Sophie Calle e a vulnerabilidade de existir

 

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Existir é ser vulnerável. É estar exposto à morte, à doença, à violência, à solidão e à rejeição. Muitos de nós tem optado por ignorar e esconder essa vulnerabilidade, principalmente aos olhos alheios.

Outros, porém, tem escolhido mostrar a todos justamente essas fraturas. Na literatura, cada vez tem se falado com mais frequência em autoficção, gênero que mistura autobiografia e com a escrita fictícia. Alguns leitores costumam perguntar a certos autores: “Essa história é sobre você?”. Paul Auster e Enrique Vila-Matas poderiam responder: “Também!”, pois estão entre os muitos que tem explorado esse estilo de narrativa.

Sophie Calle (Paris, 1953) é outra artista que não teria o menor embaraço em responder afirmativamente. Ela é uma dessas e desses artistas que transformaram em arte suas próprias experiências pessoais. Suas obras percorrem três eixos principais: vulnerabilidade, identidade e intimidade. A artista já explorou em seus trabalhos seu divórcio, a morte de sua mãe e de seu gato, uma cicatriz na perna esquerda, suas fantasias sexuais, suas imperfeições corrigidas pelos avós, etc. Mas também já explorou a identidade e a intimidade de terceiros, amigos, parentes ou estranhos: já perseguiu um homem em Venice, fotografando sua rotina (veja aqui), e já pediu que sua mãe contratasse um detetive para segui-la que, por sua vez, também foi seguido por um amigo de Sophie (veja aqui), propondo em ambos os casos um jogo de reconstrução de olhares e identidades. A esse jogo especial com o detetive, Paul Auster, cuja obra Leviatã possui uma personagem inspirada em Calle, chamou de “dramaturgia do olho que olha enquanto é olhado”.

Em um dos seu trabalhos mais famosos, Sophie Calle retoma uma carta que lhe foi enviada pelo então namorado, o escritor Gregoire Boullier. Na carta, remetida através de e-mail em abril de 2004, Gregoire Boullier relembra duas regras impostas por ela no início do relacionamento de ambos: uma, que ele deveria deixar de ver três outras mulheres, pois ela não queria ser a quarta namorada; duas, que no dia que deixassem de ser amantes, eles não deveriam mais se ver. Contrariando a primeira regra, Gregoire Boullier conta que voltou a ver as três outras mulheres. Depois diz que sabe bem o que isso significa e que é com pesar que cumpre a vontade dela de que não se vejam mais. Em momento algum diz diretamente que a relação acabou e termina a carta, que você pode ler aqui, com um conselho: “Queria que as coisas tivessem sido diferentes. Cuide de você”.

Photo, Liz Hafalia, The Chronicle, Sophie calle

Sophie transformou sua dor e a rejeição em exposição de arte.

O teor da carta enviada pelo ex-namorado havia deixado Sophie surpresa e confusa: naquele mesmo dia o namorado publlicava um livro que era dedicado a ela e que falava sobre a relação de ambos; não compreendia se aquilo era um rompimento definitivo; não sabia como responder o e-mail e o que dizer caso encontrasse Boullier. Enviou a carta para um amiga em busca de ajuda. Quando a amiga começou a descrever a carta com suas próprias palavras, Sophie teve a ideia de mandá-la a outras mulheres. Já pensando na exposição, enviou a carta para mais de cem mulheres, de profissões diferentres, como: psicanalista, revisora de texto, vidente, juíza, jogadora de xadrez, historiadora, professora de educação infantil, diplomata, assistente social penintenciária, contafora, compositora, etc., pedindo a cada uma que interpretasse a mensagem de acordo com sua profissão. A própria mãe de Sophie também interpretou a carta, produzindo estas considerações:

Linda, famosa e inteligente como você é, logo você encontrará alguém melhor. Falando em “levar o fora”, lembro de quando eu era mais nova e tive que lidar com “eu não mereço você”. Depois, eu tive mágoas piores, mas eu me arrependo dos meus arrependimentos. Apesar da humilhação e da raiva, havia sempre uma necessidade de tirar o melhor dessa situação, o que eu certamente fiz. Você deixa, você é deixado, esse é o nome do jogo, e para você esse rompimento pode ser fonte de inspiração para uma nova obra de arte – estou errada? Amo você, sua mãe”.

Você pode ler todas as interpretações aqui.

Vista pela primeira vez em Veneza, em 2007, a exposição “Cuide de Você” se tornou mundialmente famosa. Sophie Calle e o ex-namorado, Gregoire Boullier, se encontraram no Brasil em julho de 2009, na Flip de Paraty, numa mesa na qual discutiram questões relacionadas à essa mistura entre fazer artístico e experiências pessoais. Como não deveria deixar de si, voltaram á discutir a carta.

Findamos o post com as próprias palavras de Sophie Calle sobre seu trabalho: “Meu trabalho não tem nada a ver com intimidade. Quando uso minha vida, não é minha vida, é um trabalho pendurado na parede. Algumas coisas que me acontecem eu uso como um motor para esse ou aquele projeto, mas isso não significa para mim encenar intimidade, mas a poesia que vem de coisas banais, do que acontece com todos. Eu tento lutar com uma parede e fazer exposições. Não estou interessada em quanta intimidade, ou ausência, está no meu trabalho. Esse é o trabalho do crítico. Essa é a sua língua, não a minha”. (Veja aqui)

E você? Como interpretaria a carta de Gregoire Boullier para Sophie Callie? Conte pra gente! Leia a íntegra da carta aqui .

