Desconstruindo “Zona de Desconforto”, de Lindevania Martins

Lindevania Martins

 

Este post de Catálogo de Indisciplinas é muito especial, já que é sobre “Zona de Desconforto”, meu segundo livro de contos.

A ideia é contar um pouco para vocês sobre como foi o processo de escrita do livro e sobre o que ele é. Estou chamando este procedimento de desconstrução porque se enquanto na ficção tradicional o propósito é esconder os artifícios que dão coesão e que estruturam o texto, seja para conferir fluência, seja para conferir naturalidade ao mesmo, este post pretende fazer o inverso.

Escrever “Zona de Desconforto” foi um processo lento que se desenrolou por alguns anos. Atribuo essa demora ao fato de que escrever ficção é parir, ao mesmo tempo, vários sujeitos em períodos distintos de vida. É parir uma jovem, um velho, um alienígena, um cão, cidades inteiras. Então, é preciso um certo tipo de dedicação a fim de nutrir e desenvolver essas vidas.

A maioria dos oito contos do livro são narrados em primeira pessoa e essa foi uma escolha que foi se afirmando em exercícios de tentativa e erro. Em certos contos, a terceira pessoa simplesmente me bloqueava e eu não conseguia escrever. É que o pensamento é um barulho sem fim, indo em todas as direções. Se escolho escrever num registro realista, como representar essa complexidade e essa desordem? Entendi que a primeira pessoa me permitiria, dentro das minhas características, trabalhar melhor as ambiguidades e as contradições que nos atravessam e que eu gostaria de preservar.

Escolher um ponto de vista ou um personagem para narrar implica sempre em se submeter às aberturas e às limitações dessa escolha. E eram as limitações e as aberturas que me preocupavam. Ao criar um personagem à imagem e semelhança das pessoas de carne e osso, lhe podamos muitos dos seus aspectos porque eles não cabem no papel. É sempre um recorte que é mostrado sob uma grande lupa na qual suas imperfeições e virtude são aumentadas porque vistas de muito perto.  E na impossibilidade de retratar a totalidade, talvez as perguntas mais importantes sejam: O que deixar de fora? O que não merece ser visto? O que ficará para sempre na sombra?

Logo se vê que o texto não pode coincidir com a vida em si, em sua brutalidade absoluta, em sua ausência de sentido. Se a vida é puro caos e desordem, o texto precisa de certas doses de coerência, sentido e organização para que se torne compreensível para quem lê, para que não seja a expressão de um idioma solitário e impossível de traduzir. Por outro lado, como nunca se pode dizer tudo, nem escrever tudo, sempre existirão lacunas que serão preenchidas pela imaginação: não do autor, mas de um leitor ativo e engajado.

Lindevania Martins

Quando penso nos meus personagens, os vejo como frankensteins. Não por qualquer aspecto monstruoso, mas pela origem: construídos pelos meus pedaços, por pedaços de outros, por pedaços de  memória e de imaginação.  Escrever num registro realista também inclui a tarefa de apagar esses rastros, essas costuras de fragmentos tão distintos a fim de dar ilusão de continuidade, a fim de que não sejam apreendidos os limites entre o que é memória e o que é imaginação.

Ricardo Piglia, em suas famosas “Teses sobre o conto”, afirma que o gênero literário, em sua forma clássica, sempre conta conta duas histórias. Seria um jogo no qual o ficcionista oferece ao leitor uma história secreta, cifrada naquele relato mais visível – e disso resulta que uma escrita que não será espontânea, nem inocente. Alguns textos de “Zona de Desconforto” estão sob essa lente. Outros, porém, jogam com o duplo de outra forma.

Posso dizer que os grandes protagonistas de Zona de Desconforto são as relações de dominação e o que elas contém de redução de subjetividade e de exploração do humano. Nesse contexto, sobressaem os relatos de pequenas e grandes insurgências de corpos femininos, de corpos que não se submetem à classificações idealizadas do que seja uma menina, mulher, mãe. Mas também há corpos masculinos transitando nesses ambientes de fronteira: entre os scripts que definem papéis tradicionais e sua busca pessoal por novos modelos de existência.

Quando me perguntam sobre influências ou a qual tradição me filio, penso sempre na minha leitura  errática. Creio que escrevo junto com aquelas mais duros, com os mais crus. E nesse ponto, foi essencial para mim o contato com a literatura de Thomas Benhard e de Ágota Kristóf. Eles me autorizaram a escrever da forma como escrevo sem me sentir inadequada por adotar tal procedimento.

Mas o texto é do mundo e tem uma vida independente de sua origem. Avessa que sou aos sistemas autoritários, entendo que minha forma de interpretar é apenas mais uma.

