A Outra Babel: línguas ficcionais

Imagem: Tomek Sętowski

Imagem: Tomek Sętowski

Todas as línguas e idiomas utilizados pelos homens foram criados. Difícil precisar todos os detalhes: Onde exatamente? Como? E por quem? Se as respostas são difíceis nos idiomas correntes, porque não foram criados por uma pessoa específica em um momento específico, em alguns casos se pode apontar facilmente o criador. E é isso que o Catálogo de Indisciplinas fará, mexendo na Torre de Babel erguida pela ficção.

Não falaremos do Dothraki, criado por J. R.R. Martin em “Game of Thrones”. Nem do Klingon, que é uma língua alienígena desenvolvida na série Jornada das Estrelas. Ou do Na’Vi, do filme “Avatar”, de James Cameron. O Sindarin, que pertence a “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, e é o mais falado de vários idiomas do reino dos elfos, ficará talvez, para outro post.

Catálogo de Indisciplinas quer tratar mesmo é das línguas fictícias que se amparam nas teorias que postulam a existência de uma relação de dependência entre linguagem e pensamento: as palavras moldariam o nosso pensamento, construindo nossas categorias mentais e determinando uma maneira específica de ver o mundo. A partir disto, nossa breve lista:

1. Novilíngua, de George Orwell (1903-1950)

Cena do filme de mesmos nome.

Cena do filme de mesmo nome, dirigido por Michael Radford e lançado também no ano de 1984.

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Publicado em 1949, “1984” é uma história de ficção científica que se desenrola dentro de um estado totalitário – Oceânia, simbolizado pelo Big Brother, que a tudo e a todos observa.

Com o fim de instrumentalizar os objetivos do estado, se desenvolveu a Novilíngua, que não é um idioma ou uma língua nova, mas a língua antiga encolhida, cada vez mais reduzida a seus elementos essenciais, manipulada para extrair dela todas as possibilidades de resistência, tudo que possa ser semente de um pensamento questionador, de expansão do pensamento e de expressão individual.

Apoiando a opressão política e acarretando o fechamento do pensamento, o significado das palavras é alterado de acordo com as necessidades do estado, vindo até mesmo a significar o oposto dos sentidos originais. É assim que o slogan do partido que comanda Oceânia declara: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Bem assim, ao inverso.

Amparada na ideia de que aquilo que não pode ser verbalizado não pode ser pensado ou comunicado, a língua opera seu próprio empobrecimento: suprime termos; suprime a sinonímia; promove confusão de significados entre antônimos a fim de banir os sentidos indesejados.

A principal função da novilíngua não é comunicar. Ela existe para garantir um pensamento igualitário, sem dissensos, impedindo não só a comunicação de ideias contrárias à ordem política estabelecida, mas até mesmo que tais ideias sejam geradas.

2. Pravic – Ursula K. Le Guin (1929-)

Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin

Em “Os Despojados: uma utopia ambígua” (1974), a ação se passa num tempo e num lugar muito distante do nosso, em que as mudanças mais profundas não se encontram nas incríveis máquinas tecnológicas do futuro, mas nos valores de uma sociedade que, ao mesmo tempo, se reflete e é refletida na língua.

Se em “1984” encontramos um estado extremamente forte, “Os Despojados” apresenta uma sociedade sem estado. Após uma revolta contra o sistema político do planeta Urras, na qual foram derrotados, em lugar de ser presos, aos revoltosos foi dada a opção de se instalar e colonizar um planeta árido e hostil: Anarres.

Quando os revolucionários se instalaram no novo planeta, com a intenção de iniciar uma nova civilização, elaboram uma nova língua. Como os primeiros habitantes dos planeta Anarres vieram de Urras, era aquele seu sistema linguístico de referência. Então, a nova língua se construiu por oposição ao Ioti, idioma de Urras. Chamada Pravic, a nova língua incorporava os valores da nova sociedade que quiseram ver instalados em Urras: uma sociedade anarquista, descentralizada, sem hierarquias, privilégios de classe e gênero, sem propriedade privada.