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Seguindo a Correnteza

 

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O longa “Corpo Elétrico” (Brasil, 2017, direção de Marcelo Caetano) tem sido muito aplaudido pela crítica, gerando uma enxurrada de apreciações positivas. Porque toda unanimidade é burra, Catálogo de Indisciplinas traça um retrato indisciplinado de “Corpo Elétrico”, talvez a primeira resenha não tão elogiosa que o leitor encontrará.

Primeiro, façamos um recorte importante. Embora enquadrado como filme de temática LGBT, “Corpo Elétrico” é apenas GT, pois não mostra lésbicas, nem bissexuais. Importante fazer essa menção porque “LGBT” carrega uma aparente homogeneidade entre os termos que invisibiliza categorias internas de opressão. Corpo elétrico, portanto, se situa no mundo masculino, e apesar da gama extensa de personagens, mulheres estão apenas no pano de fundo.

“Corpo Elétrico”, que em alguns momentos lembra um documentário, acompanha o cotidiano de Elias (Kelner Macedo), imigrante nordestino que trabalha numa fábrica de roupas como estilista. Elias é um cara gente boa e obediente que aceita tudo que lhe chega: seja sexo ou trabalho. Sempre disponível para tudo e todos. Aliás, o núcleo dos amigos e amantes de Elias são todos muito parecidos entre si, seguindo o perfil de Elias: gente boa a fim de diversão. Os personagens não tem maiores aspirações. O protagonista não tem maiores aspirações. Vive o que lhe acontece.

Os personagens gays estão sempre exercitando o poliamor, sem crises de ciúmes. Em entrevistas sobre o filme, o direito Marcelo Caetano explicou que fez a opção de não falar no filme sobre amor romãntico e seu conflitos, enfatizando formas de amar mais generosas e mais livres. Contudo, no filme, Elias e seus amantes parecem estar todos na mesma categoria de afetos. Ao mesmo tempo que se ligam a todos, não se ligam a ninguém, não estabelecendo nenhuma conexão mais profunda com este ou aquele ser humano.

Se o filme foge de estereótipos? Lembremos que quando se fala de repressão sexual, se fala de mulheres e que a homossexualidade masculina sempre esteve marcada pelo estereótipo da promiscuidade. Então, o filme reforça esse estereótipo. Num ambiente em que filmes com temática LGBT têm sido marcados pelo tom de denúncia, o filme escapa a esse perfil. E escapa porque os personagens todos circulam em ambientes conhecidos e amigáveis a LGBTs. E escapa porque os personagens são práticos, sem qualquer espaço para inquietação ou questionamentos sobre o sentido das suas ações. Só importa o presente imediato e não há qualquer reflexão mais profunda.

Nas muitas cenas de sexo, com exposição de corpos, se pode pensar que os persongens exprimentam uma liberdade extremada. Contudo, logo se vê que eles exercitam essa liberdade sexual como contraponto ao trabalho. A sexualidade funciona como uma vávula de escape. Escapam da rigidez, das horas extras e da rotina do trabalho pelo prazer exercitado nos intervalos da atividade na fábrica de roupas. E estabelecem uma nova rotina: essa mesma de escapar através da festa e do sexo da monotonia  e da exaustão do trabalho. O filme mostra essa repetição sem fim: trabalho e festa ou sexo; trabalho de novo ou festa e sexo de novo. Não há rebeldia. Os corpos que habitam “Corpo Elétrico” são obedientes e bons trabalhadores. A eletricidade dos corpos só ocorre nos momentos oportunos e bem delimitados: nas horas de descanso do trabalho em que, portanto, não ameaçam a função econômica de cada um na sociedade.

Corpo Elétrico se desenrola num universo à parte que beira à artificialidade, livre de preconceitos e opressão. O filme apaga quase todos os confllitos e as tensões de se conviver. O protagonista, por exemplo, não sofre preconceito por ser gay, nem por ser nordestino. Os negros não sofrem preconceito por serem negros. Contudo, como em várias outras produções de ficção, “Corpo Elétrico” se trai ao confinar os negros às periferias. Quando vemos os núcleos elitizados, como os empregadores de Elias, ou como o rico amigo/amante de Elias, este são compostos apenas por brancos.

Os poucos conflitos mostrados pelo filme são tênues, ligados à opressão de classe dentro do ambiente de trabalho, como quando uma funcionária reclama que por conta das horas extras dormirá pouco e terá que acordar muito cedo no dia seguinte. Ou quando o empregador de Elias reprova sua aproximação com os funcionários menos graduados da fábrica. Elias não sabe o que dizer e mudo fica. Afinal, ele apenas segue a correnteza.

Há quem diga que o filme é uma celebração da vida. Onde muitos vêem felicidade, porém, se pode ver apatia e marasmo. Onde muitos vêem liberdade extremada, se pode ver escapismo regado a funk e pagode, trilha sonora principal do filme.

Podemos ficar pensando que talvez “a moral” do filme seja a de que sabem viver aqueles que não pensam sobre o que é vida e não se preocupam ou se angustiam com aquela antiga pergunta: qual o sentido da vida?

