Sem Medo de Se Mostrar

Imagem: Asaf Hanuka

Imagem: Asaf Hanuka

Entre os que falam mal da internet e das rede sociais, um dos lugares comuns é acusar nossos contemporâneos de se exporem sem nenhum pudor. Num mundo em que cada vez mais se produzem e se popularizam as selfies, Catálogo de Indisciplinas mostra que está é uma tendência antiga.

O desejo de exposição e a própria exposição não são coisas apenas dos nossos dias. O que faltava, contudo, aos mais antigos, era tanto meios eficientes e baratos de produção das imagens de si mesmos quanto meios eficazes para difundir tais imagens. Assim, os pobres mortais que não dispunham de dinheiro para pagar um pintor habilidoso para  retratá-los, nem dispunham de talento para retratarem a si mesmos, tinham que se contentar em exercer sua vaidade e narcisismo na privacidade de seus lares, sem plateia, sem likes elogios, sozinhos diante do espelho. Exposição da própria imagem? Só para os nobres e ricos.

Uma vez que atualmente qualquer um pode ousar se expor das formas mais íntimas possíveis, tendo certeza que terá uma certa audiência, logo se vê que o surgimento de tecnologias como a fotografia digital e a internet democratizaram os meios de produção e difusão de imagens.

Fora a ausência de pudor – ou absoluta falta de noção, uma outra acusação que aqueles que publicam suas fotos  todos os dias na internet,  aproveitando as benesses da tecnologia, vêem levantada contra si, é a de que são hipócritas que mentem sobre suas vidas e identidades, simulando propositalmente uma felicidade e uma beleza inexistente. É óbvio que os perfis no Facebook, por exemplo, são construídos e elaborados, cada vez escolhendo os ângulos que deseja apresentar. Mas quanto há de invenção na elaboração  de si mesmo?

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Quando nos mostramos, seja em selfies com um olho aberto e outro fechado, fazendo carão ou fingindo ser malvado/malvada, não mostramos somente aquilo que somos, mas também nossas projeções: aquilo que gostaríamos de ser ou como gostaríamos de ser percebidos pela larga audiência que imaginamos ter. E isso raramente corresponde à realidade imaginada por quem observa, gerando um certo descompasso entre as duas formas de percepção.  Além disso, todos temos várias facetas  e o modo como escolhemos para nos representar é apenas um ou alguns entre todos os possíveis.

O filósofo Roland Barthes  dizia que quando posava para fotos mudava: se preparava para a pose e fabricava assim um outro corpo. Invocando essa artificialidade registrada  pelo francês, lembramos de um post já publicado aqui em que se discutia se a fotografia poderia mentir.

Em maior ou menor grau, quase nunca os autorretratos são objetivos e correspondem à uma realidade que pode ser facilmente mensurada.  E vamos combinar: pode ser divertido brincar/manipular a própria imagem. Afinal, por acaso se trata daquelas insossas fotografias para documento? E qual o sentido de se agarrar uma realidade nua e crua, facilmente reproduzida pelos espelhos? Como diz Arthur Danto, “há coisas que podemos ver nos espelhos mas que não podemos ver sem ele, notadamente nós mesmos”. E se ao espelho muitas vezes já enxergamos nossa imagem idealizada, porque não transportar essa imagem idealizada para os selfies que serão postados na internet?

Muito antes de nós, vários artistas consagrados se dedicaram a manipular suas imagens. Não com a mesma intenção com a qual hoje fazemos essas coisas: não para provocar inveja no vizinho, simular felicidade, inflar nosso ego, etc. Os autorretratos eram exercícios de autoendimento, instrumentos de autoconhecimento, elaboração de identidades. Por isso, sem medo de se mostrar.

Vejamos como se saíram alguns artistas que, muito antes de nós, já estavam acostumados a posar para  selfies autorretratos.