Para quem me acompanhou até este ponto e está curioso sobre “Zona de Desconforto”, é possível encontrar o livro e ler pedaços dos textos no site da Editora Benfazeja. Basta clicar aqui: Benfazeja

 

A Antibiblioteca de Umberto Eco

“La biblioteca de Babel” Erik Desmazier

 

No conto “A Biblioteca de Babel”, o argentino Jorge Luís Borges nos apresenta uma biblioteca com um acervo infinito. Não por acaso também chamada de “Universo”, ela contém todos os livros do mundo: os que já existem, os livros por vir, os que fazem sentido, os que não fazem sentido, escritos em línguas mortas ou vivas, em idiomas que ainda serão inventados, livros que podem e que não podem ser decifrados.

Em razão do volume infinito dessa vasta coleção, é impossível que em uma única existência humana se consiga alcançar todos os seus volumes. Em razão da quantidade de volumes em línguas ininteligíveis, muitos desses obras permaneceriam intocadas. A Biblioteca de Babel conterá, sempre, uma infinidade de livros que nunca serão lidos.

Com uma existência mais concreta, vários vídeos disponíveis no Youtube nos apresenta um biblioteca que, embora não seja infinita, também é impressionante. Trata-se da biblioteca particular de Umberto Eco, composta por mais de 30.000 volumes.

Nas filmagens (veja aqui), se observa o escritor italiano percorrendo salas e corredores repletos de livros. Um observador pragmático, preocupado com a utilidade dos objetos, perguntaria sobre a capacidade de Eco efetuar a leitura de todos aqueles livros. Um observador com preocupações estéticas, voltaria seu olhar para as possibilidades decorativas de um acervo tão numeroso. Um outro observador, preocupado com o status conferido pela posse de tantos livros, daria um troféu a Eco por ter conseguido se apresentar como um homem tão culto.

Uma biblioteca com 30.000 volumes é quase como um “Universo”, uma Biblioteca de Babel, se considerarmos que esse número não será estanque e tenderá a crescer sempre.

Eco

O escritor Nassim Nicholas Taleb chamou a biblioteca de Eco de Antibiblioteca, citando que o italiano classificava os visitantes de duas formas. Os que tinham uma reação do tipo: “Você já leu tudo isso?”. E os seus preferidos, que compreendiam que uma biblioteca não existia para inflar o ego do seu possuidor, mas para funcionar como uma vasta reserva de conhecimento escrito.

Eco partilhava do entendimento de que livros não lidos eram mais valiosos do que livros lidos. Enquanto livros lidos já haviam se submetido ao crivo da mineração, os livros não lidos eram como um tesouro a ser descoberto, sempre se renovando e sempre desafiando o leitor.

Como na Biblioteca de Babel, muito serão os livros não lidos. O conhecimento completo será sempre impossível. Ambas as bibliotecas conterão sempre algo de inacessível, algo de incompleto.

Então, caro leitor, se você é daqueles que adoram comprar livros e sempre ouve aquelas perguntas zombeteiras: “Por que tanto livro? Você consegue ler tudo isso?”. Sinta-se em paz. Provavelmente você consegue enxergar o privilégio de ter essa fonte de conhecimento ao alcance hipotético de suas mãos e de seu espírito.

“Tive que matar”: Entrevista com Virginia Woolf

 

V Woolf Editado

 

Nascida no ano de 1882, época em que o destino das mulheres era o lar, a escritora inglesa Vírginia Woolf, autora de “Mrs. Dalloway”, “Rumo ao Farol” e “Orlando”, sempre esteve muito preocupada com a situação das suas companheiras de gênero. Não é à toa que entre seus ensaios traduzidos para o português se encontram os livros “Um Teto Todo Seu” e “Profissões Para mulheres e Outros Artigos Feministas”.

Catálogo de Indisciplinas aproveita o texto de “Profissões Para mulheres e Outros Artigos Feministas” para fazer uma bela entrevista  com Virginia, retomando um episódio muito comentado de sua carreira literária. Ela faleceu em 1941, mas a entrevista acontece agora, em junho de 2018. Afinal, não importa que nossos corpos não estejam vivos ao mesmo tempo, pois é para isso que serve a escrita, não é? Para permitir que possamos nos encontrar, para permitir que possamos ouvir os mortos e as mortas!

Então, vamos lá!

Catálogo de Indisciplinas: Virginia, no livro “Profissões Para mulheres e Outros Artigos Feministas”, lançado no Brasil pela LPM, você menciona um certo fantasma chamado “Anjo do Lar”. Que história é essa?

