Destilando Veneno

Catálogo de Indisciplinas traz para seus leitores pérolas dos nossos queridos malditos – diretamente ou falando através de personagens, destilando veneno contra mestres do pensamento ocidental e outros escritores de grande prestígio. Vaidades, ciúmes? Não é incomum termos opiniões desfavoráveis sobre nossos semelhantes, mas nós, pobres mortais, raramente conseguimos esboçá-las com tanta destreza. Considerando que todos os envolvidos já estão mortos e enterrados – e que as opiniões insultuosas foram amplamente divulgadas, ninguém vai nos mandar pro inferno sob a acusação de  estarmos querendo jogar mais lenha na fogueira.

1) Charles Bukowski (1920-1994)  sobre William Shakespeare (1564-1616):

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Charles-Bukowski

 “É ilegível e valorizado mais do que deveria. Mas as pessoas não querem ouvir isso. Ninguém pode atacar templos. Shakespeare foi fixado à mente das pessoas ao longo dos séculos. Você pode dizer: Fulano de Tal é um péssimo ator”, mas não pode dizer que Shakespeare é uma m… Quando alguma coisa dura muito tempo, os esnobes começam a se agarrar a ela como pás de um ventilador. Quando os esnobes sentem que algo é seguro, se apegam. E se você lhes disser a verdade, eles viram bichos. Não suportam a negação. É como atacar o seu próprio processo de pensamento. Esses caras me enchem o saco.” (BUKOWSKI, Charles. Tough Guys Write Poetry.  Entrevista a Sean Penn. Interview Magazine, 1987).

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2) Thomas Bernhard (1931-1989) sobre Heidegger (1889-1976):

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“Não consigo imaginar Heidegger senão sentado num banco do lado de fora da sua casa na Black Forest, junto com a esposa que toda a vida o dominou e que confeccionou todas as suas meias e chapéus, assou seu pão,  teceu sua roupa de cama e até mesmo as sandálias usadas por ele. Hedeigger era brega… um pensador fraco dos montanhas alpinas, que, acredito, muito se adequa à salada filosófica alemã. Por décadas, compulsivamente consumiram esse homem,  mais que a qualquer outro, e preencheram seus estômagos com as coisas oriundas dele. Heidegger tinha um rosto comum, nada espiritual, disse Reger, ele era um homem sem espírito, desprovido de fantasia, desprovido de sensibilidade, um genuíno ruminante da filosofia alemã, sempre uma vaca com ar sério que pastava na filosofia alemã e por décadas pousou suas espertas patinhas de vaca sobre ela”. (BERNHARD, Thomas. Old Masters. Comedy.  Chicago: University of Chicago Press, 1992).

 

5) Hilda Hilst (1930-2004) sobre João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

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“Ele deslizava a lâmina da faca na água da bacia. Lembrou-se de um poeta que adora facas. Que cara chato, pô. Inventaram o cara. Nada de emoções, ele vive repetindo, sou um intelectual, só rigor, ele vive repetindo. Deve esporrar dentro de uma tábua de logaritmo. Ou dentro de um dodecaedro. Ou no quadrado da hipotenusa. Na elipse. Na tangente. Deve dormir num colchão de facas. Deve ter o pau quadrado. Êta cabra-macho rigoroso! Chato chato”. (HILST, Hilda. Contos d’Escárnio: textos grotescos. São Paulo: Globo, 2002).

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