– NA PINTURA

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Como não vemos a nós mesmos, é atribuído ao desenvolvimento da indústria do vidro em Veneza, que permitiu o refinamento das técnicas de fabricação de espelhos, o impulso para a fixação do gênero do autorretrato, ainda no śeculo XV. E aqui é interessante ver como a arte e a cultura se relacionam com o surgimento e a melhora dos objetos técnicos.
Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Este deve ser o recordista masculino. É dito do famoso Rembrandt (1601-1669) que o mesmo pintou mais de cem autorretratos, cobrindo um longo período, de sua juventude até á velhice. Devia matar de inveja os outros adeptos de “selfies” da sua época. Curioso que Rembrandt era baixinho, mas em seus autorretratos, de estilo realista, sempre se pintava como um homem mais alto. Contudo, são telas são um exercício de transformação: são imagens que se desgastam com o tempo, rumo ao declínio e envelhecimento.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

O holandês Vicent Van Gogh (1853-1890) foi outro que não economizou tintas para representar a si mesmo, registrando inclusive não apenas um, mas DOIS autorretratos com a orelha enfaixada, após um episódio não muito bem esclarecido: ou um surto de depressão  o levou a cortar fora um pedaço da dita cuja ou ela foi cortada por Gauguin, numa briga entre os dois amigos. Segundo a Wikipedia, Van Gogh pintou trinta e cinco autorretratos entre os anos de 1886 e 1889.

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Provável campeã entre as mulheres, Frida Kahlo (1907-1954), nossa musa contemporânea,  pintou várias imagens de si mesma, nas quais destacava sua história e seu contexto emocional, especialmente as relações dolorosas com seu próprio corpo após um acidente de trânsito e as relações tumultuosas com o companheiro Diego Rivera. As pinturas também revelam inquietações quanto à sua origem mestiça: pai alemão e mãe mexicana, nas quais Kahlo com frequência reforçava seu sentimento de pertencimento ao México. Seriam cerca de 55 os autorretratos pintados, correspondendo a cerca de um terço de sua obra.

As duas Fridas (1939)

As duas Fridas (1939)

E encontramos Frida de cabelos longos, de cabelos curtos, soltos, presos, com roupa, sem roupa, sem mãos, sem coração, como feto, como filha, como esposa, vestida à moda européia, vestida com roupas folclóricas, envolta em lágrimas e sem lágrimas, duplicada. Em seu diário, Frida escreveu: ”Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”

  – NA FOTOGRAFIA

A difusão da fotografia tornou bem mais fácil e barata a execução de um autorretrato quanto comparada com a técnica da pintura. Afinal, não havia mais necessidade de se preocupar com tela, tinta, pigmento, perspectiva, proporção, etc. Mas  o interessado ainda tinha que se haver com as técnicas fotográficas, se preocupar com luz, foto, diafragma, entre outros, bem como com a a revelação do filme e o dinheiro para pagá-la.

Warhol: autorretratao vestido de mulher

Warhol: autorretratao vestido de mulher, no começo dos anos 80.

Célebre por haver vaticinado que no futuro todos seriam famosos por quinze minutos, além da pop arte, Andy Warhol  (1928-1987) também era um narcisista famoso. Entre suas obras, se destacam muitos autorretratos: em forma de pintura, fotografia ou serigrafia. Alguns demonstram certa ambiguidade sexual. Em meados de 2014, um dos seus autorretratos foi arrematado num leilão na Suíça por 105 milhões de dólares, na Art Basel, uma das feiras mais importantes de arte contemporânea.

Autorretrato: Cindy Sherman

Autorretrato: Cindy Sherman

No trabalho da fotógrafa americana Cindy Sherman (1954-), seu próprio corpo é o elemento essencial sobre o qual cria suas imagens. Contudo, afirma que as imagens de si que produz não são autorretratos, mas mera encenação, pois “Não somos aquilo que pensamos ser”. Negando qualquer possibilidade de uma identidade estável, Sherman sai de cena para deixar aflorar personagens através dos quais pretende discutir o modo de representação das mulheres: os estereótipos sobre o feminino.

Mas não nos iludamos.