No mais, o filme tem uma excelente fotografia e é sempre ver bom ver diversidade na tela, não só referente à orientação sexual e identidade de gênero, mas também racial.

“Sob a Pele”: alienígenas, mulheres e jogos de imitação

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No filme Sob a Pele (Grã Bretanha e EUA, 2013), dirigido por Jonathan Glazer e baseado em livro de Michel Faber, se falou obsessivamente sobre o corpo e o rosto da protagonista Scarlett Johansson,  contrapondo excesso de imagens e escassez de falas, principalmente levando em conta que os primeiros reais diálogos do longa só acontecem depois dos dez primeiros minutos de sua exibição.

Mas apesar dos cabelos exuberantes, do batom vermelho, das roupas provocantes e dos seios fartos evidenciados em algumas cenas, interpreta Scarlett uma mulher?

Em pouco tempo percebemos que a personagem principal é um/a ser alienígena que usa a pele da linda atriz para atrair machos que lhe servirão, literalmente, de alimento e combustível – pois a função da comida é produzir energia. Mas quem poderá afirmar que a criatura seria homem ou mulher? Afinal, teriam esses alienígenas pênis e vaginas? E se reproduziriam de forma sexuada? Carregariam outros de sua espécie dentro de seus próprios corpos?

E como pensam os alienígenas, como sentem? Quais os critérios que guiam suas escolhas? Se são tão diferentes do que somos, o que deveria nos fazer crer que são valores semelhantes aos nossos que os movem? E por que deveríamos supor que numa sociedade alienígena – espelhando a nossa própria sociedade, também haveria uma organização por gênero, por sexo, que determinaria as ações dos indivíduos de acordo com o tipo de órgão sexual que carrega entre as pernas?

É por conta de todos esses questionamentos que erramos ao tomar Scarlett, no filme de Glazer, por mulher. Não devemos perder de vista o fato de que provavelmente não exista em sua sociedade o que conhecemos por homem ou por mulher. À moda do jogo da imitação de Alan Turing, em que um software imitava um ser humano, desafiando um outro ser humano real a descobrir onde estava a máquina e onde estava o humano, Scarlett interpreta um ser que apenas imita uma mulher. Querer determinar a esse ser alienígena um identidade feminina ou masculina é querer forçar nossos binarismos sobre mundos cujas leis desconhecemos por completo.

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Antes, o que a atriz representa é um/a imigrante de uma civilização muito distinta da nossa, um/a usuárix de uma forma aleatória que lhe permitirá melhor executar as tarefas que lhe foram propostas (no livro de Faber, ele/ela é funcionário de uma fábrica interplanetária de alimentos, onde a carne humana é uma iguaria valiosa). Assim, a aparência de mulher sexualmente disponível e convidativa que utiliza, antes de revelar sua identidade de gênero, revela apenas que compreende algo de nossa sociedade e por isso a escolheu como instrumento necessário para fisgar corpos de homens ávidos por um sexo fácil e gostoso, mas que o invés disso terão… (deixemos para lá! Não vamos antecipar as surpresas do filme!).

Contudo, num filme tão aberto a interpretações (há quem diga que se trata de uma metáfora à imigração), podemos apostar que esse ser alienígena não fez a lição de casa como deveria: não estudou o suficiente para garantir um vocabulário mais rico, como denuncia a monotonia das falas de Scarlett, principalmente quando não está mais em sua caçada e pode abandonar a sua coleçãode  frases feitas. Também não estudou o suficiente para entender o conceito de beleza, como revelam elogios rasgados endereçados a um jovem cuja aparência em nada corresponde aos padrões de beleza vigentes, provocando risinhos zombeteiros em plateias politicamente incorretas. Mas o que é pior de tudo: não estudou o suficiente sobre a relação entre homens e mulheres para garantir a própria segurança física, como descobrimos no decorrer do filme.

E é aqui que o tiro sai pela culatra.

Sem querer apresentar mais um spoiler, entre o rol de coisas em relação às quais o/a alienígena cometeu falhas na assimilação, devemos incluir – com certeza, os riscos aos quais se expõe ao escolher para sua atividade predatória um disfarce feminino num planeta em que mulheres são vítimas preferenciais de vários tipos de violência. Se na primeira parte do filme é o alienígena que se impõe, objetificando os humanos machos recolhidos em estradas solitárias, na segunda parte da película assistimos uma reviravolta – e é o alienígena que é objetificado ao ser erroneamente tomado por mulher.

Erramos ainda, se supomos que a criatura só é violentada porque possui o rosto de boneca e o corpo tão voluptuoso quanto o de Scarlett Johansson. Esse ser é violentado porque seu aspecto externo imita a aparência em seus aspectos gerais de uma mulher, independente da categoria na qual possam ser classificados seus atributos estéticos. E esse ser descobre, da pior forma possível, o que é carregar, sobre a sua, essa outra pele.

Sem Medo de Se Mostrar

Imagem: Asaf Hanuka

Imagem: Asaf Hanuka

Entre os que falam mal da internet e das rede sociais, um dos lugares comuns é acusar nossos contemporâneos de se exporem sem nenhum pudor. Num mundo em que cada vez mais se produzem e se popularizam as selfies, Catálogo de Indisciplinas mostra que está é uma tendência antiga.

