Destilando Veneno

Catálogo de Indisciplinas traz para seus leitores pérolas dos nossos queridos malditos – diretamente ou falando através de personagens, destilando veneno contra mestres do pensamento ocidental e outros escritores de grande prestígio. Vaidades, ciúmes? Não é incomum termos opiniões desfavoráveis sobre nossos semelhantes, mas nós, pobres mortais, raramente conseguimos esboçá-las com tanta destreza. Considerando que todos os envolvidos já estão mortos e enterrados – e que as opiniões insultuosas foram amplamente divulgadas, ninguém vai nos mandar pro inferno sob a acusação de  estarmos querendo jogar mais lenha na fogueira.

1) Charles Bukowski (1920-1994)  sobre William Shakespeare (1564-1616):

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 “É ilegível e valorizado mais do que deveria. Mas as pessoas não querem ouvir isso. Ninguém pode atacar templos. Shakespeare foi fixado à mente das pessoas ao longo dos séculos. Você pode dizer: Fulano de Tal é um péssimo ator”, mas não pode dizer que Shakespeare é uma m… Quando alguma coisa dura muito tempo, os esnobes começam a se agarrar a ela como pás de um ventilador. Quando os esnobes sentem que algo é seguro, se apegam. E se você lhes disser a verdade, eles viram bichos. Não suportam a negação. É como atacar o seu próprio processo de pensamento. Esses caras me enchem o saco.” (BUKOWSKI, Charles. Tough Guys Write Poetry.  Entrevista a Sean Penn. Interview Magazine, 1987).

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2) Thomas Bernhard (1931-1989) sobre Heidegger (1889-1976):

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“Não consigo imaginar Heidegger senão sentado num banco do lado de fora da sua casa na Black Forest, junto com a esposa que toda a vida o dominou e que confeccionou todas as suas meias e chapéus, assou seu pão,  teceu sua roupa de cama e até mesmo as sandálias usadas por ele. Hedeigger era brega… um pensador fraco dos montanhas alpinas, que, acredito, muito se adequa à salada filosófica alemã. Por décadas, compulsivamente consumiram esse homem,  mais que a qualquer outro, e preencheram seus estômagos com as coisas oriundas dele. Heidegger tinha um rosto comum, nada espiritual, disse Reger, ele era um homem sem espírito, desprovido de fantasia, desprovido de sensibilidade, um genuíno ruminante da filosofia alemã, sempre uma vaca com ar sério que pastava na filosofia alemã e por décadas pousou suas espertas patinhas de vaca sobre ela”. (BERNHARD, Thomas. Old Masters. Comedy.  Chicago: University of Chicago Press, 1992).

 

5) Hilda Hilst (1930-2004) sobre João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

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“Ele deslizava a lâmina da faca na água da bacia. Lembrou-se de um poeta que adora facas. Que cara chato, pô. Inventaram o cara. Nada de emoções, ele vive repetindo, sou um intelectual, só rigor, ele vive repetindo. Deve esporrar dentro de uma tábua de logaritmo. Ou dentro de um dodecaedro. Ou no quadrado da hipotenusa. Na elipse. Na tangente. Deve dormir num colchão de facas. Deve ter o pau quadrado. Êta cabra-macho rigoroso! Chato chato”. (HILST, Hilda. Contos d’Escárnio: textos grotescos. São Paulo: Globo, 2002).

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Amarelo é a cor mais quente

No cinema, técnicas especiais relativas às cores são usadas para criar clima, delimitar passagens de tempo, expressar as emoções dos personagens, conduzir o olhar do espectador ou mesmo para produzir uma identidade visual.

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Em “Kill Bill” (2003),  fora o vermelho do sangue que está sempre jorrando, a fotografia dá uma tenção toda especial à uma cor bem específica. No famoso filme de Quentin Tarantino, no qual Uma Thurman enfrenta sozinha dezenas de mafiosos, o amarelo possui primazia entre todas as cores.