Embora algumas vezes possa parecer, esses autorretratos não se assemelham aos nossos, repetitivos, monotonamente felizes e domésticos. E é por isso mesmo que os nossos não são considerados obras de arte. Contudo, na próxima vez que alguém nos elogiar por sermos fotogênicos (elogio mesmo ou ofensa? fotogênico é feio que fica engraçadinho em fotos)  e perguntar porque postamos tantos selfies,  principalmente aqueles diante do espelho fazendo aquelas bocas tortas, podemos dizer que estamos nos espelhando em Van Gogh, Frida Kahlo, Warhol, Sherman e Rembrandt, entre outros poderosos do mesmo naipe.

Se eles gastaram horas e dinheiro para construir retratos algumas vezes ousados de si mesmos, porque nós, que de graça, vamos gastar apenas um mísero segundo do nosso precioso  tempo apertando a câmara do nosso celular, não faríamos o mesmo?

selfie

Até a próxima, pessoal. Bons selfies.

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Somos Todos Ciborgues

O popular anime “Ghost in the Shell” é povoado por ciborgues: seres humanos que possuem partes mecânicas e/ou eletrônicas implantadas em seus corpos.  Enfim, híbridos. Através desses implantes, os ciborgues conseguem ultrapassar os limites do corpo humano, tendo aumentadas tanto suas capacidades físicas quanto intelectuais.

Ghost in The Shell

Ciborgues sempre permearam os filmes de ficção científica. Pareciam coisa de um futuro distante, apenas imaginável. No entanto, pensadores como Donna Haraway e Andy Clark  sustentam que já somos ciborgues. Afinal, próteses, equipamentos e dispositivos que  interferem, corrigem, aperfeiçoam e embelezam o corpo humano há tempos vêm sendo usados por nós.  Técnicas diversas têm nos garantido mais saúde e uma vida mais longa. Em cirurgias de cataratas, são implantados cristalinos artificiais depois dos naturais serem removidos. Lentes de contato são próteses oculares artificiais.

E quantos já usaram ou usam aparelhos ortondônticos ou óculos de grau? Quem já não viu uma pessoa com pinos na perna após um acidente? Quantos não usam marcapassos, aparelhos eletrônicos criados na década de 60 e implantados no corpo humano, cuja finalidade é regular as batidas de corações defeituosos? Aliás, o primeiro implante de marcapasso aconteceu em 1958, realizado pelo cardiologista sueco Ake Senning.

Segundo Haraway, o ciborgue oferece uma possibilidade quebra das limitações tradicionais de gênero, feminismo e política,  ao se mover além de dualismo.  Por não ser homem, nem máquina, masculino, nem feminino, o ciborgue pôe por terra toda a questão identitária.

Os pesquisadores Gray, Steven Mentor e Figueroa-Serriera consideram como ciborgue qualquer possuidor de órgão, membro ou suplementeo artificial, incluindo aqueles que fizeram usos de substãncias imunes, como vacinas, e que fazem usos de psicofarmalogia para pensar, se comportar ou se sentir melhor. Outros organismo, através de avanços tecnológicos são utilizados com os mesmos objetivos.


Cláudia Mitchell com sua prótese

Em 2006, Claudia Mitchell, uma mariner americana que havia perdido o braço esquerdo  em um acidente de moto, teve implantada uma prótese biônica que a mesma comanda apenas pensando no tipo de movimento que gostaria de realizar com aquele braço, como fazia com o antigo braço orgânico.

O filósofo Andy Clark,  através da Teoria da Mente Estendida,  defende que os seres humanos são naturalmente ciborgues, independente de portarem ou não implantes, chips ou terem se submetido a transplantes. Isso se deve ao fato dos humanos incorporarem, desde sempre, ferramentas que ampliam sua mente, assim compreendida como corpo, cérebro e mundo. Uma das ferramentas de maior destaque seria a fala, que esconderia sob uma aparência de naturalidade, artifícios que a fizeram roubar parte das funções dos órgãos de respiração e de deglutição. O uso dessas ferramentas faz com que a mente humana se expanda e se transforme numa mente estendida.