O desejo de exposição e a própria exposição não são coisas apenas dos nossos dias. O que faltava, contudo, aos mais antigos, era tanto meios eficientes e baratos de produção das imagens de si mesmos quanto meios eficazes para difundir tais imagens. Assim, os pobres mortais que não dispunham de dinheiro para pagar um pintor habilidoso para  retratá-los, nem dispunham de talento para retratarem a si mesmos, tinham que se contentar em exercer sua vaidade e narcisismo na privacidade de seus lares, sem plateia, sem likes elogios, sozinhos diante do espelho. Exposição da própria imagem? Só para os nobres e ricos.

Uma vez que atualmente qualquer um pode ousar se expor das formas mais íntimas possíveis, tendo certeza que terá uma certa audiência, logo se vê que o surgimento de tecnologias como a fotografia digital e a internet democratizaram os meios de produção e difusão de imagens.

Fora a ausência de pudor – ou absoluta falta de noção, uma outra acusação que aqueles que publicam suas fotos  todos os dias na internet,  aproveitando as benesses da tecnologia, vêem levantada contra si, é a de que são hipócritas que mentem sobre suas vidas e identidades, simulando propositalmente uma felicidade e uma beleza inexistente. É óbvio que os perfis no Facebook, por exemplo, são construídos e elaborados, cada vez escolhendo os ângulos que deseja apresentar. Mas quanto há de invenção na elaboração  de si mesmo?

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Quando nos mostramos, seja em selfies com um olho aberto e outro fechado, fazendo carão ou fingindo ser malvado/malvada, não mostramos somente aquilo que somos, mas também nossas projeções: aquilo que gostaríamos de ser ou como gostaríamos de ser percebidos pela larga audiência que imaginamos ter. E isso raramente corresponde à realidade imaginada por quem observa, gerando um certo descompasso entre as duas formas de percepção.  Além disso, todos temos várias facetas  e o modo como escolhemos para nos representar é apenas um ou alguns entre todos os possíveis.

O filósofo Roland Barthes  dizia que quando posava para fotos mudava: se preparava para a pose e fabricava assim um outro corpo. Invocando essa artificialidade registrada  pelo francês, lembramos de um post já publicado aqui em que se discutia se a fotografia poderia mentir.

Em maior ou menor grau, quase nunca os autorretratos são objetivos e correspondem à uma realidade que pode ser facilmente mensurada.  E vamos combinar: pode ser divertido brincar/manipular a própria imagem. Afinal, por acaso se trata daquelas insossas fotografias para documento? E qual o sentido de se agarrar uma realidade nua e crua, facilmente reproduzida pelos espelhos? Como diz Arthur Danto, “há coisas que podemos ver nos espelhos mas que não podemos ver sem ele, notadamente nós mesmos”. E se ao espelho muitas vezes já enxergamos nossa imagem idealizada, porque não transportar essa imagem idealizada para os selfies que serão postados na internet?

Muito antes de nós, vários artistas consagrados se dedicaram a manipular suas imagens. Não com a mesma intenção com a qual hoje fazemos essas coisas: não para provocar inveja no vizinho, simular felicidade, inflar nosso ego, etc. Os autorretratos eram exercícios de autoendimento, instrumentos de autoconhecimento, elaboração de identidades. Por isso, sem medo de se mostrar.

Vejamos como se saíram alguns artistas que, muito antes de nós, já estavam acostumados a posar para  selfies autorretratos.

– NA PINTURA

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Como não vemos a nós mesmos, é atribuído ao desenvolvimento da indústria do vidro em Veneza, que permitiu o refinamento das técnicas de fabricação de espelhos, o impulso para a fixação do gênero do autorretrato, ainda no śeculo XV. E aqui é interessante ver como a arte e a cultura se relacionam com o surgimento e a melhora dos objetos técnicos.
Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Este deve ser o recordista masculino. É dito do famoso Rembrandt (1601-1669) que o mesmo pintou mais de cem autorretratos, cobrindo um longo período, de sua juventude até á velhice. Devia matar de inveja os outros adeptos de “selfies” da sua época. Curioso que Rembrandt era baixinho, mas em seus autorretratos, de estilo realista, sempre se pintava como um homem mais alto. Contudo, são telas são um exercício de transformação: são imagens que se desgastam com o tempo, rumo ao declínio e envelhecimento.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

O holandês Vicent Van Gogh (1853-1890) foi outro que não economizou tintas para representar a si mesmo, registrando inclusive não apenas um, mas DOIS autorretratos com a orelha enfaixada, após um episódio não muito bem esclarecido: ou um surto de depressão  o levou a cortar fora um pedaço da dita cuja ou ela foi cortada por Gauguin, numa briga entre os dois amigos. Segundo a Wikipedia, Van Gogh pintou trinta e cinco autorretratos entre os anos de 1886 e 1889.

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Provável campeã entre as mulheres, Frida Kahlo (1907-1954), nossa musa contemporânea,  pintou várias imagens de si mesma, nas quais destacava sua história e seu contexto emocional, especialmente as relações dolorosas com seu próprio corpo após um acidente de trânsito e as relações tumultuosas com o companheiro Diego Rivera. As pinturas também revelam inquietações quanto à sua origem mestiça: pai alemão e mãe mexicana, nas quais Kahlo com frequência reforçava seu sentimento de pertencimento ao México. Seriam cerca de 55 os autorretratos pintados, correspondendo a cerca de um terço de sua obra.