Virginia Woolf: Você, que é de uma geração mais jovem e mais feliz, do século XXI, talvez não compreenda bem. Mas “Anjo do Lar” é aquele ideal de mulher que deve sempre se sacrificar, ser simpática e encantadora, sem opinião ou vontade.  Então aconteceu o seguinte! Quando comecei a escrever resenhas, me vi atormentada por  esse fantasma de mulher. Eu escrevia a resenha do livro de um homem famoso e esse fantasma me dizia que, como eu era uma moça, deveria ser meiga e afável, usar as artes e manhas de meu sexo, ser pura  e não deixar ninguém perceber que eu tinha opiniões próprias. Ser esse “Anjo do Lar”, entende?

Catálogo de Indisciplinas:  Entendo, sim! Isso acontece até hoje, não só na época em que você viveu. Continua sendo um empecilho para a autonomia das mulheres. Mas nos conte, como você fez pra se livrar do fantasma?

Virginia Woolf:  Veja só! Tive que pegar o tinteiro e jogar nesse “Anjo do Lar”! Tive que partir mesmo para cima do “Anjo do Lar”, agarrar a garganta e tentar esganar!  E cada vez que eu achava que já tinha acabado com esse fantasma, ele reaparecia e eu tinha  que lidar com ele outra vez. Em vez de estar aprendendo grego ou correndo o mundo em busca de aventuras, lá estava eu, brigando com ele de novo! No fim, tive que matar! Foi difícil, demorado, mas  consegui e me orgulho disso!

Catálogo de Indisciplinas: Conseguiu matar de uma vez por todas?

Virginia Woolf:  Sim, claro!

Catálogo de Indisciplinas: Você poderia ter sido presa!

Virginia Woolf: Ah, mas se me levassem a um Tribunal, eu teria um excelente argumento! Legítima defesa! Tive que fazer isso porque segundo esse ideal do “Anjo do Lar”, as mulheres não podem falar o que pensam sobre as relações humanas, sobre a moral e o sexo,  com liberdade e franqueza. Têm que agradar, dissimular, mentir. Veja só! Foi uma dificuldade imensa realizar essa morte porque a natureza fictícia do fantasma lhe ajudou muito. É muito mais difícil matar algo sem corpo do que uma realidade corpórea. Mas se eu não matasse o “Anjo do Lar”, o “Anjo do Lar” me mataria! Ele arrancaria o coração da minha escrita!

Catálogo de Indisciplinas: Você me convenceu! Tinha que matar mesmo! E depois que o Anjo morreu, o que ficou?

Virginia Woolf:  Ficou… algo simples e comum. Uma jovem num quarto com um tinteiro. Uma moça que por ter se livrado da falsidade, tinha que ser ela mesma. E isso é complicado, ser você mesma. Afinal, o que é uma mulher?  Eu juro que não sei! Duvido que vocês saibam! E nem podem saber antes que as mulheres possam se expressar em todas as artes  e profissões abertas às capacidades humanas!

Catálogo de Indisciplinas: E você acha que as mulheres podem se expressar em todas as artes, em todas as profissões?

Virginia Woolf:  Claro que podemos! Mas há os fantasmas. Por todos os lugares há diversos tipos de fantasmas! Ainda vai levar muito tempo até que uma mulher possa escrever um livro sem ter que matar um fantasma, remover uma rocha ou algo assim, pois são muitos os obstáculos nos caminhos das mulheres. Agora, imagina! Se isso acontece na literatura, imagina  nas novas profissões que as mulheres estão começando a experimentar! Por isso é muito importante discutir  e definir essas questões, discutir os fins e as metas pelos quais lutamos, para que a gente possa combater esses obstáculos tremendos!

Catálogo de Indisciplinas: Estamos chegando ao fim da entrevista, Virginia! Quer dar algum recado  especial aos nossos leitores?

Virginia Woolf:  Quero, sim! Para as mulheres. Olhem bem! Vocês estão, com muito esforço e trabalho, pagando o aluguel e ganhando seu dinheirinho, tendo “um teto todo seu” em lugares que antes eram só dos homens. Mas essa liberdade é só o começo! Com quem será dividida sua casa? E em que termos? Pela primeira vez na história, vocês já podem fazer essas perguntas e já podem decidir quais serão as respostas! Pensem bem sobre isso!

Catálogo de Indisciplinas: Virginia, muito obrigada! Como sempre, você arrasou e suas observações nos tornaram mais atentos para essas complexas questões de gênero! Catálogo de Indisciplinas adorou falar com você e vai te convidar outras vezes!

Virginia Woolf:  De nada, querida! O prazer foi todo meu! Mas me diga uma coisa! Você já matou seu fantasminha de hoje?

A Outra Babel: línguas ficcionais

Imagem: Tomek Sętowski

Imagem: Tomek Sętowski

Todas as línguas e idiomas utilizados pelos homens foram criados. Difícil precisar todos os detalhes: Onde exatamente? Como? E por quem? Se as respostas são difíceis nos idiomas correntes, porque não foram criados por uma pessoa específica em um momento específico, em alguns casos se pode apontar facilmente o criador. E é isso que o Catálogo de Indisciplinas fará, mexendo na Torre de Babel erguida pela ficção.