Andy Clark



Anonymous: a internet contra-ataca!

O Megaupload é um maiores sites de compartilhamento de arquivos do mundo. Ou era. Foi fechado nesta semana, após investigação e ação repressiva do FBI, que declarou que o Megaupload fazia parte de uma organização criminosa  mundial de pirataria na internet.

A ação do FBI contra o Megaupload e outros sites  ocorre justamente após a onda  de protestos mundiais contra projetos de lei antipirataria, que restringem a liberdade na internet: os famigerados SOPA e PIPA. Os protestos fizeram com quem vários políticos retirassem o apoio ao Projeto e até mesmo Obama se pronunciasse contra as leis.  A ação do FBI parece afirmar que a repressão não se tornará menor na ausência dessas leis: terão muito mais trabalho, no entanto, continuarão a perseguir os que estão ligados ao compartilhamento.

O caso, porém, também rendeu dor de cabeça para os ianques, que não se limitou às alegações frequentemente inócuas de que tais ações seriam um abuso contra os direitos democráticos na internet.  Anonymous, mais uma vez, entrou em cena. E assim,  como represália ao fechamento do Megaupload, se iniciou um dos maiores ataques do grupo, com mais de vinte e cinco mil computadores atuando através de DDoS, cujos primeiros alvos foram o Departamento de Justiça norte-americano e entidades representativas das indústrias de música e cinema.

DDoS é a sigla para Distribuited Denial of Service. Consiste em bloquear ou sobrecarregar um site através de um grande número de acessos simultâneos que irão gerar um fluxo de  informações igualmente grande ao servidor que, não podendo responder a todos os pedidos, é totalmente bloqueado. Imaginem o site da Receita Federal no último dia da entrega da declaração: todo mundo acessando e por causa dessa grande demanda  o sistema fica lento, quase parando. O DDoS é bem pior, o site fica tão sobrecarregado que pára e sai do ar. É um protesto – semelhante ao que ocorre quando as pessoas vão para a rua com cartazes e impedem a circulação normal de pessoas e veículos. A diferença é que com o DDoS os manifestantes não se expõem ao gás lacrimogênio e aos cassetetes da polícia. Não se rouba nada, não se perde nada. Quando o protesto acaba, o site volta a sua normalidade.

Em artigo publicado nesta semana, na revista Triplecanopy, antropóloga Gabriela Coleman diz que o Anonymous é  por natureza e intenção difícil de definir, pois é um nome utilizado por vários grupos de hackers, ativistas, defensores de direitos humanos, geeks,  etc.; um conjunto de idéias e ideais adotados por estas pessoas e centrados no anonimato;  uma bandeira para ações coletivas on line e no mundo real que vão desde práticas ousadas, mas triviais, ao apoio tecnológico oferecido ao revolucionários árabes, em práticas ora pacíficas e legais,  às vezes ilícitas,  mas frequentemente numa grande área cinza no que tange à moralidade e legalidade.

A antropóloga começou a estudar Anonymous em 2008, quando o mesmo lançou um ataque contra a Igreja da Cientologia. Afirma que o grupo não possui uma filosofia consistente ou um programa político, apesar do compromisso com o anonimato e o livre fluxo de informação, sendo marcado ainda por um coletivo que possui o LOL, a brincadeira, a travessura em diversos níveis,  tímida ou macabra, tanto como um ethos quanto como um objetivo.  As ações do Anonymous, designadas  por ela de irreverentes, frequentemente destrutivas e ocasionalmente vingativas, ofereceria uma lição do que Ernst Bloch chamou de “princípio da esperança” ao trabalhar concomitante como filósofo e arqueólogo, trazendo à tona mensagens esquecidas em canções, poemas e rituais, demonstrando que o desejo de um mundo melhor, independente da época, sempre esteve em nosso meio.