Muito já foi dito que as obras cinematográficas de Tarantino são cheias de referências às outras obras do universo pop: mangás, westerns italianos, filmes de kung fu, etc.. O figurino fashion de Beatrix Kiddo (Uma Thurman) é inspirado num macacão também amarelo usado por Bruce Lee no filme O Jogo da Morte (1978), assim como a roupa amarela usada por um monge em Kill Bill é inspirada na roupa amarela do personagem de quadrinhos Charlie Brown.

Representando entre os japoneses traição e poder, o  amarelo é a cor escolhida para que Beatrix Kiddo realize sua vingança: vestindo uma roupa amarela, roubando uma caminhonete amarela, pilotando uma moto amarela.

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Contrariando a frieza que a cor sugere, nos últimos tempos, nos vemos cercados de textos alegando que o azul é a cor mais quente. Todos inspirados no polêmico filme do diretor Abdellatif Kechiche, “Azul é a Cor Mais Quente” (2013), no qual uma adolescente se apaixona por uma garota de cabelos azuis.

Se o amarelo em Kill Bill é quente porque remete à uma vingança que se realiza em meio a extrema violência, o calor que o azul sugere no filme de Kechiche se origina em uma paixão erótica juvenil cuja tradução do título original, em francês, é simplesmente “A Vida de Adele”.

A história foi contada originalmente nos quadrinhos, no ano de 2010, na forma de diário, com um título mais próximo ao que a película ganhou no Brasil: “Le Bleu est une Couleur Chaude”. A Autora, Julie Maroh, optou por desenhar sua obra em preto e branco, mas sempre adicionando a cor azul em momentos ou elementos específicos: nos cabelos da personagem Emma, para demonstrar a excitação sexual, para representar a diferença. Aliás, Julie Maroh tem um blog, que você pode acessar clicando aqui.

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Mas um filme que realmente usa e abusa de uma gama cores em sua estrutura narrativa é “Herói” (2002), do diretor asiático Yimou Zhang. Como no filme Rashmon (1950), de Akira Kurosawa, o longa conta três diferentes versões da mesma história – que se passa na China antiga, num período pré-imperadores,  das quais apenas uma é verdadeira.

Tanto no tom da fotografia, quanto no figurino, as cores saltam aos olhos e ajudam na compreensão da história, sendo usadas na narração do protagonista “Sem Nome” como veículos de sua expressão, marcando épocas, fatos e sentimentos. A cada nova versão, muda a cor predominante na tela: iluminação, as cores das roupas dos personagens, os cenários.

Flashbacks aparecem em verde. Nas imagens do presente predomina o preto.  O azul é usado para contar a  versão mais melancólica. Na versão real, é o branco que predomina. Mas na primeira versão, a mais quente de todas, pondo em foco a história de amor entre dois assassinos, é contada sob a tradicional cor da paixão: vermelho.

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Mas não é só cinema que faz um uso todo especial das cores. Sua prima, a televisão, também o faz. Cheia de referências: cinematográficas, literárias e filosóficas, a série de tv True Detective (2014) se tornou uma verdadeira febre, com a exibição de sua primeira temporada com oito episódios. Como outras séries do gênero, mostra dois detetives durões ás voltas com casos violentos e bizarros. Woody Harrelson,  que já esteve em “Zombieland” (2009) e “Jogos Vorazes” (2012 e 2013), entre outros, é Martin Hart, um policial conservador, machista e beberrão, do tipo comumente apresentado em obras de detetives/policiais.

Enquanto isso, Matthew McConaughey interpreta o policial Rust Cole. Que não é nada comum. Com uma inteligência sofisticada, misantropo, antisocial, niilista e cheio de princípios, Rust é o ponto alto da série. O personagem está nos diálogos memoráveis e frases de efeito de Rust Cole que poderiam ter saído da boca de Emil Cioran, Nietzsche.

Mas o que True Detective tem a ver com um post sobre cores? E que, ainda por cima, diz que amarelo é a cor mais quente? É que os crimes bizarros e violentos investigados pela dupla de policiais estão relacionados a um certo Rei de Amarelo, personagem de outra obra, em outra linguagem.