Não falaremos do Dothraki, criado por J. R.R. Martin em “Game of Thrones”. Nem do Klingon, que é uma língua alienígena desenvolvida na série Jornada das Estrelas. Ou do Na’Vi, do filme “Avatar”, de James Cameron. O Sindarin, que pertence a “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, e é o mais falado de vários idiomas do reino dos elfos, ficará talvez, para outro post.

Catálogo de Indisciplinas quer tratar mesmo é das línguas fictícias que se amparam nas teorias que postulam a existência de uma relação de dependência entre linguagem e pensamento: as palavras moldariam o nosso pensamento, construindo nossas categorias mentais e determinando uma maneira específica de ver o mundo. A partir disto, nossa breve lista:

1. Novilíngua, de George Orwell (1903-1950)

Cena do filme de mesmos nome.

Cena do filme de mesmo nome, dirigido por Michael Radford e lançado também no ano de 1984.

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Publicado em 1949, “1984” é uma história de ficção científica que se desenrola dentro de um estado totalitário – Oceânia, simbolizado pelo Big Brother, que a tudo e a todos observa.

Com o fim de instrumentalizar os objetivos do estado, se desenvolveu a Novilíngua, que não é um idioma ou uma língua nova, mas a língua antiga encolhida, cada vez mais reduzida a seus elementos essenciais, manipulada para extrair dela todas as possibilidades de resistência, tudo que possa ser semente de um pensamento questionador, de expansão do pensamento e de expressão individual.

Apoiando a opressão política e acarretando o fechamento do pensamento, o significado das palavras é alterado de acordo com as necessidades do estado, vindo até mesmo a significar o oposto dos sentidos originais. É assim que o slogan do partido que comanda Oceânia declara: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Bem assim, ao inverso.

Amparada na ideia de que aquilo que não pode ser verbalizado não pode ser pensado ou comunicado, a língua opera seu próprio empobrecimento: suprime termos; suprime a sinonímia; promove confusão de significados entre antônimos a fim de banir os sentidos indesejados.

A principal função da novilíngua não é comunicar. Ela existe para garantir um pensamento igualitário, sem dissensos, impedindo não só a comunicação de ideias contrárias à ordem política estabelecida, mas até mesmo que tais ideias sejam geradas.

2. Pravic – Ursula K. Le Guin (1929-)

Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin

Em “Os Despojados: uma utopia ambígua” (1974), a ação se passa num tempo e num lugar muito distante do nosso, em que as mudanças mais profundas não se encontram nas incríveis máquinas tecnológicas do futuro, mas nos valores de uma sociedade que, ao mesmo tempo, se reflete e é refletida na língua.

Se em “1984” encontramos um estado extremamente forte, “Os Despojados” apresenta uma sociedade sem estado. Após uma revolta contra o sistema político do planeta Urras, na qual foram derrotados, em lugar de ser presos, aos revoltosos foi dada a opção de se instalar e colonizar um planeta árido e hostil: Anarres.

Quando os revolucionários se instalaram no novo planeta, com a intenção de iniciar uma nova civilização, elaboram uma nova língua. Como os primeiros habitantes dos planeta Anarres vieram de Urras, era aquele seu sistema linguístico de referência. Então, a nova língua se construiu por oposição ao Ioti, idioma de Urras. Chamada Pravic, a nova língua incorporava os valores da nova sociedade que quiseram ver instalados em Urras: uma sociedade anarquista, descentralizada, sem hierarquias, privilégios de classe e gênero, sem propriedade privada.

Um verbo central em Anarres é “compartilhar”, enquanto em Urras era “ter”. O Pravic é construído para desconstruir as estruturas tradicionais de poder. Não há palavras que expressem concepções de classe ou status, nem títulos de nobreza. Os nomes próprios não fornecem indicação quanto ao sexo das pessoas e os substantivos e adjetivos são neutros quanto ao gênero. E porque não há propriedade individual, a língua exclui os pronomes possessivos.

Palavras e concepções como prisão, escravos, casamento e moralidade, entre outros, são estranhos em Anarres. Um grande insulto em Pravic é chamar alguém de “profiter”, algo como “ganancioso interessado apenas no lucro”, significando que o mesmo não pensa no bem da comunidade. Para eles, a língua deveria reforçar o sentido de comunidade e solidariedade no mundo. Nesse espírito, um dos personagens declara: “Falar é compartilhar – a língua é uma arte colaborativa”.

3. Nadsat, Anthony Burguess ( 1917-1993)

Cena do filme de mesmo nome.

Cena do filme de mesmo nome, anglo-estadunidense, dirigido por Stanley Kubrik e lançado em 1971.