Fazendo um paralelo entre as regras de redes sociais como Facebook,  que exigem que lá se esteja com o perfil verdadeiro, em nome de um alegada transparência, e o anonimato característico do Anonymous, Coleman afirma: “Para os que usam a máscara de Guy Fawks, já associada com o Anonymous, é esta – e não a comercial transparência do Facebook,  a promessa da internet, que implica negociações entre o indivíduo e o coletivo”.

Para saber mais:

COLEMAN, Gabriela. “Our Weirdness Is Free”.  Disponível em: http://canopycanopycanopy.com/15/our_weirdness_is_free. Acessado em: 19.01.12.

E quem quiser contactar o Anonymous no Twitter:

twitter/com/anonymousIRC

Miragem Mecânica

Nascido em 1961 no Japão, Kazuhiko Nakamura é um dos grandes nomes da arte digital.

No seu site, Mechanical Mirage, afirma que suas influências vêm da cibercultura e do surrealismo. Admirador das obras de H. R. Giger e Ernst Fuchs, suas imagens trazem híbridos: misturas de homem e máquina.


“Automation”

O artista explica que suas imagens constituem uma espécie de “memória história”: carne e máquina combinadas, igualmente em ruínas no futuro.



“Requiem for Industry”

Nakamura não vive de arte digital. Ele é designer gráfico e produz imagens como as que estão aqui reproduzidas em seu tempo livre. Como o mesmo diz, o computador não realiza facilmente o que  o artista programa. Assim, Nakamura despende muito tempo efetuando correções nas imagens até obter o efeito desejado.


“Bug Chair”

Falando sobre o futuro, Nakamura, em entrevista à Mary’s Page, afirma que, apostando na evolução do CG Software,  acredita na expansão  da arte digital e mesmo numa expressão em grande escala: vastos hologramas.


“Shell in the Darkness”

Influência no Twitter

Nesta semana, o New York Times (clique aqui para ler) publicou uma matéria revelando que entre as dez pessoas mais influentes do Twitter, no mundo, estão o apresentador Luciano Huck e o comediante Rafinha Bastos – ambos brasileiros.

Diz o jornal que não causa surpresa que tais nomes “não familares” estejam entre os mais influentes, considerando que, ao lado dos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, o Brasil é um dos países em que o microblog possui os mais altos índices de popularidade.

Para chegar aos nomes dos dez mais influentes no Twitter, o New York Times recorreu ao Twitalyzer: uma firma de pesquisa independente  que conta o número de vezes que o nome da pessoa é mencionada por outros usuários, incluindo retweets, criando um  Índice de Influência. A idéia do Índice de Influência não seria simplesmente mensurar o quanto a pessoa está “falando” no Twitter, mas o quanto outros usuários são afetados por aquela comunicação. Assim, embora Rafinha Bastos nem apareça entre as dez pessoas com maior número de seguidores, é o primeiro da lista quando se trata de influência, batendo de longe Lady Gaga, campeã mundial de seguidores.

Como diz um dos fundadores do Twitter, Evan Williams, alguém pode ter milhões de seguidores, mas não postar com frequência, enquanto outro, com apenas dezenas de seguidores, pode ser um postador frequente, cujas mensagens são amplificadas por outros usuários.

Vale lembrar que o Twitalyzer já existe há algum tempo e que não é a primeira vez que um brasileiro aparece entre os mais influentes. Em ranking divulgado em abril de 2010 (clique aqui para ver), por exemplo, o primeiro lugar era de Paulo Coelho.



O Twitalyzer possui uma página na internet que permite a qualquer mortal calcular seu próprio impacto no twitter.  O índice combina influência, número de seguidores e frequência de mensagens escritas. É o simpático robozinho azul acima que conduz as buscas.

Mas o Twitalyzer não é a única ferramenta na internet que permite medir desempenho no Twitter. O PeerIndex , o Klout e o TweetLevel também fazem propostas semelhantes. Cada um possui um ranking diferente e, nestes, brasileiros não aparecem tanto.