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True Detective, com seus inúmeros fãs, acendeu um novo interesse pela obra “O Rei de Amarelo”, coleção de contos assinada por Robert W. Chambers e originalmente publicada em 1895,  nos quais um livro, com o mesmo título, exerce uma influência maldita sobre seus  leitores, levando-os à loucura.

Note-se que quando o livro foi  publicado, entre o final do século dezenove até o começo do século vinte, amarelo era cor  “da besta” entre a galera underground da época. É isso que o revisor Carlos Orsi conta na introdução à edição brasileira de O Rei de Amarelo, publicada pela editora Intrínseca: o amarelo “era o matiz do pecado, da podridão, da decadência, da loucura”; “não por acaso que o pecado, a doença e a arte moderna tinham a mesma cor”. Amarelo.

O Lugar da Mulher em Lucy, de Luc Besson

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Lembrando que uma obra narrativa, principalmente em se tratando de fantasia ou de ficção científica, ainda que solicite algum tipo de verosimilhança por parte dos realizadores, também solicita dos espectadores que mergulhem na supressão de realidade que a obra propõe, ao mesmo tempo em que se presta às várias interpretações e olhares diferentes que o público lhes lança, Catálogo de Indisciplinas se arremessa sobre o novo longa de Luc Besson com um aguçado olhar feminino, deixando de lado considerações sob física quântica e os aspectos científicos ou pseudo científicos da película em geral.

Em seu mais novo filme (Lucy, 2014, produção franco/americana), com cenas rodadas em Taipei, Paris e Nova Iorque, o diretor francês Luc Besson apresenta Scarlatt Joahnsson como Lucy. Uma estudante americana jovem e bonita, mas comum, vivendo em Taiwan, cujo corpo é manipulado para servir aos propósitos do tráfico internacional de drogas: com a finalidade de levar uma nova droga aos mercados europeus, Lucy é encarcerada e submetida a uma operação cirúrgica contra sua vontade, através da qual é introduzida em seu estômago uma cápsula contendo 1 quilo do novo composto sintético.

Desde as suas cenas de abertura o filme é interessante, mas se torna ainda mais eletrizante quando, após ser agredida por um dos seus carcereiros com chutes e pontapés no estômago, como punição por ter resistido a seus avanços sexuais, a cápsula se rompe e a substância, vazando no corpo de Lucy de modo acidental, ativa seu cérebro de uma maneira espantosa: gradativamente o mesmo aumentará sua capacidade de processamento de informações, até atingir o máximo nas sequências finais do filme.

Didaticamente, o espectador fica a par da singularidade do que acontece com a protagonista. E o filme mostra suas opções narrativas de forma muito clara. O cientista interpretado por Morgan Freeman, amparado na ideia de que o ser humano usa apenas 10% do potencial do seu cérebro, é mostrado discorrendo sobre as capacidades cerebrais numa sala de aula para que o espectador entenda a excepcionalidade do que virá a seguir. Lucy telefona para a mãe da cama do hospital que invadira com arma em punho, para contar de suas novas sensações, fazendo com que o espectador compreenda até que ponto seus sentidos se expandiram. Imagens metafóricas aparecem na tela relacionando as imagens que passam no tempo presente do filme aos primórdios da civilização humana.

Resistindo à tendência de achar que Besson dá um tratamento privilegiado à mulher protagonista, é importante notar que a ação sofrida por Lucy poderia ocorrer a qualquer ser humano, independente do gênero sexual. Contudo, a força do enredo, e por consequência a força da droga sintética, reside em conseguir transformar o mais fraco em mais forte. E há algo mais irresistível que a vulnerabilidade feminina? Joahnsson em suas minissaias, uma estrangeira isolada por seu idioma em meio a chineses e coreanos?