Inseridas em obras profundamente políticas, tanto a Novilíngua quanto o Pravic apostam que existe uma forte relação entre linguagem e desenvolvimento do pensamento.

Como as anteriores, a ficção de Burguess, “Laranja Mecânica” (1962 ), também possui conteúdo político: questiona se a negação ao indivíduo da sua liberdade de escolha não pode ser um mal maior que o próprio mal que o mesmo possa vir a cometer. Mas dá um tratamento diferente ao modo de falar que apresenta.

Na obra do britãnico, o Nadsat, que não é um idioma ou uma língua independente, mas uma espécie de gíria que mistura palavras em inglês, russo e o cokcney – modo de falar dos operários ingleses, é usado como forma de distinção pelo protagonista Alex, um delinquente juvenil, e seus amigos. Seu modo característico de fala marca a identidade do grupo, funcionando como barreira entre o mesmo e os outros.

Inseridos dentro de um sistema linguístico de referência, o Nadsat permite aos jovens escapar do poder regulador das palavras comuns, mantendo os mesmos à parte da cultura que os cerca: os adolescentes não partilham dos valores dos mais velhos, nem admite associações com os mesmos.

Nessa comunidade formada por Alex e seus companheiros, os drugues, onde os valores compartilhados, ligados à violência, são reforçados e celebrados, um dos efeitos do Nadsat é amenizar simbolicamente os atos de violência, que nunca são descritos na língua corrente, mas no dialeto usado pelo adolescentes.

O uso do Nadsat causa também um estranhamento no leitor, pois as gírias são usadas não apenas entre as conversas entre personagens, mas também na narração de grande parte história, que é realizada por Alex, passando ao leitor o encargo de ter que de lidar com o possível significado de cada verbete.

4. Codex Seraphinianus

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Imagem: Uma das páginas do Codex Seraphinianus.

Em 1981, o italiano Luigi Serafini (1949-) publicou um enigmático livro. Trata-se de uma enciclopédia ilustrada de um mundo imaginário, escrita numa língua estranha, usando um alfabeto igualmente estranho.

O autor declarou que não havia nenhum significado oculto na língua inventada por ele, que mais se assemelhava a uma escrita automática. Dizendo que sua escrita era artística e não linguística, Serafini declarou querer produzir no leitor a mesma sensação que teria uma criança não alfabetizada ao contemplar os símbolos linguísticos que não compreende.

Por fim, Catálogo de Indisciplinas lembra que existem muitas outras experiências de criação de língua fora do reino da ficção. John Wilkings sonhou em construir uma língua que pudesse corrigir o pensamento humano. Umberto Eco imaginou uma “Linguagem Perfeita”, racional e lógica, que eliminaria todos os mal entendidos. Criou-se o Esperanto, o Volapuk, etc. E há linguagem de computador, linguagem matemática e tantas outras coisas.

Destilando Veneno

Catálogo de Indisciplinas traz para seus leitores pérolas dos nossos queridos malditos – diretamente ou falando através de personagens, destilando veneno contra mestres do pensamento ocidental e outros escritores de grande prestígio. Vaidades, ciúmes? Não é incomum termos opiniões desfavoráveis sobre nossos semelhantes, mas nós, pobres mortais, raramente conseguimos esboçá-las com tanta destreza. Considerando que todos os envolvidos já estão mortos e enterrados – e que as opiniões insultuosas foram amplamente divulgadas, ninguém vai nos mandar pro inferno sob a acusação de  estarmos querendo jogar mais lenha na fogueira.

1) Charles Bukowski (1920-1994)  sobre William Shakespeare (1564-1616):

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 “É ilegível e valorizado mais do que deveria. Mas as pessoas não querem ouvir isso. Ninguém pode atacar templos. Shakespeare foi fixado à mente das pessoas ao longo dos séculos. Você pode dizer: Fulano de Tal é um péssimo ator”, mas não pode dizer que Shakespeare é uma m… Quando alguma coisa dura muito tempo, os esnobes começam a se agarrar a ela como pás de um ventilador. Quando os esnobes sentem que algo é seguro, se apegam. E se você lhes disser a verdade, eles viram bichos. Não suportam a negação. É como atacar o seu próprio processo de pensamento. Esses caras me enchem o saco.” (BUKOWSKI, Charles. Tough Guys Write Poetry.  Entrevista a Sean Penn. Interview Magazine, 1987).