Se ficou curioso e quer saber a quantas anda sua influência no twitter, clique aqui. Quando a página abrir, coloque seu nome do Twitter no campo reservado para buscas – ou o nome que quer bisbilhotar , e dê enter.

Boa sorte!


Cibercultura e Ciberpunk

Os vídeos abaixo, divididos em quatro pedaços,  mostram uma mesma e única entrevista concedida por Adriana Amaral, doutora em comunicação pela PUC e autora do livro “Visões  Perigosas: Uma Arque-genealogia do Ciberpunk”, ao Programa Cyber Cubo, do curso de Comunicação Social da Feevale.

Na pauta, cibercultura e ciberpunk.

O Cyberpunk, como afirma Adriana Amaral, é um elemento estético da cibercultura, presente desde o seu nascimento,  cujo elemento central  é a relação do homem com a máquina e que permeia diversas mídias e até a vida cotidiana. Começa no anos 80 como movimento literário, um subgênero da ficção científica, e a partir daí desdobra-se no cinema,  nos games, na moda, na música, nos quadrinhos, etc.


No primeiro vídeo, é abordada a questão das ciberidentidades. Ressalta-se que as pessoas têm acumulado experiências na vida real para abastecer o  perfil on-line. Adriana Amaral afirma que sites de relacionamento, como Orkut e Facebook, permitem que o usuário reconstrua sua identidade, mostrando tanto que é quanto aquilo que quer ser, num movimento que não se encontra desconectado da forma como a identidade é construída na vida real. Ocorre que as fragmentações carregadas por cada um, que se mostra em diferentes facetas ou modo de ser: aluno, profissional, pai, vizinho, amigo, etc.,  seriam potencializadas pela internet e exibidas  de forma universal.

Estes mesmos espaços das ciberindentidades também atuariam alterando a noção de memória, que passaria a ser seria fixada através de fotos expostas e compartilhadas na rede, entre outras formas.

Passando a tratar do ciberpunk, é estabelecida como uma de suas temáticas centrais a distopia – uma visão de um futuro decadente, com uma multiplicidade de estilos de vidas característica das grandes cidades, onde a máquina domina o homem num cenário em que ambos se encontram intimamente relacionados.  Adriana aponta que toda a idéia de cultura hacker,  fórum do software livre, redes  P2P,  compartilhamento em rede, que não são exatamente coisas estéticas, bebem na fonte do ciberpunk.


No segundo bloco, Adriana continua a falar sobre o cyberpunk e suas representações na cultura pop. A  partir do entendimento de que o ciberpunk herdeu muitas características do romantismo gótico, menciona que a obra Frankestein (1818),  de Mary Shelley, é considerada a fundadora da ficção científica, enquanto Neuromancer (1984), de William Gibson, seria a obra fundadora do cyberpunk na literatura, que trouxe tal conceito.  Menciona escritores atuais que exercitam o tema, como o canadense Cory Doctorov.

É apresentado como principal meio de popularização do ciberpunk o cinema. O filme Blade Runner (1982) é apontado como sendo pré-ciberpunk, mas como definidor do estilo, na esteira do qual surgiram outros longas, como  Sin City e Dark City. No entanto, são os animes que são ressaltados: “Tem muitos animes japoneses, porque hoje o grande foco ciberpunk é no Japão. É o lugar mais ciberpunk do mundo, até em termos de cultura de rua, no vestir, na moda, etc. Então a gente tem aí o Fantasma do Futuro, que é o Ghost in The Shell, que o Spielberg agora vai dirigir esse ano,  que já tinha em anime. E o Akira que eu vi que Leonardo di Caprio vai produzir”.

A pesquisadora ainda fala sobre ciberpunk nos games, apontando o cinema como o grande difusor do gênero. Como destaque na literatura, além de William Gibson, aponta Willian K. Dick que, apesar de não ser da geração ciberpunk, teve vários trabalhos adaptados com sucesso para o estilo.  Ressalta que, enquanto movimento literário, o ciberpunk acabou nos anos 80,  permanecendo a disseminação da sua estética: atitudes e comportamentos.


