Sem Medo de Se Mostrar

Imagem: Asaf Hanuka

Imagem: Asaf Hanuka

Entre os que falam mal da internet e das rede sociais, um dos lugares comuns é acusar nossos contemporâneos de se exporem sem nenhum pudor. Num mundo em que cada vez mais se produzem e se popularizam as selfies, Catálogo de Indisciplinas mostra que está é uma tendência antiga.

O desejo de exposição e a própria exposição não são coisas apenas dos nossos dias. O que faltava, contudo, aos mais antigos, era tanto meios eficientes e baratos de produção das imagens de si mesmos quanto meios eficazes para difundir tais imagens. Assim, os pobres mortais que não dispunham de dinheiro para pagar um pintor habilidoso para  retratá-los, nem dispunham de talento para retratarem a si mesmos, tinham que se contentar em exercer sua vaidade e narcisismo na privacidade de seus lares, sem plateia, sem likes elogios, sozinhos diante do espelho. Exposição da própria imagem? Só para os nobres e ricos.

Uma vez que atualmente qualquer um pode ousar se expor das formas mais íntimas possíveis, tendo certeza que terá uma certa audiência, logo se vê que o surgimento de tecnologias como a fotografia digital e a internet democratizaram os meios de produção e difusão de imagens.

Fora a ausência de pudor – ou absoluta falta de noção, uma outra acusação que aqueles que publicam suas fotos  todos os dias na internet,  aproveitando as benesses da tecnologia, vêem levantada contra si, é a de que são hipócritas que mentem sobre suas vidas e identidades, simulando propositalmente uma felicidade e uma beleza inexistente. É óbvio que os perfis no Facebook, por exemplo, são construídos e elaborados, cada vez escolhendo os ângulos que deseja apresentar. Mas quanto há de invenção na elaboração  de si mesmo?

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Quando nos mostramos, seja em selfies com um olho aberto e outro fechado, fazendo carão ou fingindo ser malvado/malvada, não mostramos somente aquilo que somos, mas também nossas projeções: aquilo que gostaríamos de ser ou como gostaríamos de ser percebidos pela larga audiência que imaginamos ter. E isso raramente corresponde à realidade imaginada por quem observa, gerando um certo descompasso entre as duas formas de percepção.  Além disso, todos temos várias facetas  e o modo como escolhemos para nos representar é apenas um ou alguns entre todos os possíveis.

O filósofo Roland Barthes  dizia que quando posava para fotos mudava: se preparava para a pose e fabricava assim um outro corpo. Invocando essa artificialidade registrada  pelo francês, lembramos de um post já publicado aqui em que se discutia se a fotografia poderia mentir.

Em maior ou menor grau, quase nunca os autorretratos são objetivos e correspondem à uma realidade que pode ser facilmente mensurada.  E vamos combinar: pode ser divertido brincar/manipular a própria imagem. Afinal, por acaso se trata daquelas insossas fotografias para documento? E qual o sentido de se agarrar uma realidade nua e crua, facilmente reproduzida pelos espelhos? Como diz Arthur Danto, “há coisas que podemos ver nos espelhos mas que não podemos ver sem ele, notadamente nós mesmos”. E se ao espelho muitas vezes já enxergamos nossa imagem idealizada, porque não transportar essa imagem idealizada para os selfies que serão postados na internet?

Muito antes de nós, vários artistas consagrados se dedicaram a manipular suas imagens. Não com a mesma intenção com a qual hoje fazemos essas coisas: não para provocar inveja no vizinho, simular felicidade, inflar nosso ego, etc. Os autorretratos eram exercícios de autoendimento, instrumentos de autoconhecimento, elaboração de identidades. Por isso, sem medo de se mostrar.

Vejamos como se saíram alguns artistas que, muito antes de nós, já estavam acostumados a posar para  selfies autorretratos.