As duas Fridas (1939)

As duas Fridas (1939)

E encontramos Frida de cabelos longos, de cabelos curtos, soltos, presos, com roupa, sem roupa, sem mãos, sem coração, como feto, como filha, como esposa, vestida à moda européia, vestida com roupas folclóricas, envolta em lágrimas e sem lágrimas, duplicada. Em seu diário, Frida escreveu: ”Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”

  – NA FOTOGRAFIA

A difusão da fotografia tornou bem mais fácil e barata a execução de um autorretrato quanto comparada com a técnica da pintura. Afinal, não havia mais necessidade de se preocupar com tela, tinta, pigmento, perspectiva, proporção, etc. Mas  o interessado ainda tinha que se haver com as técnicas fotográficas, se preocupar com luz, foto, diafragma, entre outros, bem como com a a revelação do filme e o dinheiro para pagá-la.

Warhol: autorretratao vestido de mulher

Warhol: autorretratao vestido de mulher, no começo dos anos 80.

Célebre por haver vaticinado que no futuro todos seriam famosos por quinze minutos, além da pop arte, Andy Warhol  (1928-1987) também era um narcisista famoso. Entre suas obras, se destacam muitos autorretratos: em forma de pintura, fotografia ou serigrafia. Alguns demonstram certa ambiguidade sexual. Em meados de 2014, um dos seus autorretratos foi arrematado num leilão na Suíça por 105 milhões de dólares, na Art Basel, uma das feiras mais importantes de arte contemporânea.

Autorretrato: Cindy Sherman

Autorretrato: Cindy Sherman

No trabalho da fotógrafa americana Cindy Sherman (1954-), seu próprio corpo é o elemento essencial sobre o qual cria suas imagens. Contudo, afirma que as imagens de si que produz não são autorretratos, mas mera encenação, pois “Não somos aquilo que pensamos ser”. Negando qualquer possibilidade de uma identidade estável, Sherman sai de cena para deixar aflorar personagens através dos quais pretende discutir o modo de representação das mulheres: os estereótipos sobre o feminino.

Mas não nos iludamos.

Embora algumas vezes possa parecer, esses autorretratos não se assemelham aos nossos, repetitivos, monotonamente felizes e domésticos. E é por isso mesmo que os nossos não são considerados obras de arte. Contudo, na próxima vez que alguém nos elogiar por sermos fotogênicos (elogio mesmo ou ofensa? fotogênico é feio que fica engraçadinho em fotos)  e perguntar porque postamos tantos selfies,  principalmente aqueles diante do espelho fazendo aquelas bocas tortas, podemos dizer que estamos nos espelhando em Van Gogh, Frida Kahlo, Warhol, Sherman e Rembrandt, entre outros poderosos do mesmo naipe.

Se eles gastaram horas e dinheiro para construir retratos algumas vezes ousados de si mesmos, porque nós, que de graça, vamos gastar apenas um mísero segundo do nosso precioso  tempo apertando a câmara do nosso celular, não faríamos o mesmo?

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Até a próxima, pessoal. Bons selfies.

De Volta à Vida: dos antigos aos modernos ressuscitadores de mortos

Philliphe Aries conta, em sua História Social da Criança e da Família, que se tornou comum em certo período da Idade Média, algo que nos causa assombro: a reanimação dos mortos. Segundo o historiador, era lugar comum a reanimação momentânea de crianças mortas apenas para que pudesse ser prestadas a elas homenagens fúnebres. Após a rápida encomenda de suas almas, a morte retomava seu curso normal.  Como obtinham esse efeito, ninguém jamais soube dizer.

Imagem: Rowlandson, em "The English Dance of Death".

Imagem: Rowlandson, em “The English Dance of Death”.

O que nos atrai, nesse episódio, é uma ideia antiga. Sempre fomos seduzidos pela ideia de escapar ao sono eterno – a morte. E a humanidade sempre expressou seu desejo de viver um pouco mais, seja através das religiões, dos mitos, das artes, da medicina, etc. Vampiros e zumbis, na ficção, são os casos mais comuns de criaturas que conseguiram realizar tal proeza. Embora de uma forma não muito satisfatória: tornando-se monstros.

Em “O Sétimo Selo”, filme de Ingman Bergman que se passa na Idade Média, a morte senta e joga xadrez com um homem, que tenciona, através do jogo, apenas adiar cada vez mais o momento angustiante do fim. Mas enquanto rolam os dados, quer dizer, enquanto movem as peças, o homem tem a chance de refletir sobre sua própria finitude.

De ficção científica e história de horror, o retorno dos mortos à vida retoma, em nossa época, outros contornos, mais palpáveis.

Morrer e acordar no futuro, revivendo novamente após um longo período no qual se esteve morto,  é aspiração de vários.  São os adeptos da criogenia, técnica usada desde os anos 60, que consiste na preservação de cadáveres congelados em nitrogênio líquido: o sangue é retirado do corpo e substituído por líquidos conservantes e anti-congelantes. Depois, o cadáver é mergulhado de cabeça para baixo num tanque com 200 litros de nitrogênio e mantido na temperatura de 196 graus celsius negativos. Os adeptos nutrem a esperança de que no futuro, quando descoberto um modo seguro de descongelamento, seus corpos possam ser reanimados e suas doenças curadas. Muitas empresas oferecem o serviço, havendo quem conserve o corpo inteiro e quem conserve apenas a cabeça, por ser mais barato.