A música no ciberpunk é o tema do terceiro vídeo. O ciberpunk é diferenciado do punk rock, sendo ressaltado que o ciberpunk foi um movimento essencialmente literário, influenciado  pela atitude “faça você mesmo” do punk rock. Por sua vez,  algumas bandas musicais se utilizaram de elementos do ciberpunk, como a banda canadense Front Line Assembly, que teria  declarado tal  influência publicamente em um documentário.

Apesar de mencionar o Front Line Assembly, Adriana Amaral ressalta o pioneirismo dos integrantes da  Kraftwerk, que seriam “os pioneiros de tudo mesmo”. Trata-se a Kraftwerk de uma banda alemã, fundada na década de 70, que fazia e tocava música através de sintetizadores,  usando letras mínimas e focadas na vida urbana e na tecnologia. Foi responsável pela popularização da música eletrônica. No vídeo, a entrevistada ainda menciona o álbum do Kraftwerk chamado “The Man Machine” (O Homem Máquina), de 1978. Cita ainda outras bandas de inspiração ciberpunk, como o Prodigy e o Nine Inch Nails – bandas de temáticas mais soturnas  e híbridas entre rock e eletrônica.

Como reflexo da cultura ciberpunk, são citadas as defesas do Creative Commons e do download,  que se constituem formas de ativismo digital onde se encontra fortemente presente o elemento tecnológico. Também são mencionadas as organizações a partir de flah mobs e  smart mobs, que usam a tecnologia de uma forma que não tinha sido pensada antes.


Por fim, o último bloco trata de moda, comportamento e ciberpunk no Brasil. Menciona os estereótipos quanto ao modo de vestir: couro,  jaqueta, corte moicano, visuais fetichistas, roupas de vinil, mas fala também de uma “outra moda”,  a neo vitoriana, que mistura elementos românticos: roupas cheias de babado, golas enorme, I Pod, piercing, tatuagem, combinando elementos antigos e atuais.

Adriana Amaral traça uma relação entre ciberpunk e religião, usando como exemplo  o filme Matrix, onde personagens sofrem uma desmaterialização, deixando o próprio corpo para entrar na rede: a separação entre mente e espírito. Trata-se  de uma idéia antiga que pode ser localizada desde os gregos, passando por Descartes, até nossos dias, quando a divindade passa a ser representada pela máquina e pela tecnologia.

Todos os desejos humanos seriam transferidos para a máquina: não morrer; ficar jovem para sempre; transformar o corpo através de cirurgia plástica, como um implante de silicone; e até mesmo, num extremo, realizar uma correção do corpo através uso de óculos – elementos de ciborgização.

Por fim, o ciberpunk é definido em três palavras chaves:  distopia, relação homem-máquina; e obsolescência do homem.

Produção em Cadeia

Lindevania Martins

“ Produção em Cadeia”,  documentário realizado em 2010 por João Mello, Victor Sousa e Maurício Kenji, como TCC para o curso de Jornalismo da PUC-São Paulo, trata do universo musical: compartilhamento de musica na rede, indústria fonográfica, espaço para novos artistas, acusações de pirataria, direitos autorais, etc.

Quando perguntados por que motivo escolheram o tema para o documentário, Victor Marinho vai direto ao ponto, em Altnewspaper: “ Acho que o motivo principal para escolher esse tema é o fato de fazer parte dessa geração que desde cedo viveu a internet. Eu sempre baixei música, desde a época do Napster e do Áudio Galaxy, e com certeza isso moldou minha formação cultural” .

Maurício Kenji continua, afirmando que esse é um assunto que envolve diretamente o ambiente cultural, uma vez que  valores e  princípios construídos pela industria fonográfica, ao invés de promover a cultura, a limitam, não dando margem àqueles que não se submetem ao sistema construído para alcançar o sucesso, fazendo com que a mercantilização da música esconda o fato de que esta também é cultura.