– NA PINTURA

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Como não vemos a nós mesmos, é atribuído ao desenvolvimento da indústria do vidro em Veneza, que permitiu o refinamento das técnicas de fabricação de espelhos, o impulso para a fixação do gênero do autorretrato, ainda no śeculo XV. E aqui é interessante ver como a arte e a cultura se relacionam com o surgimento e a melhora dos objetos técnicos.
Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Este deve ser o recordista masculino. É dito do famoso Rembrandt (1601-1669) que o mesmo pintou mais de cem autorretratos, cobrindo um longo período, de sua juventude até á velhice. Devia matar de inveja os outros adeptos de “selfies” da sua época. Curioso que Rembrandt era baixinho, mas em seus autorretratos, de estilo realista, sempre se pintava como um homem mais alto. Contudo, são telas são um exercício de transformação: são imagens que se desgastam com o tempo, rumo ao declínio e envelhecimento.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

O holandês Vicent Van Gogh (1853-1890) foi outro que não economizou tintas para representar a si mesmo, registrando inclusive não apenas um, mas DOIS autorretratos com a orelha enfaixada, após um episódio não muito bem esclarecido: ou um surto de depressão  o levou a cortar fora um pedaço da dita cuja ou ela foi cortada por Gauguin, numa briga entre os dois amigos. Segundo a Wikipedia, Van Gogh pintou trinta e cinco autorretratos entre os anos de 1886 e 1889.

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Provável campeã entre as mulheres, Frida Kahlo (1907-1954), nossa musa contemporânea,  pintou várias imagens de si mesma, nas quais destacava sua história e seu contexto emocional, especialmente as relações dolorosas com seu próprio corpo após um acidente de trânsito e as relações tumultuosas com o companheiro Diego Rivera. As pinturas também revelam inquietações quanto à sua origem mestiça: pai alemão e mãe mexicana, nas quais Kahlo com frequência reforçava seu sentimento de pertencimento ao México. Seriam cerca de 55 os autorretratos pintados, correspondendo a cerca de um terço de sua obra.

As duas Fridas (1939)

As duas Fridas (1939)

E encontramos Frida de cabelos longos, de cabelos curtos, soltos, presos, com roupa, sem roupa, sem mãos, sem coração, como feto, como filha, como esposa, vestida à moda européia, vestida com roupas folclóricas, envolta em lágrimas e sem lágrimas, duplicada. Em seu diário, Frida escreveu: ”Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”

  – NA FOTOGRAFIA

A difusão da fotografia tornou bem mais fácil e barata a execução de um autorretrato quanto comparada com a técnica da pintura. Afinal, não havia mais necessidade de se preocupar com tela, tinta, pigmento, perspectiva, proporção, etc. Mas  o interessado ainda tinha que se haver com as técnicas fotográficas, se preocupar com luz, foto, diafragma, entre outros, bem como com a a revelação do filme e o dinheiro para pagá-la.

Warhol: autorretratao vestido de mulher

Warhol: autorretratao vestido de mulher, no começo dos anos 80.

Célebre por haver vaticinado que no futuro todos seriam famosos por quinze minutos, além da pop arte, Andy Warhol  (1928-1987) também era um narcisista famoso. Entre suas obras, se destacam muitos autorretratos: em forma de pintura, fotografia ou serigrafia. Alguns demonstram certa ambiguidade sexual. Em meados de 2014, um dos seus autorretratos foi arrematado num leilão na Suíça por 105 milhões de dólares, na Art Basel, uma das feiras mais importantes de arte contemporânea.

Autorretrato: Cindy Sherman

Autorretrato: Cindy Sherman

No trabalho da fotógrafa americana Cindy Sherman (1954-), seu próprio corpo é o elemento essencial sobre o qual cria suas imagens. Contudo, afirma que as imagens de si que produz não são autorretratos, mas mera encenação, pois “Não somos aquilo que pensamos ser”. Negando qualquer possibilidade de uma identidade estável, Sherman sai de cena para deixar aflorar personagens através dos quais pretende discutir o modo de representação das mulheres: os estereótipos sobre o feminino.

