Sem Medo de Se Mostrar

Imagem: Asaf Hanuka

Imagem: Asaf Hanuka

Entre os que falam mal da internet e das rede sociais, um dos lugares comuns é acusar nossos contemporâneos de se exporem sem nenhum pudor. Num mundo em que cada vez mais se produzem e se popularizam as selfies, Catálogo de Indisciplinas mostra que está é uma tendência antiga.

O desejo de exposição e a própria exposição não são coisas apenas dos nossos dias. O que faltava, contudo, aos mais antigos, era tanto meios eficientes e baratos de produção das imagens de si mesmos quanto meios eficazes para difundir tais imagens. Assim, os pobres mortais que não dispunham de dinheiro para pagar um pintor habilidoso para  retratá-los, nem dispunham de talento para retratarem a si mesmos, tinham que se contentar em exercer sua vaidade e narcisismo na privacidade de seus lares, sem plateia, sem likes elogios, sozinhos diante do espelho. Exposição da própria imagem? Só para os nobres e ricos.

Uma vez que atualmente qualquer um pode ousar se expor das formas mais íntimas possíveis, tendo certeza que terá uma certa audiência, logo se vê que o surgimento de tecnologias como a fotografia digital e a internet democratizaram os meios de produção e difusão de imagens.

Fora a ausência de pudor – ou absoluta falta de noção, uma outra acusação que aqueles que publicam suas fotos  todos os dias na internet,  aproveitando as benesses da tecnologia, vêem levantada contra si, é a de que são hipócritas que mentem sobre suas vidas e identidades, simulando propositalmente uma felicidade e uma beleza inexistente. É óbvio que os perfis no Facebook, por exemplo, são construídos e elaborados, cada vez escolhendo os ângulos que deseja apresentar. Mas quanto há de invenção na elaboração  de si mesmo?

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Auto-retrato Triplo – Norman Rockwell, de 1960, note-se que ele não se retrata com óculos.

Quando nos mostramos, seja em selfies com um olho aberto e outro fechado, fazendo carão ou fingindo ser malvado/malvada, não mostramos somente aquilo que somos, mas também nossas projeções: aquilo que gostaríamos de ser ou como gostaríamos de ser percebidos pela larga audiência que imaginamos ter. E isso raramente corresponde à realidade imaginada por quem observa, gerando um certo descompasso entre as duas formas de percepção.  Além disso, todos temos várias facetas  e o modo como escolhemos para nos representar é apenas um ou alguns entre todos os possíveis.

O filósofo Roland Barthes  dizia que quando posava para fotos mudava: se preparava para a pose e fabricava assim um outro corpo. Invocando essa artificialidade registrada  pelo francês, lembramos de um post já publicado aqui em que se discutia se a fotografia poderia mentir.

Em maior ou menor grau, quase nunca os autorretratos são objetivos e correspondem à uma realidade que pode ser facilmente mensurada.  E vamos combinar: pode ser divertido brincar/manipular a própria imagem. Afinal, por acaso se trata daquelas insossas fotografias para documento? E qual o sentido de se agarrar uma realidade nua e crua, facilmente reproduzida pelos espelhos? Como diz Arthur Danto, “há coisas que podemos ver nos espelhos mas que não podemos ver sem ele, notadamente nós mesmos”. E se ao espelho muitas vezes já enxergamos nossa imagem idealizada, porque não transportar essa imagem idealizada para os selfies que serão postados na internet?

Muito antes de nós, vários artistas consagrados se dedicaram a manipular suas imagens. Não com a mesma intenção com a qual hoje fazemos essas coisas: não para provocar inveja no vizinho, simular felicidade, inflar nosso ego, etc. Os autorretratos eram exercícios de autoendimento, instrumentos de autoconhecimento, elaboração de identidades. Por isso, sem medo de se mostrar.

Vejamos como se saíram alguns artistas que, muito antes de nós, já estavam acostumados a posar para  selfies autorretratos.

– NA PINTURA

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Johannes Gumpp (1646), autorretrato ao espelho.

Como não vemos a nós mesmos, é atribuído ao desenvolvimento da indústria do vidro em Veneza, que permitiu o refinamento das técnicas de fabricação de espelhos, o impulso para a fixação do gênero do autorretrato, ainda no śeculo XV. E aqui é interessante ver como a arte e a cultura se relacionam com o surgimento e a melhora dos objetos técnicos.
Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Rembrandt: mais de cem autorretratos.

Este deve ser o recordista masculino. É dito do famoso Rembrandt (1601-1669) que o mesmo pintou mais de cem autorretratos, cobrindo um longo período, de sua juventude até á velhice. Devia matar de inveja os outros adeptos de “selfies” da sua época. Curioso que Rembrandt era baixinho, mas em seus autorretratos, de estilo realista, sempre se pintava como um homem mais alto. Contudo, são telas são um exercício de transformação: são imagens que se desgastam com o tempo, rumo ao declínio e envelhecimento.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

Van Gogh em um dos seus autorretratos com a orelha enfaixada.