Um verbo central em Anarres é “compartilhar”, enquanto em Urras era “ter”. O Pravic é construído para desconstruir as estruturas tradicionais de poder. Não há palavras que expressem concepções de classe ou status, nem títulos de nobreza. Os nomes próprios não fornecem indicação quanto ao sexo das pessoas e os substantivos e adjetivos são neutros quanto ao gênero. E porque não há propriedade individual, a língua exclui os pronomes possessivos.

Palavras e concepções como prisão, escravos, casamento e moralidade, entre outros, são estranhos em Anarres. Um grande insulto em Pravic é chamar alguém de “profiter”, algo como “ganancioso interessado apenas no lucro”, significando que o mesmo não pensa no bem da comunidade. Para eles, a língua deveria reforçar o sentido de comunidade e solidariedade no mundo. Nesse espírito, um dos personagens declara: “Falar é compartilhar – a língua é uma arte colaborativa”.

3. Nadsat, Anthony Burguess ( 1917-1993)

Cena do filme de mesmo nome.

Cena do filme de mesmo nome, anglo-estadunidense, dirigido por Stanley Kubrik e lançado em 1971.

Inseridas em obras profundamente políticas, tanto a Novilíngua quanto o Pravic apostam que existe uma forte relação entre linguagem e desenvolvimento do pensamento.

Como as anteriores, a ficção de Burguess, “Laranja Mecânica” (1962 ), também possui conteúdo político: questiona se a negação ao indivíduo da sua liberdade de escolha não pode ser um mal maior que o próprio mal que o mesmo possa vir a cometer. Mas dá um tratamento diferente ao modo de falar que apresenta.

Na obra do britãnico, o Nadsat, que não é um idioma ou uma língua independente, mas uma espécie de gíria que mistura palavras em inglês, russo e o cokcney – modo de falar dos operários ingleses, é usado como forma de distinção pelo protagonista Alex, um delinquente juvenil, e seus amigos. Seu modo característico de fala marca a identidade do grupo, funcionando como barreira entre o mesmo e os outros.

Inseridos dentro de um sistema linguístico de referência, o Nadsat permite aos jovens escapar do poder regulador das palavras comuns, mantendo os mesmos à parte da cultura que os cerca: os adolescentes não partilham dos valores dos mais velhos, nem admite associações com os mesmos.

Nessa comunidade formada por Alex e seus companheiros, os drugues, onde os valores compartilhados, ligados à violência, são reforçados e celebrados, um dos efeitos do Nadsat é amenizar simbolicamente os atos de violência, que nunca são descritos na língua corrente, mas no dialeto usado pelo adolescentes.

O uso do Nadsat causa também um estranhamento no leitor, pois as gírias são usadas não apenas entre as conversas entre personagens, mas também na narração de grande parte história, que é realizada por Alex, passando ao leitor o encargo de ter que de lidar com o possível significado de cada verbete.

4. Codex Seraphinianus

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Imagem: Uma das páginas do Codex Seraphinianus.

Em 1981, o italiano Luigi Serafini (1949-) publicou um enigmático livro. Trata-se de uma enciclopédia ilustrada de um mundo imaginário, escrita numa língua estranha, usando um alfabeto igualmente estranho.

O autor declarou que não havia nenhum significado oculto na língua inventada por ele, que mais se assemelhava a uma escrita automática. Dizendo que sua escrita era artística e não linguística, Serafini declarou querer produzir no leitor a mesma sensação que teria uma criança não alfabetizada ao contemplar os símbolos linguísticos que não compreende.

Por fim, Catálogo de Indisciplinas lembra que existem muitas outras experiências de criação de língua fora do reino da ficção. John Wilkings sonhou em construir uma língua que pudesse corrigir o pensamento humano. Umberto Eco imaginou uma “Linguagem Perfeita”, racional e lógica, que eliminaria todos os mal entendidos. Criou-se o Esperanto, o Volapuk, etc. E há linguagem de computador, linguagem matemática e tantas outras coisas.