Mas não nos iludamos.

Embora algumas vezes possa parecer, esses autorretratos não se assemelham aos nossos, repetitivos, monotonamente felizes e domésticos. E é por isso mesmo que os nossos não são considerados obras de arte. Contudo, na próxima vez que alguém nos elogiar por sermos fotogênicos (elogio mesmo ou ofensa? fotogênico é feio que fica engraçadinho em fotos)  e perguntar porque postamos tantos selfies,  principalmente aqueles diante do espelho fazendo aquelas bocas tortas, podemos dizer que estamos nos espelhando em Van Gogh, Frida Kahlo, Warhol, Sherman e Rembrandt, entre outros poderosos do mesmo naipe.

Se eles gastaram horas e dinheiro para construir retratos algumas vezes ousados de si mesmos, porque nós, que de graça, vamos gastar apenas um mísero segundo do nosso precioso  tempo apertando a câmara do nosso celular, não faríamos o mesmo?

selfie

Até a próxima, pessoal. Bons selfies.

Miragem Mecânica

Nascido em 1961 no Japão, Kazuhiko Nakamura é um dos grandes nomes da arte digital.

No seu site, Mechanical Mirage, afirma que suas influências vêm da cibercultura e do surrealismo. Admirador das obras de H. R. Giger e Ernst Fuchs, suas imagens trazem híbridos: misturas de homem e máquina.


“Automation”

O artista explica que suas imagens constituem uma espécie de “memória história”: carne e máquina combinadas, igualmente em ruínas no futuro.



“Requiem for Industry”

Nakamura não vive de arte digital. Ele é designer gráfico e produz imagens como as que estão aqui reproduzidas em seu tempo livre. Como o mesmo diz, o computador não realiza facilmente o que  o artista programa. Assim, Nakamura despende muito tempo efetuando correções nas imagens até obter o efeito desejado.


“Bug Chair”

Falando sobre o futuro, Nakamura, em entrevista à Mary’s Page, afirma que, apostando na evolução do CG Software,  acredita na expansão  da arte digital e mesmo numa expressão em grande escala: vastos hologramas.


“Shell in the Darkness”

Guernica: a de antes e a de depois

Lindevania Martins


Fotografia de Gernika após bombardeiro. (Exposição: “Gernika, de icono vasco a símbolo universal”, no Museo Arqueológico, Etnográfico e Histórico Vasco, em Bilbao.)

A palavra Guernica nomeia, simultaneamente, uma cidade e uma obra de arte. De outro ângulo, nomeia, ainda, o que é muito grande e o que é muito  pequeno:  a tela de Pablo Picasso é, literalmente, uma das maiores obras do mundo; a cidade, uma das menores cidades do mundo.

No idioma basco, Guernica é Gernika. O nome que de agora em adiante  se usará  no presente texto sempre que se falar da cidade, para que ninguém se perca entre uma e outra, reservando-se Guernica apenas para a obra.

Gernika, enfim, é uma cidadezinha espanhola, embora tradicional capital basca, que  se comprime por uma área de 847 m2 e cuja população, em 2009, era de apenas 16.244 habitantes[1].  Em 26 de abril de 1937, Gernika foi bombardeada  numa nefasta combinação de tecnologia e ideologia fascista: um ataque aéreo contra civis conduzido pelos nazistas, como estratégia de apoio ao ditador Francisco Franco, que solicitou a Hitler suporte aéreo e armas, incendiou, destruiu  a cidade e causou inúmeros mortos[2].