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Mas há uma nova técnica, recentemente divulgada, que também causa assombro. Os professores Peter Rhee, da Universidade do Arizona, e Samuel Tisherman, da Universidade de Maryland, praticam o que vem sendo chamado de “suspensão da morte”.  Como na criogenia, a técnica utilizada pelos mesmos se ampara nas baixas temperaturas corporais. Há a retirada de sangue e sua substituição por uma solução salina, que ajuda a manter a temperatura do corpo entre 10 e 15 graus celsius. O paciente ganha uma ou duas horas de esperança, nas quais o médicos tentarão reverter o quadro que causou sua morte ou que está prestes a causá-la. Com o problema resolvido, o sangue volta a ser bombeado, e quando o corpo atingir a temperatura de 30 graus, o coração volta a bater. Por meio da técnica, os professores já ressuscitaram animais, como porcos. No final do ano de 2014, ganharam autorização para o maior desafio: fazer o mesmo com humanos.

As técnicas para adiar a morte, ou que tem como objetivo trazer um morto de volta à vida, uma vez que a morte parece estar inscrita naturalmente em nossa DNA, têm de combater uma ideia ainda cara a alguns: a ideia de que tudo que é  natural é bom. Contudo, abrem janelas para vários outros questionamentos, importantíssimos:

O que acontece ao mundo e ao meio ambiente se não morrermos nunca?  E se no futuro, a morte for facultativa? Seria problema ou solução? Será que alguns indivíduos teriam o privilégio de viver muitas vidas, por riqueza, por poder, por necessidade social,  enquanto outros indivíduos teriam vidas descartáveis? A morte, então, deixaria de ser impessoal, tomando democraticamente a qualquer um?

No ano de  2005, José Saramago publicou As Intermitências da Morte, onde explorou as dificuldades sociais de se viver para sempre num mundo ficcional em que a ausência de morte física não significava ausência de doenças e das mazelas que a antecediam. Contudo, a supressão do fim criou uma superpopulação e pôs em cheque a existência de instituições e negócios: a igreja, o estado, as empresas de seguro, companhias fúnebres, lares para idosos, etc. .

Quanto aos efeitos decorrentes da nossa própria relação com a morte, num mundo que poderá contê-la indefinidamente, só o futuro dirá. Quando esse momento chegar.

A Outra Babel: línguas ficcionais

Imagem: Tomek Sętowski

Imagem: Tomek Sętowski

Todas as línguas e idiomas utilizados pelos homens foram criados. Difícil precisar todos os detalhes: Onde exatamente? Como? E por quem? Se as respostas são difíceis nos idiomas correntes, porque não foram criados por uma pessoa específica em um momento específico, em alguns casos se pode apontar facilmente o criador. E é isso que o Catálogo de Indisciplinas fará, mexendo na Torre de Babel erguida pela ficção.

Não falaremos do Dothraki, criado por J. R.R. Martin em “Game of Thrones”. Nem do Klingon, que é uma língua alienígena desenvolvida na série Jornada das Estrelas. Ou do Na’Vi, do filme “Avatar”, de James Cameron. O Sindarin, que pertence a “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, e é o mais falado de vários idiomas do reino dos elfos, ficará talvez, para outro post.

Catálogo de Indisciplinas quer tratar mesmo é das línguas fictícias que se amparam nas teorias que postulam a existência de uma relação de dependência entre linguagem e pensamento: as palavras moldariam o nosso pensamento, construindo nossas categorias mentais e determinando uma maneira específica de ver o mundo. A partir disto, nossa breve lista:

1. Novilíngua, de George Orwell (1903-1950)

Cena do filme de mesmos nome.

Cena do filme de mesmo nome, dirigido por Michael Radford e lançado também no ano de 1984.

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Publicado em 1949, “1984” é uma história de ficção científica que se desenrola dentro de um estado totalitário – Oceânia, simbolizado pelo Big Brother, que a tudo e a todos observa.

Com o fim de instrumentalizar os objetivos do estado, se desenvolveu a Novilíngua, que não é um idioma ou uma língua nova, mas a língua antiga encolhida, cada vez mais reduzida a seus elementos essenciais, manipulada para extrair dela todas as possibilidades de resistência, tudo que possa ser semente de um pensamento questionador, de expansão do pensamento e de expressão individual.

Apoiando a opressão política e acarretando o fechamento do pensamento, o significado das palavras é alterado de acordo com as necessidades do estado, vindo até mesmo a significar o oposto dos sentidos originais. É assim que o slogan do partido que comanda Oceânia declara: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Bem assim, ao inverso.

Amparada na ideia de que aquilo que não pode ser verbalizado não pode ser pensado ou comunicado, a língua opera seu próprio empobrecimento: suprime termos; suprime a sinonímia; promove confusão de significados entre antônimos a fim de banir os sentidos indesejados.

A principal função da novilíngua não é comunicar. Ela existe para garantir um pensamento igualitário, sem dissensos, impedindo não só a comunicação de ideias contrárias à ordem política estabelecida, mas até mesmo que tais ideias sejam geradas.