João Mello diz que baixar músicas sempre foi uma coisa natural: “…as pessoas sempre se esforçaram pra mostrar uma música legal pra um amigo, essa troca sempre rolou. O que a internet fez foi facilitar e potencializar essa troca, criando um acervo musical infinito e livre para todos. A idéia do filme foi reunir depoimentos de pessoas que viveram tanto a fase analógica quanto as que vivem a fase digital do acesso à música”.

Aliás, o vídeo mostra como o uso de fitas cassetes para compartilhar música parecia algo perfeitamente natural, sem que ninguém acusasse seus usuários de criminosos ou imorais prontos para serem lançados nas grades da prisão ou no fogo do inferno. O sociólogo Sérgio Amadeu nota isso no documentário: “E sempre as pessoas compartilharam fitas cassetes. Sempre gravaram discos, fizeram suas próprias trilhas, escolhiam uma música de um, duas músicas de outro, montavam, compartilhavam e tal.  Só que isso não era relevante, não era entendido como um grande problema” .

No vídeo, entre outros, aparecem entrevistas com donos de lojas de discos, cientistas sociais, artistas mais antigos e das novas gerações. Entre estes, a cantora e compositora Lulina, recifense radicada em são Paulo, que declara que sem a internet não teria nem mesmo lançado um disco. Ouça as músicas de Lulina aqui.

Paulo Marcondes, do blog Hominis Canidae ( para acessá-lo, clique aqui), que oferece músicas para download, afirma que há dias em que realiza o upload de vinte CDs e passa o dia inteiro fazendo isso. Diz que faz isso porque acredita que qualquer tipo de cultura deve ser compartilhada, pelo que não se sente nenhum pouco criminoso por compartilhar links em seu blog. Sérgio Amadeu concorda: “O que o digital fez foi devolver essa criação para o universo comum da cultura. E aí por isso que quando você separa a música do vinil, a imagem da película, o texto do papel, você põe tudo no digital, você consegue fazer nitidamente o que a cultura promove, que é a fusão de tudo. A cultura sempre foi recombinante. É um conjunto de práticas recombinantes”.

Quando Márcia Tosta Dias, autora do livro “Os Donos da Voz: indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura”,  aparece no documentário apontando que desde o ano de 2002 houve uma queda abrupta das vendas da indústria fonográfica, Sérgio Amadeu responde que tal queda é  gerada pela diversidade, pela quantidade de opções disponíveis para os apreciadores de música.

O cantor e compositor Valdir Fonseca lembra que os direitos autorais no mundo inteiro estão relacionados ao sucesso. De fato, o documentário mostra propagandas de entidades de classe, apresentadas por Ivan Lins, Alcione, Zezé Mota, Sergio Reis e Dudu Nobre defendendo o direito autoral. Este último pede que o consumidor pague o direito autoral por suas músicas porque seria esta a herança que deixaria para seus filhos. Falando em seguida, o rapper G.O.G declara que sua pretensão é não deixar esse tipo de herança para seus filhos, mas o ensinamento do certo, do respeito as pessoas e a diversidade, afirmando que dá  um cunho de domínio publico ao seu trabalho: “ Ao meu entender, o meu processo de criação começa na observação.  E quando eu observo, eu busco algo que não é meu para a letra. Então, na realidade, eu já estou usurpando, entre aspas, de alguém, alguma coisa que de repente é dela. E eu não conto” . E termina brilhantemente: “Temos que alimentar a cadeia produtiva. E não colocar a produção na cadeia”.

Por fim, encerramos o post com uma das falas do Sergio Amadeu no documentário, tratando do direito autoral: “É uma maquina arrecadadora do mundo analógico. E no mundo analógico ela já era ruim. Porque era ruim? Porque  ela trabalha com critérios que não são objetivos nem claros. E aí é óbvio, você pega alguns grandes artistas que se beneficiam com o ECAD e eles vão defender. Mas será que a musica e a cultura brasileira se resumem a esses artistas?”

A propósito, o documentário foi liberado pelos autores para download: megaupload.com/​?d=12NP1UWA