Picasso não estava em Gernika e nada presenciou, pois já morava em Paris. A notícia  daquela violência  não deve tê-lo pego desprevenido de todo, pois a Guerra Civil Espanhola havia estourado em julho de 1936. O horror que sentiu ao saber das dimensões da tragédia que se abatera sobre Gernika, veio do mesmo lugar que causou horror ao público que  mais tarde contemplou Guernica: a imagem. Picasso viu a destruição de Guernica nas fotografias dos jornais da época. Nos vimos e a vemos na pintura de Picasso. Mesmo que as estratégias cubistas  a alguns se sobreponham ao todo, mesmo que a austeridade do branco, preto e cinza aborreça a outros.

O que se vê em Guernica quando não se conhece sua história?

Congelar uma imagem não é uma forma de manter o grito, gravar na memória? Gernika  destruída e Guernica intacta.   O objeto e sua representação. A cidade e suas chamas, como um discurso, se desvanecendo; a obra, como uma escrita, garantindo a estabilidade do que não é permanente.

A pintura de Picasso é um mural de 7,8 x 3,5 metros. Executado em Paris, foi transferido para Nova Iorque durante a Segunda Guerra Mundial. O artista deu ordens expressas de que a obra deveria ir para Espanha apenas quando este fosse um pais democrático.  Em setembro de 1981, oito anos após a morte de Picasso, Guernica foi retirada do MoMA  e chegou a Madri. Faz parte do acervo do Centro de Arte Rainha Sofia.

Hoje a cidade se chama Gernika-Lumo. Em 1983, Gernika adicionou  o termo ao seu nome. Talvez para lhe desvincular um pouco da tela de Picasso. Para apagar um pouco daquela lembrança. A notoriedade da obra de Picasso, excluindo a seletividade da memória, talvez tenha tornado muito difícil àquele povo esquecer, ou não sofrer, com o passado, com a destruição, com a morte, com o aniquilamento.  Mas aqui já são só conjecturas.

Precisa-se saber do que ocorreu em Gernika para olhar  para Guernica?  Guernica não foi mais uma experiência estética, mas ação política, criação de um símbolo. As narrativas sobre o que de fato ocorreu em 26 de abril de 1937 perderam força diante da tela do artista. Guernica se tornou mais real que Gernika. Mas Guernica,  a tela, sem Gernika, a cidade, é uma imagem vazia.  E esvaziada de seu significado,violência gratuita.

E como Gernika destruída pode ser tão penosa e terrível, e Guernica tão bela e sublime? Então, antes que se fale da estetetização da  violência, ou antes, a propósito dela mesmo, trecho do Manifesto Marinetti, reproduzido por Walter Benjamin, em “A Obra de Arte na Época da sua Reprodutibilidade Técnica”:

“ A guerra é bela porque inaugura a sonhada metalização do corpo humano. A guerra é bela porque enriquece um prado florescente com as  orquídeas de fogo das metralhadoras. A guerra é bela porque reúne numa sinfonia o fogo das espingardas, dos canhões, do cessar-fogo, os perfumes e os odores de putrefação. A guerra é  bela porque cria novas arquiteturas, como a dos grandes tanques, a da geometria de aviões em formação, a das espirais de fumo de aldeias a arder e muitas outras…”.



[1]WIKIPEDIA. Disponível na internet:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Guernica. Acessado em 20.05.10.

[2] BECRAFT, Mel. Picasso’s Guernica.  2 ed. California, 1986. Disponível na internet em: http://community.novacaster.com/attach.pl/341/387/Images_within_images_3rd_Ed.pdf.  Acessado em 20.05.10.

Yves Klein – Além do Azul

Lindevania Martins

“Para mim, as cores são seres vivos, indivíduos extremamente evoluídos que se assemelham a nós e a todo o resto”.  (Yves Klein)

A arte contemporânea  necessita de explicitação.  Pensa Tom Wolfe e o diz ironicamente,  afirmando que “a arte  moderna  se tornou inteiramente literária: as pinturas e outras obras só existem para ilustrar o texto”,  não se tratando de “ver é crer”, mas “crer é ver” (WOLFE: 2009). Para Henry Flynt, que teria sido o primeiro a utilizar o termo “arte conceitual”,  em 1961, os conceitos são a própria matéria da arte, visto que ela está vinculada à linguagem, pelo que interessa mais a idéia que a sua execução.