2. Pravic – Ursula K. Le Guin (1929-)

Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin

Em “Os Despojados: uma utopia ambígua” (1974), a ação se passa num tempo e num lugar muito distante do nosso, em que as mudanças mais profundas não se encontram nas incríveis máquinas tecnológicas do futuro, mas nos valores de uma sociedade que, ao mesmo tempo, se reflete e é refletida na língua.

Se em “1984” encontramos um estado extremamente forte, “Os Despojados” apresenta uma sociedade sem estado. Após uma revolta contra o sistema político do planeta Urras, na qual foram derrotados, em lugar de ser presos, aos revoltosos foi dada a opção de se instalar e colonizar um planeta árido e hostil: Anarres.

Quando os revolucionários se instalaram no novo planeta, com a intenção de iniciar uma nova civilização, elaboram uma nova língua. Como os primeiros habitantes dos planeta Anarres vieram de Urras, era aquele seu sistema linguístico de referência. Então, a nova língua se construiu por oposição ao Ioti, idioma de Urras. Chamada Pravic, a nova língua incorporava os valores da nova sociedade que quiseram ver instalados em Urras: uma sociedade anarquista, descentralizada, sem hierarquias, privilégios de classe e gênero, sem propriedade privada.

Um verbo central em Anarres é “compartilhar”, enquanto em Urras era “ter”. O Pravic é construído para desconstruir as estruturas tradicionais de poder. Não há palavras que expressem concepções de classe ou status, nem títulos de nobreza. Os nomes próprios não fornecem indicação quanto ao sexo das pessoas e os substantivos e adjetivos são neutros quanto ao gênero. E porque não há propriedade individual, a língua exclui os pronomes possessivos.

Palavras e concepções como prisão, escravos, casamento e moralidade, entre outros, são estranhos em Anarres. Um grande insulto em Pravic é chamar alguém de “profiter”, algo como “ganancioso interessado apenas no lucro”, significando que o mesmo não pensa no bem da comunidade. Para eles, a língua deveria reforçar o sentido de comunidade e solidariedade no mundo. Nesse espírito, um dos personagens declara: “Falar é compartilhar – a língua é uma arte colaborativa”.

3. Nadsat, Anthony Burguess ( 1917-1993)

Cena do filme de mesmo nome.

Cena do filme de mesmo nome, anglo-estadunidense, dirigido por Stanley Kubrik e lançado em 1971.

Inseridas em obras profundamente políticas, tanto a Novilíngua quanto o Pravic apostam que existe uma forte relação entre linguagem e desenvolvimento do pensamento.

Como as anteriores, a ficção de Burguess, “Laranja Mecânica” (1962 ), também possui conteúdo político: questiona se a negação ao indivíduo da sua liberdade de escolha não pode ser um mal maior que o próprio mal que o mesmo possa vir a cometer. Mas dá um tratamento diferente ao modo de falar que apresenta.

Na obra do britãnico, o Nadsat, que não é um idioma ou uma língua independente, mas uma espécie de gíria que mistura palavras em inglês, russo e o cokcney – modo de falar dos operários ingleses, é usado como forma de distinção pelo protagonista Alex, um delinquente juvenil, e seus amigos. Seu modo característico de fala marca a identidade do grupo, funcionando como barreira entre o mesmo e os outros.

Inseridos dentro de um sistema linguístico de referência, o Nadsat permite aos jovens escapar do poder regulador das palavras comuns, mantendo os mesmos à parte da cultura que os cerca: os adolescentes não partilham dos valores dos mais velhos, nem admite associações com os mesmos.

Nessa comunidade formada por Alex e seus companheiros, os drugues, onde os valores compartilhados, ligados à violência, são reforçados e celebrados, um dos efeitos do Nadsat é amenizar simbolicamente os atos de violência, que nunca são descritos na língua corrente, mas no dialeto usado pelo adolescentes.

O uso do Nadsat causa também um estranhamento no leitor, pois as gírias são usadas não apenas entre as conversas entre personagens, mas também na narração de grande parte história, que é realizada por Alex, passando ao leitor o encargo de ter que de lidar com o possível significado de cada verbete.

4. Codex Seraphinianus

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Imagem: Uma das páginas do Codex Seraphinianus.

Em 1981, o italiano Luigi Serafini (1949-) publicou um enigmático livro. Trata-se de uma enciclopédia ilustrada de um mundo imaginário, escrita numa língua estranha, usando um alfabeto igualmente estranho.

O autor declarou que não havia nenhum significado oculto na língua inventada por ele, que mais se assemelhava a uma escrita automática. Dizendo que sua escrita era artística e não linguística, Serafini declarou querer produzir no leitor a mesma sensação que teria uma criança não alfabetizada ao contemplar os símbolos linguísticos que não compreende.

Por fim, Catálogo de Indisciplinas lembra que existem muitas outras experiências de criação de língua fora do reino da ficção. John Wilkings sonhou em construir uma língua que pudesse corrigir o pensamento humano. Umberto Eco imaginou uma “Linguagem Perfeita”, racional e lógica, que eliminaria todos os mal entendidos. Criou-se o Esperanto, o Volapuk, etc. E há linguagem de computador, linguagem matemática e tantas outras coisas.