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2) Thomas Bernhard (1931-1989) sobre Heidegger (1889-1976):

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“Não consigo imaginar Heidegger senão sentado num banco do lado de fora da sua casa na Black Forest, junto com a esposa que toda a vida o dominou e que confeccionou todas as suas meias e chapéus, assou seu pão,  teceu sua roupa de cama e até mesmo as sandálias usadas por ele. Hedeigger era brega… um pensador fraco dos montanhas alpinas, que, acredito, muito se adequa à salada filosófica alemã. Por décadas, compulsivamente consumiram esse homem,  mais que a qualquer outro, e preencheram seus estômagos com as coisas oriundas dele. Heidegger tinha um rosto comum, nada espiritual, disse Reger, ele era um homem sem espírito, desprovido de fantasia, desprovido de sensibilidade, um genuíno ruminante da filosofia alemã, sempre uma vaca com ar sério que pastava na filosofia alemã e por décadas pousou suas espertas patinhas de vaca sobre ela”. (BERNHARD, Thomas. Old Masters. Comedy.  Chicago: University of Chicago Press, 1992).

 

5) Hilda Hilst (1930-2004) sobre João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

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“Ele deslizava a lâmina da faca na água da bacia. Lembrou-se de um poeta que adora facas. Que cara chato, pô. Inventaram o cara. Nada de emoções, ele vive repetindo, sou um intelectual, só rigor, ele vive repetindo. Deve esporrar dentro de uma tábua de logaritmo. Ou dentro de um dodecaedro. Ou no quadrado da hipotenusa. Na elipse. Na tangente. Deve dormir num colchão de facas. Deve ter o pau quadrado. Êta cabra-macho rigoroso! Chato chato”. (HILST, Hilda. Contos d’Escárnio: textos grotescos. São Paulo: Globo, 2002).

Amarelo é a cor mais quente

No cinema, técnicas especiais relativas às cores são usadas para criar clima, delimitar passagens de tempo, expressar as emoções dos personagens, conduzir o olhar do espectador ou mesmo para produzir uma identidade visual.

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Em “Kill Bill” (2003),  fora o vermelho do sangue que está sempre jorrando, a fotografia dá uma tenção toda especial à uma cor bem específica. No famoso filme de Quentin Tarantino, no qual Uma Thurman enfrenta sozinha dezenas de mafiosos, o amarelo possui primazia entre todas as cores.

Muito já foi dito que as obras cinematográficas de Tarantino são cheias de referências às outras obras do universo pop: mangás, westerns italianos, filmes de kung fu, etc.. O figurino fashion de Beatrix Kiddo (Uma Thurman) é inspirado num macacão também amarelo usado por Bruce Lee no filme O Jogo da Morte (1978), assim como a roupa amarela usada por um monge em Kill Bill é inspirada na roupa amarela do personagem de quadrinhos Charlie Brown.

Representando entre os japoneses traição e poder, o  amarelo é a cor escolhida para que Beatrix Kiddo realize sua vingança: vestindo uma roupa amarela, roubando uma caminhonete amarela, pilotando uma moto amarela.

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Contrariando a frieza que a cor sugere, nos últimos tempos, nos vemos cercados de textos alegando que o azul é a cor mais quente. Todos inspirados no polêmico filme do diretor Abdellatif Kechiche, “Azul é a Cor Mais Quente” (2013), no qual uma adolescente se apaixona por uma garota de cabelos azuis.

Se o amarelo em Kill Bill é quente porque remete à uma vingança que se realiza em meio a extrema violência, o calor que o azul sugere no filme de Kechiche se origina em uma paixão erótica juvenil cuja tradução do título original, em francês, é simplesmente “A Vida de Adele”.

A história foi contada originalmente nos quadrinhos, no ano de 2010, na forma de diário, com um título mais próximo ao que a película ganhou no Brasil: “Le Bleu est une Couleur Chaude”. A Autora, Julie Maroh, optou por desenhar sua obra em preto e branco, mas sempre adicionando a cor azul em momentos ou elementos específicos: nos cabelos da personagem Emma, para demonstrar a excitação sexual, para representar a diferença. Aliás, Julie Maroh tem um blog, que você pode acessar clicando aqui.

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Mas um filme que realmente usa e abusa de uma gama cores em sua estrutura narrativa é “Herói” (2002), do diretor asiático Yimou Zhang. Como no filme Rashmon (1950), de Akira Kurosawa, o longa conta três diferentes versões da mesma história – que se passa na China antiga, num período pré-imperadores,  das quais apenas uma é verdadeira.

Tanto no tom da fotografia, quanto no figurino, as cores saltam aos olhos e ajudam na compreensão da história, sendo usadas na narração do protagonista “Sem Nome” como veículos de sua expressão, marcando épocas, fatos e sentimentos. A cada nova versão, muda a cor predominante na tela: iluminação, as cores das roupas dos personagens, os cenários.

Flashbacks aparecem em verde. Nas imagens do presente predomina o preto.  O azul é usado para contar a  versão mais melancólica. Na versão real, é o branco que predomina. Mas na primeira versão, a mais quente de todas, pondo em foco a história de amor entre dois assassinos, é contada sob a tradicional cor da paixão: vermelho.