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O que pode um corpo?

Diz Spinoza que um corpo é feito de relações com outros corpos e que, dependendo dessas relações, um  sujeito poderia ser fraco ou forte, triste ou alegre. E o que pode um corpo? Dependeria de sua reação ao ser afetado por outros corpos e do quanto seria afetado. E Spinoza completa: ainda não se sabe o que pode um corpo.

Catálogo de Indisciplinas inicia este post com Spinoza para anunciar que aqui falará sobre o corpo. Esse mesmo que tem sido subestimado pelas religiões ao escolherem dividir um sujeito em corpo e alma e afirmar a supremacia desta sobre aquele.

Catálogo de Indisciplinas também não sabe o que pode um corpo, mas se espanta e observa o seguinte:

1. Raimund Hoghe

É um aclamado dançarino e coreógrafo de dança contemporânea alemão. Baixinho e corcunda, seu corpo está na contramão do que é esperado de um bailarino.

“Pier Paolo Pasolini falou sobre jogar o corpo na luta. Estas palavras me inspiraram a subir no palco. Outras inspirações são a realidade que me cerca, o tempo presente, as minhas memórias da história, pessoas, imagens, sentimentos e o poder e a beleza da música e do confronto com o próprio corpo que, no meu caso, não corresponde aos ideais convencionais de beleza. Ver corpos no palco que fogem aos padrões é importante – não só pela história, mas também pelo atual desenvolvimento, que está levando os seres humanos a se tornarem objetos de design. Sobre a questão do sucesso: é importante ser capaz de trabalhar e seguir seu próprio caminho – com ou sem sucesso. Eu simplesmente faço o que devo fazer”. (Raimund Hoghe)

2. Amy Palmiero-Winters


É uma atleta norte-americana que vem batendo sucessivos recordes. Perdeu uma perna num acidente de carra e  hoje corre utilizando uma prótese mecânica que se adaptou perfeitamente a seu corpo.  Amy  compete no mesmo nível de pessoas sem deficiência. Em 2010, foi a única amputada a correr uma prova de 24 horas, percorrendo mais de 200 km ininterruptos. Causou espanto. Após isso,  ingressou no time americano de corrida de rua, composto por atletas sem deficiência. Envolveu-se em uma polêmica por superar, com a prótese,  a melhor marca que obtivera quando ainda corria com sua perna natural. A acusação era de que a perna mecânica a favorecia, permitindo que corresse mais rápido que atletas que não dispunham do artefato. No entanto, testes mostraram que  Amy teria um desempenho três vezes melhor se tivesse uma perna de carne e osso.

3. Evgen Bavcar

É um fotógrafo esloveno que se tornou cego de forma acidental aos  12 anos de idade, quando  perdeu o olho esquerdo ao ser perfurado por um galho de árvore e, algum tempo depois, o segundo o olho em um acidente com um detonador de minas.  Doutor em história, estética e filosofia pela Universidade de Sobornne, Bavcar prova que a fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar, pois todos constroem imagens interiores.  No documentário brasileiro “Janelas da Alma”, que tinha como tema a visão,  o fotógrafo declarou: “Mas vocês não são videntes cIássicos, vocês são cegos porque, atuaImente, vivemos em um mundo que perdeu a visão. A teIevisão nos propõe imagens prontas e não sabemos mais vê-Ias, não vemos mais nada porque perdemos o oIhar interior, perdemos o distanciamento. Em outras paIavras, vivemos em uma espécie de cegueira generaIizada”.

4. Fauja Singh

Com cem anos de idade, é o maratonista mais velho do mundo. Nascido na índia, suaa vida de atleta começou aos 89 anos de idade, quando estrou na Maratona de Londres, em 2000.  Harmander Singh, seu treinador, falando sobre seu estado físico, afirma que um exame de densidade óssea de 2010 revelou que sua perna direita era similar a de um homem de 25 anos e a esquerda a de um homem de 35 anos. Ao ter tomado conhecimento disso, Fauja teria comentado: “Eu sabia que minha perna esquerda era fraca!”.