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É desse ponto de vulnerabilidade que surpreende a força posteriormente demonstrada. Ao contrário do Capitão América, cuja transformação o faz passar de um corpo pequeno e franzido para um corpo avantajado e musculoso, sendo de cunho eminentemente físico, pelo que se conclui que toda a inteligência posteriormente demonstrada já fazia parte do seu caráter, a força demonstrada pelo personagem de Scarlett Johansson, embora tenha como vetor seu corpo, é um complexo cuja origem se encontra no aumento exponencial do uso da capacidade do cérebro induzido por uma droga sintética nova e muito poderosa, levando-a a uma racionalidade extrema, com pouco ou nenhum espaço para as demonstrações de emoções tão típicas do universo feminino. Assim, a superinteligência demonstrada não decorre de nenhum mérito seu, mas de um processo externo e involuntário.

Mais um argumento destrói qualquer consideração no sentido de que Luc Besson apresenta um olhar diferenciado sobre a mulher: o filme se constrói em torno de homens. Excetuando uma amiga como quem Lucy divide o quarto e que aparece num rápido diálogo, as mulheres no filme são como a mãe para quem Lucy telefona: ausentes. Todos os outros personagens fortes que aparecem no filme, estejam eles do lado do crime ou do lado da lei, são homens. Os ambientes nos quais Lucy circula é majoritariamente masculino: os ambientes clandestinos, habitados pelos bandidos; o hospital, no qual a mesma invade uma sala cirúrgica e determina, com arma em punho, que operem sua barriga para retirar o pacote de drogas; a polícia, onde a mesma denuncia a organização criminosa; o ambiente acadêmico.

É verdade que a protagonista procura Morgan Freemam, este, no seu costumeiro papel de professor, mas o faz não para ser salva ou para obter ajuda, mas porque ela tem algo a ensinar ao sábio: oferecer todo o conhecimento acumulado em tão pouco tempo de sua expansão cerebral. Porém, se neste aspecto a película foge ao padrão da mocinha procurando um herói salvador, percebemos que não o descarta de vez, pois para receber o conhecimento oferecido, Freeman reúne um grupo de eminentes cientistas, que se supõe seriam os mais aptos a compreendê-lo e usá-lo da melhor maneira possível, salvando a humanidade. E todos são homens.

Um Jogo Desigual

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Publicada pela primeira vez em 1996 e transformada em série televisiva em 2011, os livros do americano George R. R. Martin se ambientam numa Idade Média fictícia marcada pela tradição, pois seu autor, embora escrevendo uma fantasia,  se submete aos padrões da cultura que ele quis retratar: uma sexista sociedade de classes.

O principal conflito ao qual o Jogo dos Tronos se refere pode se resumido à uma pergunta: Quem deve governar os setes reinos de Westeros? Os sete reinos são disputados por homens e mulheres, mas estas, além dos obstáculos de sempre, característicos da guerra, devem lutar, ainda, contra o fato de serem mulheres num mundo dominado por homens.

Game of Thrones é um jogo no qual dominam os privilégios de nascimento, pois o poder se transmite pela hereditariedade. Os de nascimento nobre se sobrepõem aos de nascimento comum. Os filhos legítimos se sobrepõem aos filhos bastardos.  Os primogênitos aos irmãos que os sucedem.  Os homens às mulheres.

Cersei Lannister, Arya Stark, Catelyn Stark, Daenarys Targaryen, Asha Greyjoy e Brienne deTarth,  embora todas de famílias nobres, são pessoas de segunda categoria. Nascidas mulheres, se destinam ao casamento, à família, ao exercício da cortesia. Seja como moedas de troca em casamentos arranjados ou como troféus de guerra, em tal sociedade, ser mulher é estar submetida à autoridade de outro: pelo amor ou pela violência. As competências  que não se inscrevem são negadas, as potencialidades sufocadas.

Em certo momento, um personagem masculino diz, reprovando a conduta de uma mulher: “A luta do homem ocorre no campo de batalha. A da mulher, na cama, parindo seus filhos”.

Como ser forte e como lutar num universo cujas regras se opõem a essas possibilidades?

Game of Thrones é um jogo por poder no qual as mulheres, antes de tudo, lutam contra as condições que lhe impedem, por seu sexo, o acesso ao próprio jogo.

