim que ela se torna conhecida como mãe dos dragões, criaturas míticas a quem trata como filhos e que representam a mais concreta promessa de retomada da glória perdida.

Num mundo em que a violência impera e no qual a morte se encontra á espreita, chama a atenção o diálogo que Danny trava com outra mulher:  “Todo homem tem que morrer”, observa a mulher.  E Danny termina: “Todo homem tem que morrer. Mas nós não somos homens”.

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5. Asha Greyjoy

Asha é uma das maiores guerreiras de Games of Thrones. Se tornou o braço direito de seu pai. Não por escolha do mesmo, mas porque todos os seus filhos homens foram assassinados e o único sobrevivente, Theon, foi criado por uma uma casa inimiga, aculturado e distanciado dos costumes de sua família de origem.

Vitoriosa em batalhas, hábil no mar, possui seu próprio navio. Não deseja ser a rainha de Westeros, mas rainha do seu povo, que constitui um dos sete reinos de Westeros, os  Ironborn.

Os Ironborn são um povo valente e forte, orgulhoso da própria virilidade, que nunca foi comandado por uma mulher e que não se renderá facilmente a uma.

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6. Brienne of Tarth

Na literatura medieval, os cavalheiros desempenham um papel especial, relacionados aos odeais românticos. Brienne bem que tenta, mas a realidade se insurge contra qualquer romantismo. Como cavalheiro, é forte e destemida, ágil e cheia de destreza. Mas possui um defeito imperdoável: a de não possuir um pênis.

Ás vezes, Brienne parece uma Arya crescida.  É submetida a vários tipos de humilhação tanto por ser uma mulher que se veste e luta como um homem, quanto porque não se enquadra no estereótipo feminino.

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