Tomar posse do seu próprio corpo e descobrir sua potência… um plano para 2012?

Em 1929


Quando se pensa em 1929, nunca se pensa em tecnologia.

O ano de 1929 é sempre lembrado pela Grande Depressão: a economia americana, falida, causou estragos no mundo inteiro esse filme é velho). Mas aquele  também foi o ano do lançamento da primeira tira de ficção científica:  Buck Rogers 2429 AD.

O ano em que Erik Rotheim  patenteou o aerossol.  Em que o astronômo Edwin Hubble lançou os fundamentos para Teoria do Big Bang, com seus estudos sobre as galáxias. Foi o ano em que o francês Louis de Broglie recebeu o Prêmio Nobel pela descoberta da natureza ondulatória dos elétrons. No qual ocorreu a primeira cerimônia de entrega do Oscar, cujo vencedor na categoria melhor filme foi o único filme mudo a conquistar a premiação máxima, Wings. É também o ano em que Salvador Dali lança “O Cão Andaluz” e em que no Brasil chega aos cinema o primeiro filme nacional totalmente sonorizado: “Acabaram-se Os Otários”, de Luís de Barros .


Charles Buddy Rogers, Clara Bow e Richard Arlen, em "Wings"


Naquele mesmo ano, Sigmund Freud escreveu o livro “Civilização e Seus Descontentes”, com o objetivo de analisar as tensões entre o indivíduo e a civilização.  Donna Haraway não havia nascido, nem se falava tanto em ciborgues, quando o mesmo escreveu o que soa absolutamente século XXI :

“Através de cada instrumento, o homem  está aperfeiçoando seu organismo, seja a parte motora ou sensora, ou está removendo os limites para sua funcionalidade. A potência dos motores põe à sua disposição gigantescas forças que, como músculos, ele pode empregar em qualquer direção; graças à navios e aeronaves, nem a água nem o ar podem impedir seus movimentos; através de óculos, corrige defeitos nas lentes dos próprios olhos; através de telescópios vê à longa distãncia; e através do miscroscópio supera os limites de visibilidade colocados pela estrutura de sua própria retina. Na câmera fotográfica criou um instrumento que retém impressões visuais fugidias, asim como o gramofone retém impressões auditivas igualmente transitórias; ambos são materializações fundamentais do poder que ele possui de recordar, sua memória. Com a ajuda do telefone pode ouvir à distãncias que seriam tidas como impossíveis mesmo num conto de fadas. A escrita era em sua origem a voz de uma pessoa ausente; e uma casa de moradia um substituto para o ventre da mãe…”


Se já existissem celulares, notebooks, tablets, internet, etc, poderia-se pensar na seguinte continuação para o texto:

“Com o cartão de crédito, o homem cria um instrumento que supera os limites de sua capacidade de endividamento; com a internet, amplia suas possibilidades de gozo sexual com o uso das mãos; com o photoshop atinge uma perfeição ( ou imperfeição física) inimaginável até nos sonhos das maiores dondocas”…

Fale com El…iza

Lindevania Martins

Lydia e Alice em Fale com Ela (2002)

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No filme Fale com Ela, do espanhol Pedro Almodovar, são os homens que falam.

As cenas se passam em ” El Bosque”, uma clínica particular onde Benigno, apaixonado por Alicia, trabalha como enfermeiro. É ali também que conhece Marco, cuja namorada, Lydia, acaba de ser internada. Marco e Benigno falam sem receios e em liberdade porque as mulheres a quem se dirigem não podem lhes responder: Lydia e Alicia estão em coma.  A primeira por conta de um acidente de trânsito. A segunda por conta de uma tourada em que era ela quem jogava com o touro.