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1. Cersei Lannister

A ficção de Martin é construída em torno de personagens complexos. Bela, temida e poderosa, Cersei  se submete ao pai, se submete ao marido. É a poderosa rainha de Westeros, mas também uma mãe amorosa e insegura. Irmã gêmea de Jaime Lannister, há muito este é seu amante, mas também grande rival: a Jaime, pelo fato de ser homem, sempre foi dado tudo que lhe foi negado, pelo simples fato de ser mulher. Não cansa de lembrar que é a primogênita dos Lannister, pois embora gêmeos, seu nascimento antecedeu ao seu irmão, portanto, deveria ter direitos decorrentes dessa primogenitude.

Vilã demasiado humana, Cersei tem consciência de que um dos grandes empecilhos para concretizar sua grande ambição, governar Westeros, é seu sexo.  Dada em casamento a Robert Baratheon pelo seu pai, “como um animal” – ela nota, a fim de selar uma aliança entre os ricos Lannister e o novo rei de Westeros, ser mulher é uma limitação que não cansa de lhe atordoar. Nascida numa família poderosa, sempre lhe foi apontada a falta de um pênis que lhe permitisse exercer o poder.  E sendo o poder sua grande obsessã,o sua única chance de exercê-lo é através dos filhos, nunca em nome próprio.

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2. Arya Stark

Desde cedo, Arya se identifica com o universo masculino, rejeitando a educação que, como menina, sua família tenta lhe impor. Quer fazer tudo que um menino possa querer. Nada de bordados ou tortas. Nada de agulhas, só espadas. Em certo momento, seu pai lhe diz: “- Damas não devem brincar com espadas”. Ao que Arya rebate: “-Não estou brincando. E não quero ser uma dama!”.

É uma moral complexa a que George R. R. Martin nos apresenta. Arya é mais mortal nos livros que na série de televisão. Seu comportamento não apenas subverte o mundo feminino,  mas também o mundo infantil. Afinal, é esperada doçura e não agressividade,  tanto de mulhres quanto de crianças.

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3. Catelyn Stark

Catelyn Stark não teve dificuldades para se adaptar ao mundo das mulheres descrito na Idade Média de George R. R. Martin. Filha ideal, tornou-se noiva do homem que seu pai escolheu, a fim de fortalecer sua família de origem. Quando este morreu, seguindo as tradições, não teve qualquer problema em casar-se com seu irmão, Eddard Stark. Nenhum problema em parir os filhos que continuariam seus legados e histórias.

Catelyn tem muito em comum com Cersei. Ambas dadas em casamento como moeda de troca, seus papéis de mãe e esposa escondem outra natureza, incompatível com  a doçura frequentemente associada às mulheres.  Catelyn Stark se revelou uma hábil estrategista, forte e determinada, que não hesita em matar para tentar preservar sua prole.

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4. Daenarys Targaryen

Filha de Aerys Targaryen, antigo rei de Westeros assassinado na guerra que levou Robert Baratheon ao poder, Daenarys é uma nobre sem riqueza e uma exilada que nunca conheceu seu lugar de origem.

Danny é, provavelmente, o personagem que mais se transforma durante a história. De garota tímida e insegura, entregue em casamento pelo irmão abusivo ao poderoso Khal Drogo em troca da promessa de um exército, se torna dona de seu próprio corpo e destino.

Se seu irmão se considerava o legítimo herdeiro de Westeros, pois o único filho vivo do sexo masculino, tendo conquistado várias cidades, mas principalmente sua autonomia, Danny quer ser a rainha de Westeros, exercer o poder em nome próprio como herdeira da casa Targaryen.

A figura materna tem grande destaque em Game of Thrones.  É assim que ela se torna conhecida como mãe dos dragões, criaturas míticas a quem trata como filhos e que representam a mais concreta promessa de retomada da glória perdida.

Num mundo em que a violência impera e no qual a morte se encontra á espreita, chama a atenção o diálogo que Danny trava com outra mulher:  “Todo homem tem que morrer”, observa a mulher.  E Danny termina: “Todo homem tem que morrer. Mas nós não somos homens”.