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Mas não é só cinema que faz um uso todo especial das cores. Sua prima, a televisão, também o faz. Cheia de referências: cinematográficas, literárias e filosóficas, a série de tv True Detective (2014) se tornou uma verdadeira febre, com a exibição de sua primeira temporada com oito episódios. Como outras séries do gênero, mostra dois detetives durões ás voltas com casos violentos e bizarros. Woody Harrelson,  que já esteve em “Zombieland” (2009) e “Jogos Vorazes” (2012 e 2013), entre outros, é Martin Hart, um policial conservador, machista e beberrão, do tipo comumente apresentado em obras de detetives/policiais.

Enquanto isso, Matthew McConaughey interpreta o policial Rust Cole. Que não é nada comum. Com uma inteligência sofisticada, misantropo, antisocial, niilista e cheio de princípios, Rust é o ponto alto da série. O personagem está nos diálogos memoráveis e frases de efeito de Rust Cole que poderiam ter saído da boca de Emil Cioran, Nietzsche.

Mas o que True Detective tem a ver com um post sobre cores? E que, ainda por cima, diz que amarelo é a cor mais quente? É que os crimes bizarros e violentos investigados pela dupla de policiais estão relacionados a um certo Rei de Amarelo, personagem de outra obra, em outra linguagem.

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True Detective, com seus inúmeros fãs, acendeu um novo interesse pela obra “O Rei de Amarelo”, coleção de contos assinada por Robert W. Chambers e originalmente publicada em 1895,  nos quais um livro, com o mesmo título, exerce uma influência maldita sobre seus  leitores, levando-os à loucura.

Note-se que quando o livro foi  publicado, entre o final do século dezenove até o começo do século vinte, amarelo era cor  “da besta” entre a galera underground da época. É isso que o revisor Carlos Orsi conta na introdução à edição brasileira de O Rei de Amarelo, publicada pela editora Intrínseca: o amarelo “era o matiz do pecado, da podridão, da decadência, da loucura”; “não por acaso que o pecado, a doença e a arte moderna tinham a mesma cor”. Amarelo.

Um Jogo Desigual

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Publicada pela primeira vez em 1996 e transformada em série televisiva em 2011, os livros do americano George R. R. Martin se ambientam numa Idade Média fictícia marcada pela tradição, pois seu autor, embora escrevendo uma fantasia,  se submete aos padrões da cultura que ele quis retratar: uma sexista sociedade de classes.

O principal conflito ao qual o Jogo dos Tronos se refere pode se resumido à uma pergunta: Quem deve governar os setes reinos de Westeros? Os sete reinos são disputados por homens e mulheres, mas estas, além dos obstáculos de sempre, característicos da guerra, devem lutar, ainda, contra o fato de serem mulheres num mundo dominado por homens.

Game of Thrones é um jogo no qual dominam os privilégios de nascimento, pois o poder se transmite pela hereditariedade. Os de nascimento nobre se sobrepõem aos de nascimento comum. Os filhos legítimos se sobrepõem aos filhos bastardos.  Os primogênitos aos irmãos que os sucedem.  Os homens às mulheres.

Cersei Lannister, Arya Stark, Catelyn Stark, Daenarys Targaryen, Asha Greyjoy e Brienne deTarth,  embora todas de famílias nobres, são pessoas de segunda categoria. Nascidas mulheres, se destinam ao casamento, à família, ao exercício da cortesia. Seja como moedas de troca em casamentos arranjados ou como troféus de guerra, em tal sociedade, ser mulher é estar submetida à autoridade de outro: pelo amor ou pela violência. As competências  que não se inscrevem são negadas, as potencialidades sufocadas.

Em certo momento, um personagem masculino diz, reprovando a conduta de uma mulher: “A luta do homem ocorre no campo de batalha. A da mulher, na cama, parindo seus filhos”.

Como ser forte e como lutar num universo cujas regras se opõem a essas possibilidades?

Game of Thrones é um jogo por poder no qual as mulheres, antes de tudo, lutam contra as condições que lhe impedem, por seu sexo, o acesso ao próprio jogo.

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1. Cersei Lannister

A ficção de Martin é construída em torno de personagens complexos. Bela, temida e poderosa, Cersei  se submete ao pai, se submete ao marido. É a poderosa rainha de Westeros, mas também uma mãe amorosa e insegura. Irmã gêmea de Jaime Lannister, há muito este é seu amante, mas também grande rival: a Jaime, pelo fato de ser homem, sempre foi dado tudo que lhe foi negado, pelo simples fato de ser mulher. Não cansa de lembrar que é a primogênita dos Lannister, pois embora gêmeos, seu nascimento antecedeu ao seu irmão, portanto, deveria ter direitos decorrentes dessa primogenitude.