As tentativas de diálogos só podem se dar através de monólogos.  E é Benigno que sugere a Marco conversar com Lydia: “Fale com ela”.  Ele acredita que é dessa forma, demonstrando atenção à mulher que amam, que podem cuidar delas. Marco ainda argumenta que o cérebro de Lydia está morto e que, portanto, não faz sentido falar com ela.  Mas Benigno afirma que o cérebro de uma mulher é um mistério mesmo, que o coma só torna tudo ainda mais misterioso.

Se a possibilidade desta comunicação vir a ajudar às mulheres em coma é questionável, opera uma óbvia mudança em Marco, revelando a quem de fato ela ajuda: é para aqueles que falam que tal comunicação possui utilidade.

Audrey Hepburn como Eliza Dootlittle (1964)

Em My Fair Lady, filme da década de 60,  Audrey Hepburn interpreta Eliza Doolittle, uma jovem pobre que se expressa de forma grosseira. De vendedora de flores nas ruas de Londres, se  vê transformada em moça fina e elegante da alta roda londrina no breve espaço de seis meses,  graças a uma aposta entre homens: o professor de fonética Higgins e Colonel Pickering.

O primeiro dará aulas à Eliza que mudarão por completo sua aparência e modo de falar. Embora Eliza também queira se livrar do sotaque suburbano, tem um outro desejo: que Higgins a veja como uma pessoa, não como apenas um experimento.  Previsivelmente, ele vai se apaixonar por ela.

O  filme é inspirado em uma peça que adaptou Pigmalion: A Romance in Five Acts, livro de George Bernard Shaw,  para o teatro. Por sua vez, o escritor irlandês se inspirou no mito de Pigmalião: o escultor que, ao esculpir a imagem da mulher ideal,  se apaixona por ela. Apiedada, a deusa Afrodite a transforma em uma mulher de verdade. Como a história se passa na Grécia, ela não vai se chamar Amélia, mas Galatéia.

Carl Rogers (1902-1987)

Carl Rogers (1902-1987) foi um psicólogo norte-americano, criador do método terapêutico conhecido como “abordagem centrada na pessoa”. Parte do princípio de que o paciente não deve ser subestimado, pois possui em si meios para a autocompreensão, para a mudança do conceito de si mesmo, atitudes e comportamento autodirigido. O papel do terapeuta seria ativar um novo conjunto de atitudes  ao propiciar um ambiente favorável para que o próprio indivíduo pudesse explorar essas potencialidades.

O método de Rogers se baseia na livre expressão do paciente e em sua autonomia: é ele que sabe o que machuca, o que é importante, que direção tomar. Por isso, o terapeuta não deve dirigir a sessão. Essencial na psicoterapia não seria a aplicação de métodos e teorias, mas a qualidade do relacionamento entre os sujeitos: paciente e terapeuta numa relação de aceitação, empatia e genuinidade.

As intervenções do terapeuta na fala do paciente, em decorrência do princípio da não-diretividade e da confiança de que o mesmo possa resolver seus problemas de modo autônomo,  serão reflexos dos sentimentos expostos pelo paciente ou reformulações das próprias falas do mesmo.

Mas o que Fale com Ela, My Fair Lady e Carls Rogers têm em comum?

Joseph Weizenbaum (1923-2008), “pai” de Eliza

Eliza.

Ocorre que o alemão Joseph Weizenbaum, em 1966, criou um programa de computador cuja missão era simular um terapeuta, com base nos métodos de Carl Rogers, uma vez que o programa interage com a pessoa através de perguntas retóricas ou incentivos para que continue a falar… Ops! Escrever. O programa foi batizado de Eliza, em homenagem à Eliza Doolittle. Como em Fale com Ela, o cliente pode falar livremente com Eliza.  Sem efetuar  juízos de valores, suas respostas são automáticas, de acordo com sua base de dados.