Sorte no Jogo

Cena de "A Vida de Outra Mulher"

Cena de “A Vida de Outra Mulher”

“E se depois de 15 anos você tivesse a chance de recomeçar?” . É essa a chamada para o filme francês “A Vida de Outra Mulher” (2012), da diretora Sylvie Testud, cujo elenco é capitaneado por Juliette Binoche. A mesma chamada poderia ser igualmente usada para o longa americano “De Repente 30” (2004), dirigido por Gary Winick e estrelado por Jennifer Garner. Afinal, entre as películas, sobram mais semelhanças que diferenças.

Jenna (Jennifer Garner) e Marie (Juliette Binoche) são duas mulheres que perderam parcelas importantes de suas vidas. Precisamente, as memórias de mais de 15 anos. Ao acordar aos 30 anos, em sua última lembrança, Jenna acabou de fazer 13. Escondida dentro de um armário, aguarda o beijo adolescente de seu príncipe. Ao acordar aos 41, em sua última lembrança, Marie acabou de fazer 25. Em conformidade com a idade, nada de armários e beijos, mas cama e um sexo gostosinho com o outro príncipe.

Distintas são as explicações para os lapsos de memória das duas mulheres. No filme “ A Vida de Outra Mulher”, Marie foi acometida de uma providencial amnésia, ainda sem explicação médica. Em “De Repente 30”, a responsabilidade pela viagem no tempo de Jenna – tão ao gosto hollywoodyano, foi meramente um passe de mágica. Abracadabra!

As duas mulheres protagonizam filmes cujos locais de produção sempre estiveram ligados à expectativas contrárias. Dos Estados Unidos, filmes com apelo comercial, visando satisfazer uma massa de espectadores sem grande refinamento estético. Da França, filmes alternativos, cujos destinatários seria uma elite mais intelectualizada.

“A Vida de Outra Mulher” anula qualquer diferença. Tem-se a impressão que o filme francês é um filme americano cuja equipe de realizadores falhou gravemente. É certo que no quesito comédia, “De repente 30” tem muito: mas é muito de um humor banal, repetitivo e apelativo. Já o humor na comédia “A Vida de Outra Mulher” é de uma sutileza tão grande que faz pensar mais em inabilidade de produzir um humor bem resolvido do que em elegância.

As duas películas se esforçam para mostrar duas garotas que, de tímidas, inseguras e sem fortuna, se transformam em mulheres fortes, bem sucedidas e com belas contas bancárias. Adultas, suas vidas giram em torno de um trabalho que exercem com mão de ferro, sem espaços para sentimentalismo.

Ambas as comédias românicas tratam de resgatar a inocência perdida e acertar o foco no que realmente importa. Pois bem situadas no mundo corporativo e em posição de comando, Jenna e Marie esqueceram que “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” A via eleita para realizar tal façanha, nos dois casos, é reconquistar os príncipes do começo de tudo. Assim, a redenção, embora tenha como termo inicial o apagamento da memória, irá se operar, como sempre, através do amor romântico, sendo essa a recompensa de toda a mudança empreendida.

Cena de "De Repente 30".

Cena de “De Repente 30”.

Curiosamente, ambos os longas mostram uma inversão nos papéis tradicionalmente reservados a homens e mulheres, no que se refere ao poder e afeto. As duas mulheres, antes do apagamento, ocupam posições de liderança, sendo chefes irascíveis nos respectivos escritórios. Já os homens que pretendem reconquistar fazem o tipo sensível, possuindo profissões mais artísticas: um desenhista de histórias em quadrinhos e um fotógrafo independente. Curioso, ainda, que os dois homens são honestos e fiéis, enquanto Jenna e Marie, possuem matriz e filial: uma relação estável, e paralelamente, amantes no trabalho.

Como nas históricas românticas banais, Jenna tem final feliz ao se casar com o amigo de adolescência e Marie ao retornar com o marido. No fim, fica-se pensando, é nisso que se resume a vida de uma mulher, arrumar um homem? Como se desde o começo fosse apenas isso, no fundo, que importasse: Ah, mulheres, infinitamente carentes e dependentes!

Ambos os filmes incorporam as mudanças culturais no que se refere às mulheres, mas com ranços de retrocesso. No fim, o que parecem querer sugerir é isso: que as mulheres, ao se afastarem de seus papeis tradicionais, jamais conseguirão satisfação. São os homens que se realizam pela profissão, querida! As mulheres só se realizam pelo amor.

E o que fazer com a experiência? Os desejos não mudam dos 13 aos 30, dos 25 aos 41? O tempo nada deveria lhes acrescentar? Pois o mesmo parece lhes ter conferido apenas infelicidade. Só por isso é preciso retornar à si mesmas, bem mais jovens, sem as marcas da experiência, em uma tempo no qual não eram senhoras de si mesmas, para reaprender a viver. Paradoxal.

O que seremos no futuro será, de diversas maneiras, fundamentalmente distinto do que fomos no passado. Aprendemos, mudamos. Contudo, “A Vida de Outra Mulher” destrói a ideia de que se possa aprender com a experiência. A nova Marie, a desmemoriada Marie, é leve justamente porque jogou fora o peso de mais de quinze anos de memórias acumuladas. Privada dos contextos que determinaram suas mudanças, a protagonista não entende como se transformou em outra mulher. O espectador também não.

Nesse vácuo, o que parece sobrar, é aquela velha pergunta, jamais feita aos homens, formulada há mais de 100 anos pelo pai da psicanálise: “Afinal, o que querem as mulheres?”