Poucos levaram os conceitos de arte tão  longe quanto Yves Klein. Nascido  na França em 1928,  Klein era um provocador. Três anos mais velho que Tom Wolfe, enquanto este renovava o jornalismo nos Estados Unidos e andava por Nova Iorque fazendo  crítica de arte, o artista plástico, literalmente, incendiava ou esvaziava seu trabalho na Europa.

Como Flynt, Klein acreditava que o conceito que originava a obra de arte era mais importante que ela mesma: executada e observável.  Wolfe diria: “Francamente, nos dias que correm,  sem uma teoria para endossá-la, é impossível ver uma pintura”  (WOLFE:  2009).

A experiência artística em Klein é radical, sustentada por suas idéias inusitadas e arrebatadoras, compartilhadas com o público em toda sua vitalidade e, por vezes, efemeridade. O artista queria  se afastar do “velho academicismo do pincel, da cor”, do “complexo de cavalete”.  Buscava um elemento pictórico puro que sensibilizasse quem o contemplasse, tendo  chegado, após vários experimentos, ao International Klein Blue, patenteado em 1960.  Afastando-se dos pincéis convencionais, quis apresentar o pincel vivo, numa atitude ofensiva às mulheres, que se viram tratadas como objetos. Literalmente: o pincel vivo eram modelos nuas molhadas em  tinta. Pulemos essa parte.

Em abril de 1958, uma exposição de Klein virou lenda. O público de mais mil de pessoas que se dirigiu a Galeria Iris Clert, em Paris, ficou espantado com o que viu. E com o que não viu. Tendo despojado a galeria de todos os seus móveis, Klein a  pintou inteiramente de branco utilizando a mesma técnica empregada em seus monocromos. O evento ficou conhecido como “O Vazio”. Albert Camus, um dos presentes na exposição, teria escrito no livro de honra da mesma: “Com o vazio, plenos poderes”.  No coquetel, uma bebida fez os presentes sentirem na carne- ou melhor, nos seus fluidos corporais, as idéias do francês louco: mais tarde, urinaram em azul (WEITEMEIER: 2005).


Entre 1947 e 1961, Yves Klein apresentou repetidas vezes o trabalho “Sinfonia Monotônica” ou “Sinfonia Monôtona”, na Galeria Internacional de Arte Contemporânea, em Paris. Tratava-se de uma peça musical composta por ele, de apenas uma nota, repetida durante vinte minutos. No texto “The Chelsea Hotel Manifesto”, Yves se refere à mesma afirmando que propôs ali uma nova concepção de música.

Em março de 1960,  uma nova exibição da sinfonia, agora fechada ao público, incluía uma novidade. Paralelamente, no mesmo salão ocupado por 20 músicos clássicos, apareciam três modelos nuas, com baldes de tinta azul.  Na parede oposta àquela onde se encontravam os músicos, gigantes tiras de papel dispostas na parede. Envolvendo seus corpos em tinta azul, as modelos tinham os movimentos dirigidos por Klein, impregnando as tiras de papel com suas impressões corporais.

Enfim, Klein pintou  e bordou. Ou quase. Não pintou apenas com seu pigmento novo, mas também com fogo e água. Saltou no vazio: “Um homem no espaço”. Criou a “Zona de Sensibilidade Pictórica Imaterial”.

Para Joseph Nechvatal, Klein é o mais importante artista fracês depois de Henri Matisse. Para ele, o trabalho de Klein, ao focar no imaterial, no vazio, no efêmero, é de grande relevância para nossa era digital.

Como Piero Manzoni,  morreu cedo. Antes dos 40 anos de idade, de ataque cardíaco e no auge da fama. Antes, porém, fez uma piada com  Malevitch e seu “Quadrado Negro Sobre Fundo Branco”:  “Malevitch pintou uma natureza morta a partir de uma de minhas pinturas monocromáticas” (GOODING: 2004 ).