 A forma como Eliza funciona foi explicada por Weizenbaum no livro Computer Power and Human Reason: From Judgment to Calculation (1976). O programa atua se utilizando das declarações dos usuários para construir perguntas que refletem o conteúdo dessas declarações. Assim, os usuários que determinam o rumo da terapia. Claro, as respostas de Eliza não serão coerentes, caso as declarações dos usuários fujam ao esperado. Contudo, o programa obteve grande sucesso ao simular uma interação entre humanos.

Na história de Shaw, filmada em My Fair Lady, Eliza é ensinada a falar com um sotaque elegante e, assim, dissimulando sua origem humilde, é tomada por dama da alta sociedade. O programa Eliza também é ensinado a falar. Como ocorre ao  personagem de Hepuburn, muitos usuários confundiram Eliza com um terapeuta de carne e osso.

Professor de ciências no prestigioso Instituo de Tecnologia de Massachusetts – MIT, Joseph Weizenbaum descreveu Eliza como uma paródia do método terapêutico de Carl Rogers. Explicou que a terapia é uma das poucas interações humanas em que uma das partes pode responder à outra através de perguntas que demonstram pouco conhecimento sobre a questão em si.

Se você ficou curioso, quer falar com Eliza  e seu inglês não é muito ruinzinho, clique aqui.


O Improvável IgNobel

Lindevania Martins

Entrega do Prêmio IgNobel de 2009, na área de saúde pública: a vencedora criou um sutiã que se transforma em máscara, providencial em época de gripe suína.

 

“Primeiro fazer rir, depois fazer pensar”.  É assim que o grupo Improbable Research[1]– em português, “Pesquisa Improvável”-, define seu objetivo ao coletar pesquisas que, digamos, fogem do convencional.   Sediado em Cambridge, Massachusetts, o grupo  americano também afirma querer despertar a curiosidade das pessoas e levantar a questão sobre quem decide o que é importante ou não, o que é real e o que não é, seja na ciência ou em outro lugar.

Além de outras atividades, o grupo publica a revista “Anais de Pesquisa Improvável” que, por sua vez, desde 1991, organiza o IgNobel, destinado a premiar anualmente as dez melhores pesquisas improváveis em diferentes categorias.

Estas são algumas das pesquisas vencedoras[2]:

Medicina Veterinária de 2009 : pesquisa da Universidade de Newcastle, Reino Unido, mostrando que vacas que possuem nomes produzem mais leite que vacas sem nome;

Paz de 2009: pesquisa da Universidade de Berna, na Suiça,  por determinar, através de experimentos, se é melhor levar uma pancada na cabeça com uma garrafa cheia de cerveja ou vazia;

Física de 2009: Universidade de Cincinnati, Estados Unidos, por determinar porque grávidas não tombam com o peso da própria barriga;

Biologia de 2008: pesquisa da Escola Nacional de Veterinária de Toulouse, França, por descobrir que pulgas que vivem em cães pulam mais alto que pulgas que vivem em gatos;

Química de 2008: o prêmio foi dividido por duas equipes científicas diferentes. Uma americana, por descobrir que a Coca-cola é um espermicida eficiente; e  outra de Taiwan, por descobrir o contrário: que a Coca-cola não é um espermicida eficiente;

Estudo: “Efeitos Colaterais de Engolir Espadas”.

Medicina de 2007: Dan Meyer e Brian Witcombe, por estudarem os efeitos colaterais do ato de engolir espadas;

Paz de 2007: para a equipe do Laboratório Wright da Força Aérea americana de Dayton, Ohio,  por incentivar a pesquisa e desenvolvimento de uma  arma química chamada “bomba gay”,  que deveria tornar os soldados de exércitos inimigos sexualmente irresistíveis entre si;

Acústica de 2007: universidades americanas que conduziram um estudo sobre o motivo das pessoas não gostarem do som de unhas arranhando um quadro-negro.

Em pouco mais de três meses, mais exatamente em 30 de setembro, conheceremos os vencedores do Prêmio IgNobel de 2010. Como sempre, os IgNóbeis serão entregues por vencedores do prêmio Nobel. As cerimônias acontecem na Universidade de Harvard e se encerram tradicionalmente com as seguintes palavras: “Se você não ganhou um prêmio – e especialmente se ganhou – melhor sorte ano que vem!”.