O holandês Vicent Van Gogh (1853-1890) foi outro que não economizou tintas para representar a si mesmo, registrando inclusive não apenas um, mas DOIS autorretratos com a orelha enfaixada, após um episódio não muito bem esclarecido: ou um surto de depressão  o levou a cortar fora um pedaço da dita cuja ou ela foi cortada por Gauguin, numa briga entre os dois amigos. Segundo a Wikipedia, Van Gogh pintou trinta e cinco autorretratos entre os anos de 1886 e 1889.

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Frida Kahlo – Auto retrato com cabelo liso

Provável campeã entre as mulheres, Frida Kahlo (1907-1954), nossa musa contemporânea,  pintou várias imagens de si mesma, nas quais destacava sua história e seu contexto emocional, especialmente as relações dolorosas com seu próprio corpo após um acidente de trânsito e as relações tumultuosas com o companheiro Diego Rivera. As pinturas também revelam inquietações quanto à sua origem mestiça: pai alemão e mãe mexicana, nas quais Kahlo com frequência reforçava seu sentimento de pertencimento ao México. Seriam cerca de 55 os autorretratos pintados, correspondendo a cerca de um terço de sua obra.

As duas Fridas (1939)

As duas Fridas (1939)

E encontramos Frida de cabelos longos, de cabelos curtos, soltos, presos, com roupa, sem roupa, sem mãos, sem coração, como feto, como filha, como esposa, vestida à moda européia, vestida com roupas folclóricas, envolta em lágrimas e sem lágrimas, duplicada. Em seu diário, Frida escreveu: ”Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor.”

  – NA FOTOGRAFIA

A difusão da fotografia tornou bem mais fácil e barata a execução de um autorretrato quanto comparada com a técnica da pintura. Afinal, não havia mais necessidade de se preocupar com tela, tinta, pigmento, perspectiva, proporção, etc. Mas  o interessado ainda tinha que se haver com as técnicas fotográficas, se preocupar com luz, foto, diafragma, entre outros, bem como com a a revelação do filme e o dinheiro para pagá-la.

Warhol: autorretratao vestido de mulher

Warhol: autorretratao vestido de mulher, no começo dos anos 80.

Célebre por haver vaticinado que no futuro todos seriam famosos por quinze minutos, além da pop arte, Andy Warhol  (1928-1987) também era um narcisista famoso. Entre suas obras, se destacam muitos autorretratos: em forma de pintura, fotografia ou serigrafia. Alguns demonstram certa ambiguidade sexual. Em meados de 2014, um dos seus autorretratos foi arrematado num leilão na Suíça por 105 milhões de dólares, na Art Basel, uma das feiras mais importantes de arte contemporânea.

Autorretrato: Cindy Sherman

Autorretrato: Cindy Sherman

No trabalho da fotógrafa americana Cindy Sherman (1954-), seu próprio corpo é o elemento essencial sobre o qual cria suas imagens. Contudo, afirma que as imagens de si que produz não são autorretratos, mas mera encenação, pois “Não somos aquilo que pensamos ser”. Negando qualquer possibilidade de uma identidade estável, Sherman sai de cena para deixar aflorar personagens através dos quais pretende discutir o modo de representação das mulheres: os estereótipos sobre o feminino.

Mas não nos iludamos.

Embora algumas vezes possa parecer, esses autorretratos não se assemelham aos nossos, repetitivos, monotonamente felizes e domésticos. E é por isso mesmo que os nossos não são considerados obras de arte. Contudo, na próxima vez que alguém nos elogiar por sermos fotogênicos (elogio mesmo ou ofensa? fotogênico é feio que fica engraçadinho em fotos)  e perguntar porque postamos tantos selfies,  principalmente aqueles diante do espelho fazendo aquelas bocas tortas, podemos dizer que estamos nos espelhando em Van Gogh, Frida Kahlo, Warhol, Sherman e Rembrandt, entre outros poderosos do mesmo naipe.

Se eles gastaram horas e dinheiro para construir retratos algumas vezes ousados de si mesmos, porque nós, que de graça, vamos gastar apenas um mísero segundo do nosso precioso  tempo apertando a câmara do nosso celular, não faríamos o mesmo?

selfie

Até a próxima, pessoal. Bons selfies.

Abbey Road

Nunca uma  faixa de pedestres foi tão famosa.


Só mesmo os Beattles para transformar listras brancas no asfalto em celebridade, com a capa do disco “Abbey Road” (1969). Segundo a Wikipedia, a sessão de fotos, idéia de Paul MacCartney, teria durado uns  dez minutos. Jonh Lennon teria dito: “Deveríamos estar gravando o disco e não posando pra fotos idiotas”.