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Referências:

GOODING,  Mel. A arte abstrada. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

NECHVATAL, Joseph. Yves Klein: corps, coleur, immatériel. Disponível na internet  em http://www.eyewithwings.net/nechvatal/Klein/Klein.htm. Consultado em 12.12.09.

KLEIN, Yves. The hotel Chelsea Manifesto. Disponível na internet  em http://www.yvesklein.de/manifesto.html. Consultado em 12.12.09.

WEITEMEIR, Hannah. Yves klein.  Singapura: Taschen, 2005.

WOLFE, Tom. A palavra pintada. 9 ed. Rocco: São Paulo: 2009.

O Anticristo da Arte

Lindevania Martins

"Turbilhão de Amor", de Mike Nedo.

Em janeiro de 2003, o Museu Guggenheim de Arte Contemporânea de Bilbao, localizado no norte da Espanha, exibiu  uma pintura  sobre madeira  bregamente intitulada  “Turbilhão de Amor”.   Junto à obra um cartão com a identificação do autor: “Mike Nedo, nascido em Nairobi em 1954, tela de 1978”.  Ainda, uma placa afirmando que a tela era um presente de um tal de Annika Barbango para o Museu Guggenheim de Nova Iorque.  A obra mostrava  um coração vermelho se esvaindo em espiral e permaneceu na Sala  Pez por horas.

Até que alguém se deu conta de que havia na sala mais telas do que informava o catálogo.  E logo a verdade veio à tona: tratava-se de um engodo.

Sua divulgação correria o mundo. Em pouco tempo, todos saberiam que o artista Mike Nedo não existia. A tela havia sido pintada por um anônimo que a concluíra em poucos minutos, da pior forma possível.

Integrante do Mike Nedo.

À moda dos grupos terroristas que se responsabilizam por atentados, apresentou-se um grupo chamado  “Coletivo de Artes Mike Nedo”. Em vídeo, um homem usando máscara e gorro, informou que dois dos membros do grupo haviam entrado no museu  e fixado a tela sem que qualquer alarme de segurança fosse acionado.  O objetivo? Apresentar um “quadro-lixo”  para contestar a arte contemporânea  e seu valor, além das instituições como o Guggenheim. “Mike Nedo quer demonstrar duas coisas. Uma, que qualquer um pode ser um grande artista. Dois, que qualquer coisa em arte pode ser importante se difundida da forma adequada”, afirmaram os ativistas, que intitulavam seu grupo, segundo Jean-François Mattei [1], “O Anticristo da Arte”.

A administração do Guggenheim, apesar da publicidade gratuita, reagiu indignada. Afinal, a iniciativa do Mike Nedo arranhava sua credibilidade.



[1]MATTEI, Jean-François. A arte da insignificância. Disponível na internet em: http://w3.ufsm.br/revistaletras/artigos_r28_29/01_matie.pdf.

Desambiguação: Freud

Lindevania Martins

Sigmund Freud, o avó de Lucien.

Sigmund Freud é célebre. Como o são todos os pais: Hipócrates, o pai da medicina; os irmãos Lumiére, pais do cinema; Santos Dummont, pai da aviaçao.  Freud é o pai da psicanálise, pelo que tem um lugar especial na cultura ocidental. Nascido na Áustria em 1856, desenvolveu teorias polêmicas e originais que lançaram uma nova luz sobre o conhecimento do homem.

Mais Freud também é avó. Menos famoso, mais ainda célebre, é seu neto Lucien.  Construtor de uma formidável e sólida obra que, por outras vias, muito tem a dizer sobre o homem.

Enquanto  Sigmund Freud fez da escrita, e portanto,  do texto liner,  ferramenta e suporte para  a visibilização e divulgação  de suas idéias, Lucien Freud usou a imagem, e portanto, a superfície, o plano, para fazê-lo.