Vilã demasiado humana, Cersei tem consciência de que um dos grandes empecilhos para concretizar sua grande ambição, governar Westeros, é seu sexo.  Dada em casamento a Robert Baratheon pelo seu pai, “como um animal” – ela nota, a fim de selar uma aliança entre os ricos Lannister e o novo rei de Westeros, ser mulher é uma limitação que não cansa de lhe atordoar. Nascida numa família poderosa, sempre lhe foi apontada a falta de um pênis que lhe permitisse exercer o poder.  E sendo o poder sua grande obsessã,o sua única chance de exercê-lo é através dos filhos, nunca em nome próprio.

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2. Arya Stark

Desde cedo, Arya se identifica com o universo masculino, rejeitando a educação que, como menina, sua família tenta lhe impor. Quer fazer tudo que um menino possa querer. Nada de bordados ou tortas. Nada de agulhas, só espadas. Em certo momento, seu pai lhe diz: “- Damas não devem brincar com espadas”. Ao que Arya rebate: “-Não estou brincando. E não quero ser uma dama!”.

É uma moral complexa a que George R. R. Martin nos apresenta. Arya é mais mortal nos livros que na série de televisão. Seu comportamento não apenas subverte o mundo feminino,  mas também o mundo infantil. Afinal, é esperada doçura e não agressividade,  tanto de mulhres quanto de crianças.

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3. Catelyn Stark

Catelyn Stark não teve dificuldades para se adaptar ao mundo das mulheres descrito na Idade Média de George R. R. Martin. Filha ideal, tornou-se noiva do homem que seu pai escolheu, a fim de fortalecer sua família de origem. Quando este morreu, seguindo as tradições, não teve qualquer problema em casar-se com seu irmão, Eddard Stark. Nenhum problema em parir os filhos que continuariam seus legados e histórias.

Catelyn tem muito em comum com Cersei. Ambas dadas em casamento como moeda de troca, seus papéis de mãe e esposa escondem outra natureza, incompatível com  a doçura frequentemente associada às mulheres.  Catelyn Stark se revelou uma hábil estrategista, forte e determinada, que não hesita em matar para tentar preservar sua prole.

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4. Daenarys Targaryen

Filha de Aerys Targaryen, antigo rei de Westeros assassinado na guerra que levou Robert Baratheon ao poder, Daenarys é uma nobre sem riqueza e uma exilada que nunca conheceu seu lugar de origem.

Danny é, provavelmente, o personagem que mais se transforma durante a história. De garota tímida e insegura, entregue em casamento pelo irmão abusivo ao poderoso Khal Drogo em troca da promessa de um exército, se torna dona de seu próprio corpo e destino.

Se seu irmão se considerava o legítimo herdeiro de Westeros, pois o único filho vivo do sexo masculino, tendo conquistado várias cidades, mas principalmente sua autonomia, Danny quer ser a rainha de Westeros, exercer o poder em nome próprio como herdeira da casa Targaryen.

A figura materna tem grande destaque em Game of Thrones.  É assim que ela se torna conhecida como mãe dos dragões, criaturas míticas a quem trata como filhos e que representam a mais concreta promessa de retomada da glória perdida.

Num mundo em que a violência impera e no qual a morte se encontra á espreita, chama a atenção o diálogo que Danny trava com outra mulher:  “Todo homem tem que morrer”, observa a mulher.  E Danny termina: “Todo homem tem que morrer. Mas nós não somos homens”.

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5. Asha Greyjoy

Asha é uma das maiores guerreiras de Games of Thrones. Se tornou o braço direito de seu pai. Não por escolha do mesmo, mas porque todos os seus filhos homens foram assassinados e o único sobrevivente, Theon, foi criado por uma uma casa inimiga, aculturado e distanciado dos costumes de sua família de origem.

Vitoriosa em batalhas, hábil no mar, possui seu próprio navio. Não deseja ser a rainha de Westeros, mas rainha do seu povo, que constitui um dos sete reinos de Westeros, os  Ironborn.

Os Ironborn são um povo valente e forte, orgulhoso da própria virilidade, que nunca foi comandado por uma mulher e que não se renderá facilmente a uma.

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6. Brienne of Tarth

Na literatura medieval, os cavalheiros desempenham um papel especial, relacionados aos odeais românticos. Brienne bem que tenta, mas a realidade se insurge contra qualquer romantismo. Como cavalheiro, é forte e destemida, ágil e cheia de destreza. Mas possui um defeito imperdoável: a de não possuir um pênis.

Ás vezes, Brienne parece uma Arya crescida.  É submetida a vários tipos de humilhação tanto por ser uma mulher que se veste e luta como um homem, quanto porque não se enquadra no estereótipo feminino.