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5. Asha Greyjoy

Asha é uma das maiores guerreiras de Games of Thrones. Se tornou o braço direito de seu pai. Não por escolha do mesmo, mas porque todos os seus filhos homens foram assassinados e o único sobrevivente, Theon, foi criado por uma uma casa inimiga, aculturado e distanciado dos costumes de sua família de origem.

Vitoriosa em batalhas, hábil no mar, possui seu próprio navio. Não deseja ser a rainha de Westeros, mas rainha do seu povo, que constitui um dos sete reinos de Westeros, os  Ironborn.

Os Ironborn são um povo valente e forte, orgulhoso da própria virilidade, que nunca foi comandado por uma mulher e que não se renderá facilmente a uma.

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6. Brienne of Tarth

Na literatura medieval, os cavalheiros desempenham um papel especial, relacionados aos odeais românticos. Brienne bem que tenta, mas a realidade se insurge contra qualquer romantismo. Como cavalheiro, é forte e destemida, ágil e cheia de destreza. Mas possui um defeito imperdoável: a de não possuir um pênis.

Ás vezes, Brienne parece uma Arya crescida.  É submetida a vários tipos de humilhação tanto por ser uma mulher que se veste e luta como um homem, quanto porque não se enquadra no estereótipo feminino.

Roube…. este post!

Apoiando-se no fato de que nenhum bem cultural é original, Catálogo de Indisciplina arrola uma série de produtos culturais to… steal:

1) “Roube este livro”: Steal this book foi publicado em 1971 por Abbie Hoffman, militante político e um dos criadores do movimento hippie. Trata-se de um clássico da contracultura no qual o autor aborda lutas contra o estado e corporações.

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2) “Roube esta idéia”: Steal This Idea foi publicado em pelo economista americano Michael Perelman em 2002, tratando da propriedade intelectual e sua limitação à criatividade.

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3) “Roube esse filme”: Steal This Film é um documentário produzido pelo grupo The League and Noble Peers que aborda o movimento contra a propriedade intelectual e o compartilhamento de arquivos.

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4) “Roube esta música”: Steal This Music é um livro de Joanna Demmers, sobre direitos autorais e, principalmente, remixes.

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5) “Roube este álbum”: Steal This Album é o terceiro álbum de estúdio da banda System of a Down. Foi lançado após ter vazado na internet músicas inacabadas que seriam do álbum “Toxicity II”. O System of a Down-SOAD, se dizendo sensibilizado pelos fãs estarem ouvindo músicas inacabadas, lançou este álbum com as versões daquelas músicas já concluídas.

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6) “Roube esta universidade” : Steal This University, coleção de ensaios organizados por Benjamin Johnson Kevin Mattson e Patrick Kavanagh, no qual os autores defendem que as universidades não existem em função do lucro.

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Shame: sob o novo, o de sempre

Michael Fassbender

Em Shame, o aclamado filme inglês lançado em 2011, o protagonista Brandon (Michael Fassbender) é um homem maduro que deveria estar casado e com filhos. Ou, pelo menos, em uma relação estável. Mas é um solteirão viciado em sexo que se vê forçado a um convívio indesejado com a irmã, Sissy (Carey Mulligan), que certo dia se instala no seu apartamento sem ser convidada ou sem pedir licença, quebrando aquela regra gritante do funk: “cada um no seu quadrado”.

É aí que Brandon perde sua paz e sua privacidade.

Ambos cultivam tipos antagônicos de egoísmos. Se tudo que Brandon deseja é estar desapegado, Sissy deseja exatamente o contrário: quer, desesperadamente, estabelecer qualquer tipo de vínculo. Carente, solitária, dependente, infantil e sem dinheiro, Sissy quer ser cuidada. Ou, em outras palavras, quer usar o irmão em seu próprio benefício. Solitário, independente, adulto e estabilizado, tudo que Brandom quer é levar sua vidinha de sempre: sozinho.