Minha mãe conta que minha primeira palavra foi 'alleine', que significa sozinho. Deixe-me sozinho". Lucien Freud.

As teorias do primeiro Freud  pretendiam explicitar o homem, realizando, como todas as teorias, a intermediação entre o homem e outro homem, entre um homem e ele mesmo.

As imagens também produzem tal intermediação que ocorre, porém, através de processo distinto. Afinal, o escrito leva à imagem e a imagem, por sua vez, remete a um texto.


Lucien Feud

"Girl With a Dog" , Lucien Feud, 1952.

Contemporâneo de Francis Bacon, de quem foi amigo íntimo, ele talvez seja  o último grande representante de uma linhagem específica de artistas plásticos: figurativistas.

O figurativismo, que  se caraceteriza pela representaçao do objeto em formas reconhecíveis: como vemos  o objeto; como sabemo que ele é, inclusive naquilo que o olho não capta; através da sua geoemetria.  A partir do século XX , o figurativismo entra em crise e se vê  dividindo espaço com novas formas de representação do real, de conceitos, do irreal.

Mais jovem que Paul Klee, Marcel Duchamp e Wassily Kandisnki,  que instauraram grandes rupturas na arte, e estando mesmo no entorno dessas rupturas, Lucien optou por seguir regras mais tradicionais.


Lucien Freud

"Large Interior", Lucien Freud, 1976.

Apesar do estilo tradicional,  a obra de Lucien Freud é extremamente pessoal, o que caracteriza todo grande artista.  Suas telas transmitem intensidade e ao mesmo tempo expõem a fragilidade dos corpos humanos. O uso de cores é preciso, as pinceladas fortes.

Lucien pintou amigos, familiares. Inclusive as filhas nuas. É acusado de enfeiar seus modelos, deixando a todos mais feios que na realidade, tendo feito isto inclusive consigo mesmo, em auto-retrato, bem como com a Rainha Elizabete, no ano 2000, cujas feições teriam sido brutalizadas. Um milionário teria destruído uma obra encomendada,  por ter se achado muito feio  no retrato de Lucien.


"Naked Girl Asleep", Lucien Freud, 1968. "O fim da pintura é este: captar para a arte uma experiência em carne viva". (Frank Auerbach)

A maioria das obras de Lucien Freud se encontram  nas mãos de colecionadores particulares. Ano passado, uma tela de Freud foi arrematad em leilão por 34 milhões de dólares, batendo o record de preço por artistas vivos.

Lucien nasceu em Berlim, em 1922. No entanto, cedo mudou-se para Londres. Vive lá até hoje. Adquirido a cidadania britânica em 1939. Fiel a seu estilo  artístico e ao temperamento reservado, continua trabalhando e produzindo, sendo reconhecido como um dos artistas mais importantes da atualidade.

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Para mais obras de Lucien Freud:

Museum Syndicate:  http://www.museumsyndicate.com/item.php?item=4526

Merda de Artista

Por Lindevania Martins

Merda de artista

O artista plástico Piero Manzoni organizando latas de conserva com suas próprias fezes.

Em 1917, Marcel Duchamp chocou o mundo das artes.

Retirou o  urinol do banheiro e o trouxe para o espaço principal de  uma exposição artística.   Inventou, assim, o “ready-made”: o uso de um objeto cotidiano e não-artístico como… artístico.

Ao utilizar elementes pré-existentes, afastando  seus usos comuns em prol de usos novos de acordo com  certos conceitos, Duchamp  também afastou a necessidade da técnica visto a desnecessidade de dominar a matéria-prima, ampliou os limites da arte e abriu a possibilidade, talvez, a qualquer um  de ser artista. Por outro lado, forçou uma nova postura do público de arte, confrontado com obras questionadoras,  provocativas, incômodas.

Em 1961, foi a vez  Piero Manzoni.