Em 2002, foi a vez dos Simpsons  atravessarem a mesma faixa de pedestres para a capa da revista  Rolling Stones:


Aliás, o gesto dos garotos de Liverpool foi reinventado tantas vezes que se perdem as contas. A imagem abaixo, feita em 2000, é do grupo paulista de comediantes  chamado Língua de Trapo, no trabalho  “Vinte e um anos na estrada”:

Até mesmo monges, de verdade, quiseram recriar os passos do Beatles, na capa do disco que está à venda na Amazon por cerca de U$ 8,00 dólares:


O Red Hot Chilli Pepper optou por tirar as meias dos pés e colocar em um local anatomicamente mais parecido:

A paródia abaixo é de responsabilidade da Bropton, fábrica inglesa, querendo exibir sua bicicleta dobrável:




Em 1993, Paul MacCartney voltou sozinho… Ops! com seu canhorro…  para atravessar a faixa, na capa do álbum ” Paul is Live”:


E nos quadrinhos brasileiros, Maurício de Souza:



 

Coisas que se repetem. De alguma forma. Parte I: Europa

“E quais são as palavras que nunca são ditas?” (Legião Urbana).

Ou Repetidas?!  – pergunto eu.

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Europa – princesa da mitologia greca que foi seduzida por Zeus,  disfarçado de um lindo Touro branco. A história do disfarce se dava porque Zeus tinha uma mulher muito ciiumenta: Hera. Mas enfim, quando Europa o viu, subiu no Touro. Zeus a raptou  e a levou para a ilha de Creta, onde  a fecundou. Consta em primeiro lugar por uma questão de justiça:  é o uso mais antigo de todos.


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Europa – o Continente, “o velho mundo”, cujo nome se deve ao da princesa mitológica e que todos conhecem. Pelo menos das aulas de geografia.


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Europa – nome de uma das luas de Júpiter, objeto de especulações sobre a possibilidade de existência de vida em seu interior. Não é a principal lua de Júpiter, essa  posição  é ocupada por Ganímedes.


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Europa –  é o último filme da trilogia  também chamada de “Europa”. Todos os três filmes com a assinatura do grande e controverso cineasta dinamarquês Lars Von Trier, que também dirigiu “Dançando no Escuro”, com Bjork, “Dogville”, com Nicole Kidman e agora a mais nova polêmica do momento: “Anti-Cristo”. Ah! “ Europa” foi lançado em 1991 e levou três prêmios no Festival de Cannes: Grande Prêmio do Júri, Melhor Contribuição Artística e o Prêmio Técnico.  Como no momento só se fala em Anti-Cristo e porque Von Trier está sempre se superando na capacidade de provocação , a imagem acima é desse filme.


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Europa – nome do hino nacional de Kosovo, território situado na península balcânica que se declarou independente em 2008, tendo sido  reinvidicado pela Sérvia. Na ocasião, os Estados Unidos apoiaram Kosovo,  assim como as princiáis potências da União Européia, reconhecendo sua independência; enquanto, do outro lado,  a Rússia se aliou á Sérvia,  o que fez com que quase resurgisse uma velha história.

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Europa – nome de um disco do trio sueco Covenant, liderado por Eskil Simonsson , lançado em 1998. O grupo canta em alemão e faz um som chamado de electropop. Ainda é pouco conhecido no Brasil que, da Suécia, não  esquece mesmo é do ABBA. “Mamma Mia!”. Para quem não conhece, pode ouvir o Covenant na Last FM.


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Europa – nome de um disco da cantora, compositora  e atriz islandesa Bjork (1965, REyjavik-), que ganhou os Grammys  de Melhor Álbum Alternativo em 2004 e 2007. “Europa” foi lançado também em 1998 e faz parte do que chamam na França de sua “discografia pirata”. É ativa politicamente e se opôs a instalação de um centro de tratamento de alumínio em seu país. Dedicou a música “Declare independence” a Kosovo  e por isso teve um show cancelado na Sérvia. Já fez shows no Rio de Janeiro,  São Paulo e Curitiba.  Gravou seu primeiro disco aos 12 anos de idade.  Se vestiu de ganso na festa do Oscar de 2001. Frase marcante de Bjork: “…não sou uma elfa, sou apenas uma islandesa com um laptop.”


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Europa – é uma ilha no continente africano, dependente do território Reunião, que constitui domínio francês desde 1897. Fica no sul da África, a cerca de meia hora de Madagascar- aquela mesma do desenho animado da Dreamworkers  e que também a reinvindica esta Europa, e ao sul de Moçambique. É resquício da colonização francesa na África. Na ilha atualmente existe apenas um  grupo militar da França.


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52 Europa – outra vez na astronomia: é um asteróide  descoberto em 1858 por H. Goldschmidt, apontado como o 7º maior do mundo. Lembrando que asteróides são objetos rochosos e metálicos que orbistam em torno de sóis, mas que não podem ser considerados planetas em razão do diminuto tamanho.


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Europa – uma moeda que não vingou, criada em 1928 por JosephArcher,  então prefeito Cizely, em  Niévre – um departamento francês e  um dos  fundadores do Movimento Federalista  da Europa.


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Europa Europa – outro filme, desta vez da cineasta polonesa Agnieszka Holland, cujos filmes são marcados por forte politização.  Lançado em 1990 na Alemanha, o filme conta a história de um rapaz que oculta sua origem judaica e ingressa na Juventude Hitlerista. Agnieszka esteve no Festival do Rio 2003 para lançar o filme ” Voltando Para casa”.

Fontes de pesquisa: Wikipédia em português, francês, inglês e espanhol.