Sissy não perturba a rotina do irmão apenas porque seu olhar está em tudo – este não poderá mais se masturbar em paz, mas também porque a mesma é bagunceira e tão espaçosa que chega a transar com um homem na única cama do apartamento: a cama de Brandon. O parceiro sexual de Sissy é o chefe do irmão. Casado, só não possui uma vida sexual tão ativa quanto seu funcionário por opção. Das mulheres.

Brandom ainda tenta se enquadrar: tenta se relacionar de forma romântica com uma colega de trabalho, mas na primeira ida ao motel, descobre que essa não é sua praia. Brandom não quer saber de vínculos – e este parece ser seu maior pecado. Gosta mesmo é de sexo sem compromisso e de flertar, mas dentro de limites éticos. Só faz sexo consensual – seja pago ou gratuito, e nem cogita pegar a irmã, a quem surpreende pelada no banheiro. Em seu tempo de normalidade, antes da chegada de Sissy, a maior perversão de Brandon era fazer sexo virtual, em casa ou no trabalho (presume-se que esse comportamento não o afete profissionalmente, afinal, ele é mostrado como um executivo bem- sucedido). Mas quando a situação foge do controle, por culpa de Sissy e suas constantes demandas, se vê Brandon realizando atos grupais e homossexuais, como se fossem atos de fuga, esquecimento.

Em entrevista concedida ao Indie London, o diretor e um dos roteiristas do filme, Steve Mcqueen, afirmou que a ideia do filme surgiu ao conversar sobre a relação cada vez mais crescente entre internet, pornografia e vício em sexo com Abi Morgan, a outra roteirista. Afirmou, ainda, que a intenção do longa não era realizar um juízo moral. No entanto, essa é a primeira coisa que o filme faz, pois o título de filme já rotula a conduta de Brandon como vergonhosa.

Mas o que causa tanto dissabor a Brandon: é o fato de ter tanta necessidade de sexo ou o fato de que tal necessidade é desaprovada socialmente?

A câmara do diretor persegue implacavalmente Brandon pelas ruas de Nova Iorque, capturando suas mínimas tensões e assim se descobre que é o próprio Brandon seu maior acusador. O personagem que se queria frio e insensível, incapaz de intimidade com outros seres humanos e disposto apenas ao gozo mecânico, enfim, revela sentimentos… de culpa e inadequação. Oriundos, obviamente, do juízo negativo que imagina que a sociedade faça de sua conduta(e se esta fizesse um juízo positivo, ainda teria o mesmo motivos para vergonha?).

Ocorre que esquecemos que um filme, antes de tudo, é uma narrativa montada por alguém que a quer coerente. Daí decorre que os atos de seus personagens não são gratuitos, nem submetidos aos acasos que as vidas dos homens e mulheres de carne e osso se encontram subordinadas. É sempre um ponto de vista, não uma verdade absoluta – se é que esta existe.

Brandom não é um homem, no sentido mais amplo do termo. É um personagem. E é assim que deve ser entendido. Um personagem sempre é uma marionete: só faz o que o outro quer (claro que alguns homens e mulheres também se comportam assim, mas essa é uma outra história).

Por ser um personagem, mais do que suas ações, sua vontade é dirigida: só pode querer aquilo que aqueles que o inventaram desejam que queira. Se torna, portanto, um instrumento, um objeto. Um objeto de denúncia do quão degradante é este nosso mundinho no século XXI? Do quanto os valores se perderam?

Esquecemos que num filme, assim como em qualquer outra obra de ficção – umas menos, outras mais, o olhar do espectador também é dirigido. Não vemos o que queremos sobre a vida de Brandon. Vemos cenas previamente selecionadas e pensadas para despertar uma reação específica, para informar fatos específicos sobre o personagem a fim de que dele se faça certo juízo. Veicula uma concepção de mundo que invade nossos olhos, esquecidos de que se trata apenas de recortes – uma possibilidade  entre tantas. O filme é feito para despertar tristeza e para que o espectator se sinta aliviado, por ter uma sexualidade sadia (mas, afinal, o que é e quais os limites para uma sexualidade sadia? E quem os aponta? ). Para louvar a família – biológica, a quem deve ser reservado um tratamento especial – é isso que Sissy está constantemente relembrando a Brandon, obscurecendo o fato de que a família também é, naturalmente, um lugar de conflito. Para provar que a felicidade, realmente é uma coisa muito difícil de ser alcançada: é preciso, ainda, se adequar ao padrão da maioria.