O italiano pensou, elaborou e apresentou uma obra inédita. Visceral e íntima por excelência, para a qual não deu o sangue, mas algo que poderia ser extraído do seu corpo com menos sacrifício e de forma mais natural.

Trata-se do trabalho “Merda d’Artista”: fezes de Manzoni enlatadas e vendidas  a peso pelo equivalente a 1 euro. Foram um sucesso. As 90 latas  de conserva se espalharam por vários museus pelo mundo, incluindo os respeitáveis Tate de Londres,  MoMa de Nova Iorque e o Georges Pompidou de Paris.  Nos rótulos das latas, podia-se ler: “Merda d’artista, numerata, firmata e conservata al naturale”. Alguns anos depois, algumas dessas latas explodiram, por conta de corrosão e da expansão dos gases.

FCS_Manzoni

“Vendo uma idéia. Uma idéia dentro de uma lata”. (Piero Manzoni)

A obra do italiano engrossou a discussão sobre os limites da arte. Dicussão esta que continua até hoje, com novos protagonistas engendrando com frequência rupturas pobres. Manzoni questionava as formas tradicionais da arte, seus objetivos e métodos.  Entre suas influências, são citados, além do próprio Marcel Duchamp, Jackson Pollock e Yves Klein. Embora tenha sido o primeiro artista plástico a realizar algo tão radical, poetas como Antonin Artaud já haviam tomado a “merda” como tema. Milan Kundera, em “A Insustentável Leveza Ser”, discorreu logamente sobre os hábitos fecais e banheiros em diversas partes do mundo. Por aqui, o brasileiro Rubem Fonseca escreveu o conto “Copromancia” cujo protagonista era obcecado por seus resíduos.

Manzoni também produziu outros trabalhos polêmicos.  Em 1958, vendeu balões preenchidos com ar de sua própria respiração: quem os adquirisse poderia respirar o “ar do artista”.  Em 1960, imprimiu suas expressões digitais como assinatura em ovos cozidos e convidou o público para comê-los. Toda a exposição, cujo nome era “Consumação da Arte”, foi devorada em 70 minutos. Em 1961, criou um pedestal chamado “Base Mágica”: quem nele subisse se transformaria em uma obra de arte. Chegou a pensar em encher garrafas com seu sangue e vendê-las.  Mas nesse caso, ficou só na intenção.

Enquanto alguns aplaudem Manzoni, outros dizem que esse ato de excreção, e não de criação, justifica a expressão de que a arte contemporânea é merda.  Literalmente. Quando tudo tem sentido, nada tem sentido. Quanto tudo tem valor, nada tem valor, pois tudo se torna intercambiável.

Enquanto o italiano fez trabalhos com seus resíduos corporais, o brasileiro Vik Muniz recria símbolos mais do que conhecidos da arte mundial, como a Monalisa de Da Vinci ou o Che Guevara de Andy Warhol, utilizando também materiais inusitados, embora muito mais caros que os utilizados por Manzano, como diamantes;  gostosos, como chocolate ou manteiga de amendoim; ou doces, como acúcar. Ou não tão asquerosos, como lixo. Aqui, o mais importante é o uso inusitado do que o que está sendo criado. Digo, recriado.  Não seria isso uma forma de perseguir originalidade por vias oblíquas?  Expressão de uma necessidade narcisística de instaurar “qualquer coisa” nova?

Em  2007, Manzoni teve uma de suas obras vendidas por mais de 1 milhão de libras.  Uma lata com fezes, hoje rara, alcançou há pouco anos o valor de 120 mil libras. O alto  preço de suas obras no mercado não desatualiza a pergunta que se faz desde os anos 60: será isso arte?

E por outro lado: será que Manzoni não foi levado a sério demais? Será que tudo que ele queria não era rir da arte, inclusive da própria?  Rir de nós?

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Página oficial do artista, falecido em 1963, com apenas 29 anos de idade:

http://www.pieromanzoni.org/index_it.htm