Embora ainda não tenha sido premiado com nenhum prêmio Nobel, o Brasil pode se gabar de ter levado um IgNobel. Em 2008, venceu o prêmio na  categoria Arqueologia: Astolfo G Mello Araújo, da USP, e José Carlos Marcelino, do Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo, pelo estudo sobre o papel dos tatus no movimento dos materiais arqueológicos.

Assim, se você conhece algum candidato ao IgNobel, envie um e-mail para o Improbable Research. Eles esperam por sua contribuição:

http://improbable.com/ig/miscellaneous/nominate.html


[1] Improbable Research. Disponível na internet em http://improbable.com. Consultado em 25.06.10.

[2] Mais premios IgNobel na Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_ganhadores_do_Pr%C3%AAmio_IgNobel.

Dia dos Mortos

Lindevania Martins

“La Catrina” é o esqueleto de uma dama da alta sociedade, umas das mais populares figuras das celebrações do Dia dos Mortos, personagem do folclore mexicano, popularizado por Jose Guadalupe Posada. Imagem: Wikipedia.

Esqueleto de uma mulher da alta sociedade, “La Catrina” é uma das mais populares figuras das celebrações do Dia dos Mortos no México. Imagem: Wikipedia.

Oriunda das tradições indígenas e declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO,  a comemoração do dia dos mortos no México  é  bem diferente da que ocorre no Brasil.

Desconhecendo  as noções de pecado, paraíso e inferno relacionadas à morte entre os cristãos, os indígenas mexicanos acreditavam que era o tipo de morte que determinava o caminho que o recém-falecido deveria seguir. Se falecido na água, deveria ir para o Paraíso da Água, e seria enterrado, para germinar. Se falecido em guerra, deveria ir para o Paraíso do Sol, a quem acompanharia por quatro anos, findos os quais voltaria à vida como pássaro. Quem falecia de morte natural iria para o Mictlan. Se criança o morto, iria para um lugar especial no qual seria alimentado pelo leite de uma árvore ,  voltando á vida quando toda sua raça fosse destruída[1].

Inicialmente, as celebrações iniciais do Dias dos Mortos incluíam sacrifícios humanos e grandes banquetes.

Quando os colonizadores espanhóis chegaram ao México, assustados com o ritual do Dias do Mortos , introduziram elementos cristãos e fizeram com que o mesmo coincidisse com a celebração católica, que foi obrigatoriamente instituída pelos papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) e incorporado no século XI no calendário litúrgico cristão como Dia de Finados, a recair no dia 2 de novembro.

Enquanto por aqui o dia de finados é um dia de luto; lá é um dia de festa, com direito a comidas especiais, muita música e bebida.

Enquanto por aqui todos superlotam os cemitérios, mas esperam que seus mortos fiquem guardadinhos nas tumbas onde se encontram; os mexicanos acreditam que no dia de finados os mortos regressam para visitar suas famílias. Eis a razão da festa. Eis a razão da comida e da tequila.


Na animação “A Noiva Cadáver”, de Tim Burton, um jovem se casa com uma noiva que já havia passado desta para melhor e inicia um romance insólito. No livro “Pedro Páramo”, do escritor mexicano Juan Rulfo, mortos e vivos coexistem de tal maneira que nunca se sabe se quem está falando o faz daqui ou da “Terra dos Pés Juntos”.

Imitando a arte, espera-se que mortos e vivos rompam as barreiras que os limitam aos seus respectivos mundos e se confraternizem. Assim, se você estiver no México no próximo 2 de novembro, não se assuste se um morto o convidar para dançar.

Ah! E seja educado. Não recuse um gentil convite. Aproveite o baile!

Referências:


[1] WIKIPEDIA. Disponível na internet: http://21gramas.pt/Uploads/02431018200713.pdf. Consultado aos  01.11.09.