O que filme mostra, a exaustão, é que há muitas formas de se estar insatisfeito. A de Brandon é apenas mais uma. Numa sociedade em que cada vez mais se reivindica o direito à diferença, Shame exala um incrível ranço moralista. Sob a aparência de fazer o novo, realiza algo muito costumeiro. E termina com uma chantagem sentimental: Sissy tenta o suicídio (Sim! As mulheres continuam a ser retratadas como loucas passionais…), forçando Brandom a recebê-la.

Somos Todos Ciborgues

O popular anime “Ghost in the Shell” é povoado por ciborgues: seres humanos que possuem partes mecânicas e/ou eletrônicas implantadas em seus corpos.  Enfim, híbridos. Através desses implantes, os ciborgues conseguem ultrapassar os limites do corpo humano, tendo aumentadas tanto suas capacidades físicas quanto intelectuais.

Ghost in The Shell

Ciborgues sempre permearam os filmes de ficção científica. Pareciam coisa de um futuro distante, apenas imaginável. No entanto, pensadores como Donna Haraway e Andy Clark  sustentam que já somos ciborgues. Afinal, próteses, equipamentos e dispositivos que  interferem, corrigem, aperfeiçoam e embelezam o corpo humano há tempos vêm sendo usados por nós.  Técnicas diversas têm nos garantido mais saúde e uma vida mais longa. Em cirurgias de cataratas, são implantados cristalinos artificiais depois dos naturais serem removidos. Lentes de contato são próteses oculares artificiais.

E quantos já usaram ou usam aparelhos ortondônticos ou óculos de grau? Quem já não viu uma pessoa com pinos na perna após um acidente? Quantos não usam marcapassos, aparelhos eletrônicos criados na década de 60 e implantados no corpo humano, cuja finalidade é regular as batidas de corações defeituosos? Aliás, o primeiro implante de marcapasso aconteceu em 1958, realizado pelo cardiologista sueco Ake Senning.

Segundo Haraway, o ciborgue oferece uma possibilidade quebra das limitações tradicionais de gênero, feminismo e política,  ao se mover além de dualismo.  Por não ser homem, nem máquina, masculino, nem feminino, o ciborgue pôe por terra toda a questão identitária.

Os pesquisadores Gray, Steven Mentor e Figueroa-Serriera consideram como ciborgue qualquer possuidor de órgão, membro ou suplementeo artificial, incluindo aqueles que fizeram usos de substãncias imunes, como vacinas, e que fazem usos de psicofarmalogia para pensar, se comportar ou se sentir melhor. Outros organismo, através de avanços tecnológicos são utilizados com os mesmos objetivos.


Cláudia Mitchell com sua prótese

Em 2006, Claudia Mitchell, uma mariner americana que havia perdido o braço esquerdo  em um acidente de moto, teve implantada uma prótese biônica que a mesma comanda apenas pensando no tipo de movimento que gostaria de realizar com aquele braço, como fazia com o antigo braço orgânico.

O filósofo Andy Clark,  através da Teoria da Mente Estendida,  defende que os seres humanos são naturalmente ciborgues, independente de portarem ou não implantes, chips ou terem se submetido a transplantes. Isso se deve ao fato dos humanos incorporarem, desde sempre, ferramentas que ampliam sua mente, assim compreendida como corpo, cérebro e mundo. Uma das ferramentas de maior destaque seria a fala, que esconderia sob uma aparência de naturalidade, artifícios que a fizeram roubar parte das funções dos órgãos de respiração e de deglutição. O uso dessas ferramentas faz com que a mente humana se expanda e se transforme numa mente estendida.

Andy Clark